<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492</id><updated>2012-01-09T14:26:26.061-08:00</updated><category term='&apos;'/><title type='text'>Tolices &amp; Memórias</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-321761609575241342</id><published>2011-04-25T13:15:00.000-07:00</published><updated>2011-04-25T14:50:55.314-07:00</updated><title type='text'>açúcar e meleca</title><content type='html'>Acho que foi numa tarde de 1973.  Foi depois de ter início um curso de basquete de proporções épicas em Volta Redonda. No ginásio do Recreio do Trabalhador, o professor Paulo Camargo reuniu, na noite de 28 de agosto de 1972, cerca de 200 moleques desejosos de serem os novos Carioquinhas, Hélios Rubens e Ubiratãs do basquete nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ideia genial, que permitiria peneirar e burilar jovens talentos. Uma hora dessas falo mais do projeto de Paulinho Camargo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Tínhamos acabado de sair de um treino de basquete, no Recreio, e eu, Éneas e André  íamos céleres para a Padaria Central, na Vila. Quando entramos na rua 27,  fomos alcançados pelo Cláudio Fernando, vulgo Claudinho Meleca, apelido pegajoso que herdara dos irmãos mais velhos Marco e Paulo – nunca descobri o porque da alcunha.&lt;br /&gt;E embora, dois anos mais novo que eu e André, e há três do Enéas, Claudio era mais alto que nós três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Aonde vocês vão com tanta pressa? – perguntou-nos Claudinho.&lt;br /&gt; Visivelmente a contragosto, André revelou nossos planos. Fez isso contrariado porque Claudinho Meleca era um pidão da porra. Filava lanches de quem conhecia e até de quem não conhecia. Para se ter uma ideia da saciedade dele, durante um torneio na casa de nosso mais renhido rival no interior do estado, Nova Friburgo, ganhou o apelido de “Biféfero”, pela voracidade com que consumia bifes durante as refeições.&lt;br /&gt;-- Oba, vou nessa – afirmou Claudinho, sem esperar qualquer convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cinco minutos estávamos diante dos doces guarnecidos por vidro. Bombas, de creme e chocolate, doces de creme com maçã, brigadeiros, e toda sorte de guloseimas que tanto fascinavam nosso inexperiente e nada sofisticado paladar.     Eu pedi uma coca e um pão-de-queijo de dimensões colossais; André, sovina que só, falou que estava com a pança cheia de água gelada, sorvida num dos bebedouros do Recreio, para não pedir e gastar vintém algum. Já o Enéas, que recebera o presuntoso (sic) apelido de Banha, muito mais pelos seus hábitos alimentares do que pela gordura em si, pediu uma coca e um mil folhas. Claudinho? Nem bem tive em mãos o pão-de-queijo, enorme e vazio de recheio, e o caboclo já pedira um “tasco”, já bebendo um bom gole de meu ainda invicto refrigerante. Pedaço de pão de queijo comido, Cláudio Fernando partiu célere em busca de outra vítima. O Éneas tinha comido um micro pedaço de seu doce, quando ouviu de Claudinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Enéas, me dá um pedacinho deste mil-folhas. Parece estar uma delícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas foi fundo na canela de Claudinho.&lt;br /&gt;-- Puta merda, Claudinho. Cê só veio com a gente para filar. Que saco – disse Juninho, não se negando, no entanto, a dar uma prova para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que Enéas levou o doce até a boca de Claudinho, sem tirar a mão do lanche. No que Cláudio Fernando trincou os dentes, mordendo o também grande mil-folhas da padaria, Enéas soprou todo aquele açúcar de confeiteiro que cobre o doce no rosto do pidão. Eu, André, Enéas e a moça que nos serviu desatamos a rir. Claudinho parecia o negativo de Al Jonson (ator branco que pintara o rosto de negro para protagonizar o primeiro filme falado da história, “O cantor de jazz”, na racista década de 20 do século passado). Fez beicinho, fez cara de puto, limpou o rosto com vários guardanapos, e foi-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda demos muitas gargalhadas (que hoje soam ainda mais justas, ao menos para mim).&lt;br /&gt; Teve um tempo -- a duração pelo afã de um álbum de figurinhas -- em que toda tarde nos reuníamos eu, Claudinho Meleca e Gustavo, um cara que morava a três casas de mim, na esquina da rua 22, para jogar bafo. E eu era tão desligado, tão imbecil, que sequer atinava que raramente era o primeiro a tentar virar o bolo de figurinhas. Por causa de um velho truque deles, quase sempre ficava como o segundo ou o terceiro. O esquema era tão simples quanto funcional; como éramos três, decidíamos  a ordem de jogar no zerinho-ou-um. O Melequinha (aos irmãos mais velhos não cabiam diminutivo) e o Gustavo sempre botavam números diferentes: enquanto Claudinho botava zero, Gustavo sacava um; e vice-versa, de acordo com sinais. Assim, só cabia ao paspalho aqui decidir quem seria o primeiro: Cláudio ou Gustavo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única parte lícita do jogo era o par-ou-ímpar para escapar de ser o último a bater. Vez por outra “deixavam” de lado a falcatrua e eu conseguia ser o primeiro. Mas só faziam isso para que não ficasse evidente demais o golpe deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Puras perdas de tempo e posição. Crédulo como eu era, nunca acreditaria que me passavam a perna tão descaradamente assim. Sempre voltava da casa do Gustavo “raspelado” – sem figurinha alguma para contar história. Mas minha crença no ser humano seguia inabalável. Bons tempos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-321761609575241342?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/321761609575241342/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/04/acucar-e-meleca.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/321761609575241342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/321761609575241342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/04/acucar-e-meleca.html' title='açúcar e meleca'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-9009378804081899926</id><published>2011-04-07T19:17:00.000-07:00</published><updated>2011-04-07T19:31:49.925-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-9009378804081899926?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/9009378804081899926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/04/surto-14.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/9009378804081899926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/9009378804081899926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/04/surto-14.html' title=''/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-8858261214341571594</id><published>2011-02-10T12:49:00.000-08:00</published><updated>2011-02-10T12:51:47.665-08:00</updated><title type='text'>O registro de um porre</title><content type='html'>Zamba, vulgo Gilberto, é o terceiro na linha sucessória dos Martins de Andrade (Roxane e André são mais velhos) que têm, ao todo, seis filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como omite a origem do apelido, chegou-se a pensar em influência africana. Isso  não fosse Zamba um cara de olhos azuis que quando criança tinha os cabelos  quase brancos de tão louros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ano e meio mais novo que o André, um dos meus mais queridos amigos, em 1977 estava no primeiro ano do Segundo Grau (atual Ensino Médio). Teve um período no qual Gilberto tomava todas no sábado à noite, voltava para casa num estado lastimável e tudo negava no almoço em família no dia seguinte.&lt;br /&gt;-- Mas que porre cê tomou ontem, hein, seu Gilberto? – começava o Seu André, patriarca dos Martins de Andrade e sósia do saudoso e magnífico ator Peter Sellers.&lt;br /&gt;-- Que porre, Bola? Já vai inventar história... _ retorquia Zamba, com sua voz tronitoante, a alguns decibéis do grito, entornando o copo de suco de maracujá da Renata, outra irmã, sobre a toalha branca.&lt;br /&gt;Bola era um dos muitos apelidos dados pelos filhos ao pai. Seu André foi diretor da Companhia Siderúrgica Nacional (C.S.N.) e era um paizão, um cara muito legal – hoje é um avô coruja que só.&lt;br /&gt; Todo almoço de domingo era isso: André e o pai contando do estado irreconhecível que Zamba chegava das noitadas de sábado, com o dito refutando tudo veementemente. Era a grande atração dos almoços de domingo na imensa e aconchegante casa, projeto do seu André, engenheiro formado pelo I.T.A., que acompanhou cada parede sendo erguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A casa fica no ponto mais alto do Jardim Amália, bairro um pouco afastado da rua 40, na Vila Santa Cecília, onde os Martins de Andrade moravam antes. Olhando por &lt;br /&gt;cima do muro que circunda a piscina, encontrava-se a explicação para tão óbvio nome dado à Volta Redonda. Quase em frente da casa, há uns 200 metros, via-se o rio dar uma volta redonda – não sabia, mas é raro um rio dar voltas sobre o próprio leito. Ou seja, o nome da cidade não é tão pleonástico assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois André e o patriarca armaram de desmascarar Zamba em pleno almoço dominical. E iam fazê-lo naquele sábado mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta de duas da manhã, como toda semana, Gilberto só faltava ganir. Barry, melhor amigo do Zamba – bêbado que  nem um gambá -- dera carona para ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André, da sua janela de seu quarto no segundo andar da bela casa, avisou o Dedão – outro apelido que os filhos usavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Ele chegou, pai – disse, fechando rapidamente a janela.&lt;br /&gt; Como de costume, seu André saíra para a varanda de casa. Ele não dormia antes que todos estivessem em casa. Zamba abriu e trancou o portão fazendo um barulhão desmesurado.&lt;br /&gt;- E então, seu Gilberto? Mais uma vez, está bêbado – disse o patriarca, recebendo o filho na varanda e evitando que ele entrasse em casa, já o levando para a imensa área de serviço, espécie de primeiro andar da maravilhosa casa, onde guardavam os carros, havia uma biblioteca, uma lavanderia, um banheiro para atender quem fosse à piscina e um cômodo com duas camas. Que era para onde Seu André levava Zamba, todo sábado, para evitar que o esporro federal que o filho fazia incomodasse quem dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Naquele sábado, Zamba tinha bebido todas e mais algumas. Depois de poucos minutos, André levou o gravador até o  Zamba – no domingo, Gilberto acordava geralmente 11 horas, meio-dia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Devidamente ligado, o gravador registrava um diálogo bizarro, povoado de interrupções quando como Zamba ameaçava vomitar ou quando o carregavam para o banheiro para um indispensável banho frio antes do sono.&lt;br /&gt;E o Gilberto é um cara grande e forte e distribuía pontapés e mãozadas quando não o deixavam dormir com a roupa do corpo e cismavam de obrigá-lo a tomar banho e botar o pijama. Bem, gravaram mais de 50 minutos. Quando, enfim, depositaram Gilberto semiconsciente em sua cama, os dois ergueram a fita fosse um troféu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Caramba!! Amanhã, ou melhor, hoje será um dia glorioso – vibrava como uma criança Seu André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André deu um beijo de boa noite em Seu André e poucos minutos mais tarde estava dormindo a sono solto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte surge esplendoroso. Um céu azul sem nuvens – os únicos vestígios no ar era a fumaça expelida pelo alto-forno, a vários quilômetros de distância da casa dos Martins de Andrade. Assim logo depois do café da manhã, por volta de 8 e meia -- do qual só não participou Zamba, por motivos óbvios – foi todo mundo pra piscina, com exceção da matriarca, d. Leila, que não era muito chegada à piscina. D. Leila, de quem quatro dos filhos herdaram os belíssimos olhos – de um azul profundo, quase abissal – conservava, obviamente com o peso da idade, a beleza que fez dela Miss São  José dos Campos nos anos 50. Depois de folhear o jornal, se enfurnara na cozinha com sua fiel escudeira, Gracinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zamba não despertara muito tarde, não. Dez e meia estava de pé. Só que diferentemente dos irmãos -- Roxane, André, Renata e os gêmeos Simone e Frederico – e do pai, que se esbaldavam n’água, preferia a fresca e ampla sala na tentativa de minar a dor de cabeça típica da ressaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Gilberto, vai tomar um sol!! Sai daqui, deixa este jornal – incentivava d. Leila.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ao que contestava Zamba:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Calada, d. Florinda (personagem do enlatado mexicano “Chaves”). “Usted” acha que vou me juntar àquela gentalha se debatendo naquele fétido caldo de cana? Tá maluca? – retorquiu um Zamba já bem humorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À uma hora da tarde, d. Leila desceu à área de serviço e vibrou o sino de bronze maciço, capitalizando a atenção de todos na piscina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Todo mundo pra fora da piscina. O almoço já está pronto. Já vou servir à mesa – anunciou d. Leila para o marido e os filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fato raro: não havia convidado algum, uma amiga das meninas, um parente, ninguém de fora de casa. Àquele ia ser um almoço estritamente familiar.&lt;br /&gt;                         &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meninas e meninos se secaram e alguns até trocaram de roupa, d. Leila serviu prontamente o almoço. Era bobó de camarão, arroz e uma salada que além dos tradicionais tomate, rúcula e palmito, tinha, além de mussarela de búfala, figos e mangas cortados em finas fatias. Para beber, limonada suíça, Coca, cerveja e água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que todo mundo comeu – André e Gilberto repetiram – Zamba não sem um prato e o repeteco, derrubar, duas vezes copos de limonada sobre a toalha impecável e ser advertido com um beliscão por d. Leila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pára quieto, Gilberto. Parece que tem bicho-carpinteiro!! Cê é um  desastre na mesa. Não passa um almoço sem derrubar alguma coisa em alguém! Que inferno!! – desabafara d. Leila.&lt;br /&gt;-- Vai com calma, Leiloca. Hoje você está muito belicosa comigo – quase gritava Zamba, catalisando as atenções à mesa, emendando o gracejo com uma analogia infame. – Belicosa, beliscões, entenderam??&lt;br /&gt;Com o riso contagiante mesmo após a infâmia, desarmara d. Leila, que agora sorria, como todos à mesa. Seu André ria curtinho, balançando a barriga a cada risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gilberto é o cara mais engraçado que conheço. É de uma espontaneidade singular. Para fazer uma piada, é preciso um mínimo de tirocínio. Zamba&lt;br /&gt;  dispensa este expediente. Suas tiradas não são elaboradas e saem aos borbotões, quase sempre hilariantes. Zamba, um sujeito para lá de intenso, inquieto e ansioso, faz piada de tudo e de todos. Ele e minha comadre Luciana dariam atores cômicos maravilhosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Leila e Gracinda serviram a sobremesa: uma cocada líquida divida. Gilberto repetiu duas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que Seu André deu início ao seu plano para desmascar de vez o Zamba. Na cabeceira da mesa ergueu-se e batendo com uma colher no copo de cerveja, catalisou a atenção de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Por favor, não deixem a mesa ainda. Todo mundo sabe que eu reclamo em todo almoço dominical dos excessos etílicos do Gilberto. Conto que ele chega fora de si, vomita, apronta um banzé danado, dá socos e pontapés em quem não o deixa  dormir mesmo vomitado. E minha única testemunha é o André, que me ajuda nesta inglória tarefa. Pois bem, o Senhor Gilberto tomou outro porre ontem... – Seu André é subita e espalhofatosamente interrompido por Zamba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Num tem jeito. Quando o seu Barriga (outro personagem do humorístico mexicano “Chaves”) me chama de senhor, é que vem calúnia, mentira, exagero. Imagina quando me chamar de doutor. Aí, pode apostar que eu matei alguém – disse Gilberto, um tom acima de um diálogo civilizado, como de hábito, ameaçando levantar da mesa, no que foi contido por André:&lt;br /&gt;-- Espera aí, bichão. Vai sair daqui não; o pai e eu preparamos uma surpresa para você. Vai adorar...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Depois daquela súbita interrupção, o patriarca prosseguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bem, depois desta rude interrupção, como ia dizendo, o senhorrrr (carregou propositalmente na palavra que tanto irritava Zamba) Gilberto tomou um pifão daqueles ontem. Vomitou, deu pernada, foi um custo para botá-lo no chuveiro. E agora, com vocês a prova incontestável da balbúrdia de ontem (e Dedão olhou para André, que deixou seu lugar do lado de Zamba e voltara, do quarto, com um rádio-gravador portátil, poucos segundos mais tarde).&lt;br /&gt; -- Liga, André – pediu o patriarca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvem-se grunhidos de quem ameaça vomitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Zamba, precisa abraçar o vaso? – era o André falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Querendo, eu abraço sua perna. E vomito no seu pé – reconhecia-se, pastosa e algo débil, a voz de Gilberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--  Eeeeerrrrgghh – disparou três vezes o gravador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Gilberto, bota o dedo na goela que cê vomita – aconselhou seu André,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pai, precisamos mesmo ver esta cena patética? – é André de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora o som é mais vigoroso, vem carregado de algo mais sólido que a simples gosma da baba. Três golfadas mais tarde e ouve-se um berro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, eu tô muito mal. Quero morrer! – garante Zamba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Deixa pra morrer mais tarde, depois do banho. Acabou de vomitar, Gilberto? ...Gilberto? ...Gilberto? – ouvia-se um estapear baixo, seu André tentava reanimar Zamba. – Merda! O cara apagou. Me ajuda aqui, André. Vamos dar um banho neste pangaré.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da fita que todos, inclusive Zambão, escutavam-se, barulhos surdos de despir alguém, tênis caindo dos pés e um grunhido inicialmente inaudível, mas que foi ganhando força, até vir como um berro, acompanhado de um palavrão:&lt;br /&gt;-- Me deixem dormir, porra!!&lt;br /&gt;-- Emborcado junto a um vaso sanitário? Nada disso, vai dormir limpinho na sua caminha, Zambinha – escutava-se André, exclamar, já com voz zombeteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso ouviam sons surdos do que parecia ser uma briga. E era, explicou André, contando do esforço que foi dar banho – ou melhor, deixar uma ducha fria cair – no/sobre o irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, a captação da gravação volta a aumentar. O André foi buscar o gravador da biblioteca, onde tiraram a roupa do Gilberto, e o levou para o banheiro da piscina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Esta água tá um gelo. Num vou entrar por nada deste mundo – volta a gritar, com a voz rançosa, Gilberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novo som de músculos em luta. Até o girar da torneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, caraí – disse Zamba.&lt;br /&gt;-- Por acaso, cê bebeu cerveja e uísque quentes? – a pergunta tinha a voz de Seu André emendando: -- Num tem jeito, André, para dar banho neste bichão é impossível ficar seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, Zamba investe contra o gravador, no que é contido por André e Frederico, o irmão mais novo mas não necessariamente o menos taludo dos Martins de Andrade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sai para lá, zé – disse-lhe André, levando o gravador para longe de Zamba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Caraca. Num esperava isso do meu pai, mesmo que tenha um quê de seu Madruga (outro personagem imbecil do seriado mexicano “Chaves”). Também não esperava uma punhalada dessas desferidas pelo meu irmão mais velho, ainda que ele seja o próprio Chaves. Num vou escutar mais um segundo sequer desta maldita e caluniosa fita – afirmou Gilberto, deixando escapar uma risada quando pronuncionou “caluniosa” e rumando para seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pode ir, bobão. É bom que saiba que gravamos quase 50 minutos e que vou espalhar esta fita entre nossos amigos – ameaçou André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei que fim teve a fita; sei que Zamba só guardou distância dos porres vexaminosos por duas semanas. Voltou a encharcar a cara na companhia de Barry. Seu André continuou com os banhos evitando que Gilberto fosse dormir todo vomitado. André ajudava o pai quase sempre. Por vezes, tentava convencer seu André a deixar Zamba dormir abraçado ao vaso sanitário do banheiro da piscina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da insistência, não logrou êxito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-8858261214341571594?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/8858261214341571594/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/02/o-registro-de-um-porre.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8858261214341571594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8858261214341571594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2011/02/o-registro-de-um-porre.html' title='O registro de um porre'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-3532969122458737039</id><published>2010-11-17T06:22:00.000-08:00</published><updated>2010-11-17T06:34:16.177-08:00</updated><title type='text'>Concerto único</title><content type='html'>02-502231499 l Lasa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudei com o Manguinha, Eduardo França, por três anos. Os dois primeiros anos do Segundo Grau, mais o cursinho pré-vestibular, equivalente ao terceiro ano. Quando o conheci, era alto, esguio, dono de um nariz de responsa e farta cabeleira encaracolada e negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Devo ao Manga descobertas musicais importantes, como Bob Dylan (o Greatest Hits 2, disco duplo importado, de vinil, me foi emprestado por ele), Cream, Neil Young, Jefferson Airplane e sua cisão, o Hot Tuna e o Starship, além de outros grupos mais obscuros dos quais não me lembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a ouvir música, toda sorte dpe música – com exceção da bunda music, como rotulo axé, funk, pagode e sertanejo (não confundir com caipira, ritmo genuíno e imune à plastificação)  e genéricos, em 1974. Foi naquele ano que o  Betão, meu cunhado, mudou lá pra casa. Largara a família – mãe e avós maternos – aqui em Copa e a PUC, onde cursava o primeiro ano de Física.  Em dezembro de 74 fomos, eu, Beto e Nora, ao Rio comprar presentes. Ficamos um sábado em Lins de Vasconcelos, bairro fronteiriço ao Méier, onde morava meu tio Fante, irmão de minha mãe, tia Matilde, e meus primos, Cláudia e Carlinhos. Esta observação é digna de nota: sabem qual era o nome do meu tio Fante? A pergunta só tem valor retórico, uma vez que ninguém, ninguém, a não ser minha avó e meu avô -- a quem não cheguei a conhecer – poderia cometer tal desatino: chamar alguém de Mesophante. Ou seja, o Ricardo, que carrego agregado, de mal grado, mas carrego, ao Eros, é pinto diante de Mesophante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trago na lembrança a capa de “Milagre dos peixes” – o primeiro Milton a gente nunca esquece – e os primeiros E,L &amp; P, Genesis e Yes que entraram na minha vida.&lt;br /&gt;Dois anos mais tarde, no primeiro ano do Segundo Grau, o Macedo Soares resolveu reunir numa só turma os melhores alunos da casa e os melhores vindos transferidos de outros colégios. Eu, que não era nenhuma sumidade, mas que também não era um jerico, fui para o 1º E, mesmo destino de gênios como a Maria Inês, transferida de um colégio de Barra Mansa, Ronaldo, vindo da Fevre, um colégio em Volta Redonda, mesma origem de Manga, outro ótimo aluno. Edisom e Guilherme rivalizavam o posto de melhor (e mais chato) aluno do próprio Macedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, mas acontece que o Manguinha me chamou a atenção – já antenada musicalmente – para um monte de coisas legais. Então resolvi aprender a tocar violão, tornando-me um “bardo acústico” – logo eu, que não falo, hesito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a subir duas vezes por semana o morro em que se transformava a Rua 31, a partir da Rua 26. Logo atrás da bela Igreja de Santa Cecília ficava um Centro Cultural, onde professores davam aula de quase tudo a quase ninguém a módicos preços. Meu professor, cujo nome me escapa agora, era notório mestre de música, conhecia várias pessoas que aprenderam os primeiros acordes com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que tive umas duas semanas de aula, as seis horas. Logo na quarta aula, o professor, cujo nome, era algo como &lt;br /&gt;Penteado, insistia em “Irene”, do Caetano, que devia ter, no máximo, três acordes e era molinho e alvissareiro mesmo para iniciantes.&lt;br /&gt;Assim, não esperei muito para submeter-me à apreciação de meu guru musical. Chamei-o até em casa, e no meu quarto tentei reproduzir os poucos acordes e cantar os versos. Foi um fiasco. Sequer conseguia tirar as notas do violão e com a minha voz esganiçada tentei cantar. Qual um Belchior desrítmico insistia em “Irene rir/ Irene rir/ Irene rir/Quero ver Irene dar sua risada”. Foi surreal. Não havia ritmo. Apenas o Manga a chorar de tanto rir do meu patético desempenho ao violão.&lt;br /&gt;-- Muito bom, Eritos! Engraçado pacas!! – disse Manga, refreando seu entusiasmo devido ao meu repertório de uma nota só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despediu-se de mim e foi até à padaria Central, a uns 300 metros da minha casa, beber uma prosaica Coca-Cola.  &lt;br /&gt;                                                                E assim, a MPB perdeu um enorme talento (eu). Isso foi num sábado. Na segunda seguinte, já não fui ao Centro Cultural na 31. E o violão quedou-se num canto, de onde foi resgatado, não muito tempo mais tarde pela minha irmã, ela sim, uma boa violonista.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-3532969122458737039?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/3532969122458737039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/11/concerto-unico.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3532969122458737039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3532969122458737039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/11/concerto-unico.html' title='Concerto único'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-61368854072366848</id><published>2010-10-31T14:22:00.000-07:00</published><updated>2010-10-31T14:26:01.342-07:00</updated><title type='text'>Lumiar e o polenguinho 4.4</title><content type='html'>De manhã, logo depois de tomarmos o café, constatamos que o tempo continuava nublado, embora não chovesse àquela hora. Eram pouco mais de nove da manhã quando Claudia ligou pra a prima dela, Leila, que mora em Niterói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Alô? Ana Paula? Tudo bom? Posso falar com a tua mãe? – falava Claudia ao telefone da pousada do.... PAREM!! REBOBINEM A FITA!!! AI, ESTA HISTÓRIA DE FITA DENUNCIA A MINHA IDADE. MEUS FILHOS SEQUER IMAGINAM DO QUE SE TRATA. EM DIALETO “ANTENADO”, DÊEM UM REWIND ATÉ O COMEÇO DO TEXTO.&lt;br /&gt;“Tolices  &amp; memórias senis” faria mais justiça como título. Já estava imaginando a gente não encontrando a chave da casa, malocada não num vaso de antúrio, como dissera Leila, mas num xaxim com uma avenca no fundo da varanda.&lt;br /&gt;Bem, acabou que eu perguntei a Claudia e ela me disse que já saímos do Rio cogitando passar na volta, caso o dilúvio se confirmasse, na casa da Leila, em Friburgo. Ninguém da casa da prima da Claudia ia subir a serra, de modos que nós já saímos do Rio com as chaves da casa. Também num pergunto mais nada para a Claudia! Confiar na memória, ainda que caduca, renderia histórias mais originais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, então ainda era sexta de manhã quando decidimos ir embora da Parada do Krein. No carro do Aurélio, além da Mônica, foram quatro pessoas: Bella, Lu, Denise e Simone. A única menina a ir de ônibus foi a Claudia, para não deixar o “lindo” (eu) ir sozinho para Friburgo, embora Alex, Calmon e André estivessem no mesmo busão. Eu adorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, os do ônibus, chegamos em Friburgo por volta de dez e meia da manhã. Quem desceu com o Aurélio deve ter chegado por volta de nove e meia, mas de estômago virado: Aurélio se vangloriava de descer a serra do Mar, passagem obrigatória entre Rio e Volta Redonda, trecho perigoso e cheio de curvas, em inacreditáveis seis minutos. Mas Al estava tranqüilo como há muito não o via. Assim, acho que ele não correu tanto, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bairro onde fica a casa de Leila e Ambrósio é Nova Caledônia. Acho que é isso mesmo: pelo menos era este nome que estava estampado nas garrafas de licor (horrível!!!). E o endereço do fabricante ficava numa ruazinha perto da  casa da prima da Claudia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma casa bem confortável, com uma decoração algo kitsch como convém às casas de veraneio. Mas o que mais nos chamou a atenção foi mesmo o jardim em frente à casa. Era uma área imensa, toda gramada. Tinha até uma piscina Tony, dessas de montar. A casa era circundada por muros altos, o que garantia a intimidade de quem se molhava ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal tínhamos acabado de chegar, nem bem dividimos quem iria ocupar os quartos (dois) e a sala e pintou uma réstia de sol na varanda. Tratamos de colocar sungas, shorts, biquínis e maiôs e corremos para o jardim. Ficamos umas duas horas desperdiçando água mangueiral, molhando-nos uns aos outros e enchendo a piscina. O solzinho, muito tímido, escafedeu-se passada uma, na melhor das hipóteses, uma hora  e meia. Fervorosos adoradores do Sol, ficamos  ainda um tempinho flertando com ele – ou melhor, com o que sonhávamos -- enquanto nuvens escuras nublavam o céu. As nuvens foram ficando escuras, escuras, escuras até o céu vir abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Caraí – disparou Aurélio, ao ser atingido por grossos pingos da chuva que se  seguiu, acompanhada por um vendaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sobrou ninguém para contar a história&lt;br /&gt;E olha que eu adorava tomar chuva. E acredito&lt;br /&gt;que, pelo menos, outros caras do bando&lt;br /&gt;– Aurélio, Calmon e André - também fossem&lt;br /&gt;fãs de um pé d’água na moleira. Mas aquele&lt;br /&gt;toró era diferente: a água descia do céu&lt;br /&gt;gélida demais, como se passasse por uma&lt;br /&gt;longa e resfriante serpentina de chope. Era&lt;br /&gt;coisa do Dedo de Deus e eu nem ninguém&lt;br /&gt;tínhamos peito para encarar aquele dilúvio&lt;br /&gt;celestial. Assim, tratamos de nos refugiar no&lt;br /&gt;interior da casa: todo mundo na cozinha, pois&lt;br /&gt;estávamos ainda molhados e sujos. Formou-&lt;br /&gt;se uma fila para tomar banho. E a despeito do&lt;br /&gt;cavalheirismo reinante, o primeiro do banho&lt;br /&gt;foi o Alexandre, em quem já se insinuava uma&lt;br /&gt;gripe – os acessos de tosse nada tinham a ver&lt;br /&gt;com a sua renitência em fumar – já que o vício&lt;br /&gt;imbecilisava também André Fábio e Luciana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Também, depois daquele temporal no&lt;br /&gt;Poço Feio (era este o nome, nunca houve&lt;br /&gt;uma cachoeira chamada Véu de Noiva em&lt;br /&gt;Lumiar. Revolucionários os b.g., não?), frio&lt;br /&gt;para caramba, encarar uma fila para tomar&lt;br /&gt;yum banho, ou melhor, um filete de água quente na Casinha do Tio Chico (lembram-se do careca da Família Adams”?), queriam o quê? – resmungava Alex, entre um espirro e outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade...Além de todas precariedades&lt;br /&gt;e curiosidades, a Toca do Predador tinha&lt;br /&gt;um único banheiro para todos os hóspedes.&lt;br /&gt;Ainda bem que ele, as meninas e o André&lt;br /&gt;tomaram banho. Porque a água da casa&lt;br /&gt;acabou. Eu, Calmon e Aurélio tivemos que&lt;br /&gt;nos lavar -- as partes, inclusive, devidamente&lt;br /&gt;mascaradas pelas sungas -- na chuva, agora&lt;br /&gt;bendita chuva, mas fria pra cacete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos banhados – uns mais, outros menos&lt;br /&gt;– havia um prazer em estarmos juntos, que&lt;br /&gt;fazer qualquer coisa, desde que juntos, nos&lt;br /&gt;bastava. Ficamos juntos nas redes – alguém, possivelmente o Calmo -- alcunha do Calmon -- tem fotos nossas com uma flor de hibisco na orelha enquanto balançávamos ao sabor do vento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A não ser quando Bella fazia o papel de&lt;br /&gt;tornado e balançava, de modo inclemente,&lt;br /&gt;quem estava nas redes (eram duas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, como a chuva nos ilhava e confinava à casa, resolvemos jogar. Enfim serviu para alguma coisa os baralhos que trouxemos do Rio. Jogamos algumas partidas de mau-mau. Até que a Bella teve um rompante entusiasmado e berrou, como alguns dizem ter berrado Newton ao ser atingido pela maçã da Gravidade.&lt;br /&gt;- Dicionário!! Sabem jogar dicionário? Vamos jogar!! Eu explico pra quem não souber -- dizia, enquanto levantava-se até uma   estante da sala da Leila, onde jazia -- um dicionário não faz outra coisa senão jazer -- um volumoso Aurélio.&lt;br /&gt;- Massa, é mesmo um jogo maneiro - dizia Alex, como a concordância muda, mas enfática, de Lu, eu e Claudia. &lt;br /&gt;Para quem nunca jogou, uma breve (?) explicação: um a um, os competidores buscam no dicionário vocábulos cuja definição é a mais estranha possível, de modo que os demais participantes achem-na tão esdrúxula que acabam votando num conceito inventado por um cascateiro versado em português. As definições são escritas em pequenos pedaços de papel, lidos por quem escreve o sinônimo correto. Pontuam aqueles cuja mentira é tida como verdade e também o sujeito cuja descrição, correta, engana vários participantes. Entenderam? Se não, joguem e descubram. &lt;br /&gt;Só que para quem jogava com alguma constância como Claudia, eu, Lu, Bella e Alex, por exemplo, contava era ser o mais criativo possível. Fazer rir era bem mais legal e importante do que simplesmente ganhar o jogo. Tem até definições   que para mim são definitivas. Como quando alguém sacou uma palavra cujo significado ninguém sequer suspeitava: tembleque. Num sei quando foi, tão pouco de quem foi a genial definição. Pode  ter sido na casa  em Miguel Pereira do Décio Pinto Aquino Rego, um amigo dileto. Seria genial se o sobrenome de Décio fosse realmente este. Mas não: é um reles Coimbra o mais assíduo leitor e comentarista das besteiras deste blog.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Posso até sido eu a cometer talentosa heresia, mas é mais provável que a pérola tenha sido expelida por Claudia,  fã dos personagens do Maurício de Souza. Quando alguém leu "tembleque - expressão usada pelo Cebolinha (o famoso troca-letras criado por Maurício) avisando que sua bicicleta não tinha freio: 'Saiam da frente que esta bicicleta num tem bleque'". Maravilhoso, né? &lt;br /&gt;Pois é, há muito, para nós, o quesito criatividade era o único que levávamos em conta. A graça era encontrar significados tão estapafúrdios quanto hilários.&lt;br /&gt;Mas isso era uma "private joke" entre eu, Claudia, Bella, Alex, Lu mais Ciça e Aloy, amigos da mesma gangue, que, por motivos diversos, não foram à expedição Lumiar. Mas esta piada ficava óbvia depois da segunda rodada; era impossível que os demais participantes achassem que alguém acreditasse naqueles incabíveis, mas extremamente engraçados,  “sinônimos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas daquela vez tínhamos convidados de primeira viagem, como Calmon, André, Denise e Simone, além de Aurélio e Mônica.&lt;br /&gt;Logo no início as pessoas captaram a motivação real do jogo: azucrinar a língua portuguesa. Só que alguém lançou uma palavra cujo significado era uma engrenagem de maquinário gráfico, tipo calandra, e foi imediatamente vetada. Acho que foi a Lu que negou, criando um bordão que nos acompanha desde então: não vale “termo técnico”. Só que disso se valeu Simone, a irmã de Denise. Para ela, qualquer palavra que fugisse um pouco do óbvio, era motivo para esquivar-se e berrar:&lt;br /&gt;-- Termo técnico não vale!!&lt;br /&gt;Era engraçado pacas. Ver um monte de termos vetados, sendo que de técnicos nada tinham. Mas ninguém protestava e deixava Simone vetar o que quisesse. E ria.&lt;br /&gt;Eis que surge a vez de Isabella sugerir a palavra. Ela apenas finge que procura um vocábulo e diz na lata, para uivos entusiasmados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fimose. A palavra é fimose!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bella e todos acompanhamos a reação de Simone, que não tardou. Pensou um tiquinho e arrematou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Termo técnico – disse, sendo acompanhada por Bella no segundo vocábulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tem razão. Fimose é um termo técnico. Num vale – concordou a Loira Má, com a cara mais lambida do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gargalhada foi uníssona. Até Denise, irmã de Simone, chorou de rir. Depois chamou a irmã num canto e deve ter-lhe explicado o que era fimose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ter sido motivo de escárnio não constrangeu Simone, que continuou a vetar a escolha de palavras com o indefectível “termo técnico” pela noite adentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte, o primeiro acordou   6h30m e o último, lá pelas 10h. E, por incrível que pareça, apesar da  Bella já estar acordada, o dorminhoco não acordou com o rosto besuntado de pasta de dente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela já fizera das suas com o produto. Também, depois da deixa de TOC (transtorno obcessivo compulsivo) do André...&lt;br /&gt;-- Bem, agora que vamos partilhar todos o mesmo espaço, tenho que confessar uma mania e pedir algo a vocês – começou André, diante do silêncio atencioso de todos.  – Eu sou psico com tubo de pasta de dente. Eu só consigo usar apertando do fim para o começo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E, na hora que os primeiros foram dormir, André levou todos ao banheiro para demostrar o modo correto de usar a pasta dele (existe método certo de usar pasta de dente?): diante de uma audiência que, silenciosa porque estupefata, ele mostrava meticulosamente como tirava a pasta do tubo. Apertava do trecho que era lacrado em direção ao bico de onde saia o dentifrício. Até aí, novidade alguma. O x da questão é que André fazia vigorosa varredura, não deixando rigorosamente nada entre a parte que vinha sendo apertada e o que ainda estava cheio. Sabe um rolo compressor? Pois era assim que André Fábio deixava a pasta de dente dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, depois daquela aula sintomática de portador de TOC que André nos dera, entreolhamo-nos, já prevendo o que veríamos dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, André Fábio foi dos últimos a acordar, pois ficara num papo com Alex e Calmon até às quatro da matina.&lt;br /&gt;Bella acordou cedo e foi a primeira a ir ao banheiro. Depois dela, quem saia do cômodo não escondia o sorriso ou a gargalhada fartos. A pasta de dente Colgate, do André, jazia num canto da pia, completamente disforme.  A embalagem, de ferro, estava novamente cheia pela metade. O que vinha sendo amassado sistematicamente, estava agora novamente preenchido à meia- bomba, todo untado de creme dental, como se um ogro tivesse usado a pasta do André. E só a dele estava assim, as outras quatro estavam em decente estado.&lt;br /&gt;  Quando André acordou e foi ao banheiro, juntou gente na porta. Ele não sabia o motivo da súbita curiosidade. Vê-lo fazer xixi, ou trocar de roupa no banheiro, não podia ser. Lavar o rosto, escovar os dentes... Tolinho!  Foi olhar para sua pasta de dente, outrora tão arrumadinha, e ele entendeu o burburinho. Rindo de sua ingenuidade – não se revela uma paranóia por organização numa viagem de quatro dias ao lado de gente que mal se conhece – André foi motivo de piada por todo sábado. Mas suportou com galhardia e fair-play toda a gozação. Porém, não se viu mais sua pasta entre as que serviam à rapaziada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora estivesse frio pacas, resolvemos xeretar a noite de Tere. Acabamos dando com os costados numa boate cuja voltagem parecia bacana. A Lu já chegou deslumbrada com “Last train home”, música do grupo do guitarrista Pat Metheny, cujo toca-fitas do carro do Aurélio despejava sobre afortunados que tiveram a sorte de irem no Passat vermelho até o centro – acho que além de Luciana, foram, só para checar a música, André e Calmon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o gosto musical de Aurélio estava longe de pautar-se pela excelência. Ao lado do jazz moderno e brilhante de Pat Metheny e Lile Mays, desfilavam porcarias gravadas de discos coloridos (tinha LPs laranja, vermelho, amarelo) importados, caríssimos que Al comprava na extinta Billboard ou na Modern Sound, mecas musicais vizinhas na Barata Ribeiro, quase esquina com Santa Clara, em Copacabana. Aurélio sonhara ser Dj na sede social do Clube dos Funcionários, e aquelas porcarias coloridas continham o suprassumo do corolário dos Djs: música bate-estacas e imbecilizante.&lt;br /&gt;Mas fiquemos só no bom gosto musical de Al. Lu chegou na boate fascinada por Pat Metheny; acho que não tanto quanto Sônia Braga, com quem ele foi casado (cultura totalmente inútil), mas ainda assim fascinada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho muitas lembranças daquela noite. Só que nós bebemos um pouquinho e nos esbaldamos na pista, algo cheia para o frio que fazia. Tenho uma vaga lembrança de que rolou uma porrada feia e, eu, cheio de sentimentos de “paz e amor”, já me encaminhava para separar a briga quando Claudia me puxou e me deu um esporro:&lt;br /&gt;-- Tá maluco, lindo? Vai é se matar. Já viu o tamanho dos caras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso começaram a voar garrafas de cerveja entre os dois grupos de brigões e fomos embora. Todo mundo a pé, até Mônica. Aurélio levou rapidamente o carro para casa e juntou-se a nós. Fazia frio, lgo só demas estávamos bem agasalhados, e estávamos voltando para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos, comemos algo só de gula. Depois jogamos algumas partidas de mau-mau mais uma de War, que eu estava ganhando até o povo encher o saco e misturar os exércitos. Isso já era umas três da manhã, quando fomos dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo, à tarde, voltamos para casa. Mas antes, almoçamos num ótimo restaurante, especializado em comida alemã. Desde que chegamos a Lumiar, tínhamos isso em mente: fazer uma super-refeição num lugar bacanão. O nome do restaurante era Burgomestre. A comida era ótima – e o banheiro também. Como faltava água na casa da Leila desde a manhã de sexta, evitávamos de fazer nossas necessidades –tanto número 1 quanto número 2 - nos dois banheiros da casa, o social e o de empregada.&lt;br /&gt;Evitávamos usar ou o ambiente ficaria irrespirável. Ninguém podia fazer ôcoc – leia de trás pra frente. Os meninos evitavam fazer xixi dentro de casa – era um entra-e-sai rumo ao jardim nas madrugadas que passávamos insones. Só quem tinha licença para urinar as moças. Não fazia sentido exigir que elas também procurassem uma moitinha quando precisassem se aliviar. Sempre que saíamos, procurávamos usar banheiros de bares e valemo-nos até os sanitários da boate que fomos, na noite de sábado.&lt;br /&gt;Mas por falta de limpeza e  absoluta falta de paz não consumíamos o segundo ato desde que deixáramos o Retiro dos Artistas de Filmes Trashes, em Lumiar, na manhã de sexta-feira. Ou seja, passáramos o fim de semana sem mandar missivas para Migué (inventei esta agora, diante de outras racistas, politicamente incorretas e de péssimo – ainda que engraçado –gosto).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nos deparamos com o Burgomestre, com suas mesas cobertas de toalhas de linho, e belo decór houve uma precipitação incomum aos banheiros. Mais ou menos metade de nós resistiu à mesa, iniciando os trabalhos de pedidos para o garçom. Um senhor boa-praça, que se não entendia aquela súbita corrida de revezamento aos banheiros, ao menos teve uma paciência de Jó para voltar seguidas vezes à mesa para anotar todos os pedidos. Somente uns quatro valentes deixaram para ir depois da refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Estou guardando munição – explicava Alex.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comemos de tudo: kassler com chucrute, salsichão com salada de batatas, almôndegas...Rolou até um joelho de porco. Comíamos comunitariamente: cada um garfava o prato do outro. Pastávamos desenfreadamente, arrematando cada prato com um papo ótimo e um fantástico pão preto. Consumíamos também várias tulipas de chope claro e escuro. E para fechar a tarde, pedimos torta de maçã com creme e licor (Drambuí, Frangélico e Amarula).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, como foi fantástico o almoço e balsâmico o banheiro no/do Burgomestre. Fechamos com chave de ouro um feriado que tinha tudo para ser monótono. Além de termos deixado um monte de burgomestrezinhos para’trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A volta não foi concorrida, como em feriados prolongados.         Saímos da rodoviária por volta das cinco da tarde e antes das oito estávamos em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizemos de um inusitado encontro de pessoas que não se conheciam, uma sagração à amizade. Rimos muito, passamos perengues mil e temos muitas histórias para contar. Estas foram só algumas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-61368854072366848?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/61368854072366848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/10/lumiar-e-o-polenguinho-44.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/61368854072366848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/61368854072366848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/10/lumiar-e-o-polenguinho-44.html' title='Lumiar e o polenguinho 4.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4630273583727842041</id><published>2010-06-20T08:58:00.000-07:00</published><updated>2010-06-28T06:54:32.982-07:00</updated><title type='text'>Lumiar e polenguinho 3.4</title><content type='html'>Pegamos o ônibus numa cidade desolada. A chuva transformara aquele ponto turístico em reduto dos bichos-grilos nativos. Rodamos alguns quilômetros numa estrada de barro com o coletivo fazendo perigosas evoluções e sambando “nas curvas” (favor caprichar no dialeto chiado carioquês). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desembarcamos uns 40 minutos depois noutro ponto turístico igualmente desolado. Ficamos em São Pedro da Serra o tempo que o ônibus ficou por lá: uns 20 minutos. Tempo mais do que suficiente para conhecer todo o “centro nervoso” da cidadezinha. Que entrara em pane com aquele dilúvio. Tanto que tudo que eu imaginava ser uma loja, estava com as portas cerradas. Com exceção de uma birosca – misto de quitanda e armazém – e uma padaria, cujo néon do l do Real, estava apagado. Embora fossem menos de oito da noite, os caras da padaria já iam fechar a Confeitaria Rea  -- como se lia, sem o l. Tratamos de comprar alguns víveres, já que frigobar é luxo desnecessário na ex-talagem do sr. Gólum Klein. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que estranhamente ouvimos música. Vinha do único restaurante aberto. Era chique bem, e não havia viv’alma nas mesas. Só um sujeito que parecia o dono, pelo jeito que se dirigia aos garçons, se embebedava solitário com vinho rosé (blergh! Imagina a dor de cabeça do cara, ao acordar, no dia seguinte...).&lt;br /&gt;O motorista do ônibus veio avisar-nos que aquela era a última viagem de retorno a Lumiar. Até conjecturamos passar a noite ali, mas aquele coaxar de sapo fez aumentar significativamente o frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então pegamos o último ita em São Pedro da Serra e fomos com Klein ficar (Adeus meu pai, minha mãe/Adeus Belém do Pará... Foi só uma piadinha com o clássico “Ita do Norte”. Entenderam não? Na próxima vez, eu desenho, dããããããã....). Foi na primeira curva sacolejante que o Aurélio (não vou descrevê-lo, já o fiz nos posts de “Carnaval em Angra”) resolveu inventar um treco doido, ao que ele batizou “surfe de ônibus”. Consistia em ficar de pé no corredor do ônibus e tentar  manter-se de pé sem se segurar em  nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos lá, Erão. É divertido – dizia ele. – Vamos, gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calmon, um sujeito normalmente fechado, foi o primeiro a aderir à nova modalidade aureliana. André, Alex, Bella, Lu e eu tratamos de também tentar domar aqueles sacolejos na estrada esburacada, enlameada e cheia de curvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente Claudia  -- sabiamente, pois tem os dois lados esquerdos – Mônica – a brincadeira foi idéia do Aurélio, ah, me poupem! – e as irmãs Denise e Simone – tanto por timidez quanto por medo de se estabacarem – não participaram do surfe no circular Lumiar-São Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus vinha vazio – só recolhera um capiau no caminho, que se entrincheirara no primeiro banco. Então era nosso o rinque de patinação. Depois de muito quase metermos o nariz naquele chão infecto e barrento do ônibus – eu, André, Calmon e Bella cansamos e nos sentamos, cada qual num banco. Eis que um dos que continuaram a “surfar” – acho que foi a Luciana – tomou um caixote e para não arrebentar os quartos -- e os quintos também – caiu sentada no meu colo. Ao que eu imediatamente retruquei, para espanto geral:&lt;br /&gt;--Ai!! Meu polenguinho!!&lt;br /&gt;Lu foi a primeira a verbalizar o pensamento geral.&lt;br /&gt; -- Ué, eu caio no seu colo e você reclama do seu polenguinho? Vem cá, Claudia, como é namorar um queijeiro? – observou ela, antes de gargalhar e encontrar eco em todo mundo, incluído aí o trocador.&lt;br /&gt; Alex e Aurélio também tinham cessado o “surfe rodoviário” e estavam sentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, eu me levantei e tirei do bolso direito da calça – usava calça de algodão verde escuro, com dois longos bolsos na frente – dois queijinhos Polenguinho, devida e irremediavelmente amarfanhados pela buzanfa ( é com s?) da Luciana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  -- Ainda bem que a Lu caiu em cima do lado direito – disse, sacando do bolso esquerdo, dois chocolates e dois doces-de-leite, que vem numa embalagem de plástico e você morde uma extremidade e vai sugando o doce.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Seria mais ambíguo e muito melhor para a minha imagem se, ao ser buzanfado (pergunta que não quer calar: é com s?) pela Lu do lado esquerdo, alertasse:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;-- Ai!! Meu doce de leite!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas seria melhor só para a minha imagem porque imagina o lodaçal que ia ficar minha calça, caso algum dos sachezinhos de doce de leite estourasse. Ia ser mais ou menos como o vazamento de silicone dos peitos da Vera Fischer, coisa que aconteceu há uns cinco anos (mas que me calou fundo n’alma: volta e meia eu, ainda hoje, imagino aquela mulher que já foi uma diva, com os seios vazando).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que foi (é) uma encarnação interminável. No dia seguinte, a primeira coisa que Isabella pergunta à mesa no café da manhã (ou a pão e água, como vai insistir Luciana) a Claudia, depois de um protocolar bom dia foi:&lt;br /&gt; -- E o polenguinho do Eros, Claudia? Sobreviveu? Tá tudo bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aguente gracejos. Só quem não zoou comigo foram Denise e Simone. Até a Claudia fez piada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas voltemos à noite anterior, que ainda não acabou. Mais alguns solavancos e estávamos de volta a Lumiar. Frio e úmido pra cacete. Mas fazer o quê? A espelunca  de Chucky, o Brinquedo Assassino, não tinha área comum que abrigasse seis pessoas confortavelmente, imagina 11. Apesar da bosta do tempo, insistimos e demos uma andada até o coreto – toda aldeia tem um. Claudia tinha levado um baralho, pois já imaginávamos que seria ruim de encontrarmos lazer naquela terra. Mas o chão do coreto estava imundo e começava a chegar um povo ainda mais fedido que os bichos-grilos locais. Quando apareceu uma mulher com uma garrafa de Itapipoca, que ela sorvia pelo gargalo mesmo, fomos embora.&lt;br /&gt;-- É o melhor que a gente faz, galera – dizia Aurélio ajudando Lu a descer os poucos degraus do coreto, como bom cavalheiro que quem o conhece sabe que ele não é.&lt;br /&gt;-- Pô, mas ainda não são dez horas...Num tô com sono algum – ponderou Calmon, enquanto nos encaminhávamos para a Gruta do Gólum.&lt;br /&gt;-- Vamos ficar no nosso quarto ou no de Aurélio e Mônica. São os maiores e se todo mundo se apertar...— disse eu, quando estávamos quase chegando à pocilga, digo pousada.&lt;br /&gt;  -- Podem nos incluir fora dessa. Tá frio pra burro e a gente vai é ficar debaixo das  cobertas no nosso quarto – disse Denise,  diante de Simone, que balançava a cabeça assertivamente, partilhando da opinião da irmã mais velha.&lt;br /&gt; Eram dez e cinco quando cruzamos a porta da Pousada do Alien. Fomos para o  quarto onde eu e Claudia estávamos hospedados depois de cruzarmos com seu Klein, dona Klein e Kleinzinho diante de uma televisão... ligada!! Caramba, até alienígenas assistem novela!!!&lt;br /&gt;-- Boa noite – saudou-nos Klein.&lt;br /&gt;-- Boa noite – respondemos em uníssono.&lt;br /&gt;Já no nosso quarto, sem a presença de Denise e Simone, trocamos o baralho por uma assembléia. Dúvida: o que fazer?&lt;br /&gt;-- Dou força para a gente ir embora daqui. Vamos de volta para o Rio  -- sugeriu Aurélio, então morador de Volta Redonda, ainda livre dos “porra, meu” admitidos em seu léxico diário depois de duas décadas morando em São Paulo, capital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- PÕ, mas se a gente saiu de lá em busca de tranquilidade – ressaltou Alex.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que depois de muitas deliberações depois chegamos à seguinte decisão: de manhã cedo, Claudia ligaria para Leila, prima dela, embora minha mulher regulasse em idade com as filhas dela, as três Anas: Cristina, Paula e Beatriz. Eles (não citei o Ambrósio, marido da Leila e pai das Anas) tinham uma casa em Friburgo, que talvez estivesse vazia. Naquela época não tinha celular – uns quatro anos mais tarde, tive acesso aquela máquina revolucionária na cobertura de um show na Enseada de Botafogo. Era um tijolão imenso e eu não conseguia passar a cobertura do show pelo celular e tive que recorrer a um orelhão para passar a matéria. Ainda ficamos conversando um pouco no quarto – Lu também já tinha ido dormir. Deu onze e 15 e decidimos ir dormir. Calmon ainda estava sem sono. Pois que contasse carneirinhos (na época já namorava a Kátia Carneiro, hoje mulher e mãe de seu casal de filhos) ou papeasse só com o André no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, não entendi a pressa de Bella em ir para o quarto que dividia com Alex e Lu - àquela altura do sono dando buzanfadas (é com s?) em Morfeu. Logo que todos se despediram e foram para  seus quartos e Alexandre encontrou a porta do quarto fechada, começou a fazer sentido a pressa da  Loira Má.&lt;br /&gt;Os Quein já tinham se recolhido e o silêncio, imperativo na Toca dos Quem, reinava absoluto. Só, rarefeito, ouvia-se o sussurar de Alex diante da porta do quarto trancada:&lt;br /&gt; -- Bella! Bella! Abre a porta. Abre logo, que tá um gelo aqui fora.&lt;br /&gt; Nisso, aconteceu uma sucessão de murros e pontapés na porta. E de dentro do quarto, num fiapo de voz fingido, Isabella pedia comedimento ao Alex:&lt;br /&gt;-- Por  favor, Alex. Não faz barulho. Já são mais de 11 horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Claudia chegamos a deixar nosso quarto, atraídos pelo barulhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O que houve, Alex? Que esporro é este? – perguntei.&lt;br /&gt;Mas Alexandre nem precisou responder.&lt;br /&gt;Uma nova sucessão de murros e pontapés chacoalhou a porta fazendo de novo barulho alto. Era Bella que esmurrava a porta, enquanto Alex fazia cara de resignação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pôxa, Alex. Já te falei  pra num fazer barulho, esta é uma pousada de família – dizia Bella, com voz pausada e traindo-se para  quem escutasse suas ponderações, deixando escapar uma gargalhada entre as duas últimas palavras pronunciadas.&lt;br /&gt;Alex, da resignação, passou ao desespero.&lt;br /&gt;-- Isabella, pelo amor de Deus, abre esta p#@@% de porta – falando um tiquinho mais alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do palavrão proferido entre os dentes, ainda era grande o medo de que Jason aparecesse com sua motoserra gritando “que era proibido fazer barulho depois das dez e meia, caralho!!!”.&lt;br /&gt;Acabou que o cara não emergiu das sombras. Também, além dele, mulher e filhos, só nossa desavisada turma estava na pousada. E pouco depois, Bella abriu a porta. Ela só queria que Alex  -- ou Lu, calhasse entrar no quarto depois dela – ficasse desesperado com a situação; não pretendia obrigá-lo a uma noite gélida, depois daquelas roubadas todas, nem vê-lo retalhado pelas garras metálicas de Freddie Kruger. Objetivo cumprido, porta aberta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4630273583727842041?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4630273583727842041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-34.html#comment-form' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4630273583727842041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4630273583727842041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-34.html' title='Lumiar e polenguinho 3.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-143567828943930996</id><published>2010-06-17T11:46:00.001-07:00</published><updated>2010-06-18T07:53:23.100-07:00</updated><title type='text'>Lumiar e polenguinho 2.4</title><content type='html'>Voltemos a Lumiar e a pousada do Klein. Acho que a cidade não estava tão cheia porque urbanos, mais espertos do que nós, confiaram nos palpites meteorológicos (naquele tempo, mais do que hoje, uma loteria).  A meteorologia previa uma Semana Santa chuvosa. Mas um solzinho, ainda que tímido, na manhã de quinta (chegáramos quarta à noite), nos encheu de esperança. Fomos todos para uma cachoeira a pé -- não era muito distante da pousada -- depois de tomarmos o café da manhã. Afinal, quando se é jovem há uma ânsia de tudo aproveitar, e entre nós o que não faltava era ansiedade por um mergulho na gélida poça feita pela cascata.  Mas bastou chegarmos ao poção para cair um dilúvio. Até dava para ficar, não fosse o frio cavernoso que fazia. Era de se esperar que a chuva gelada tornasse quentes as águas vindas do Véu de Noiva (acabei de batizar, toda cidade turística tem uma cachoeira com este nome). Qual o quê! Era glacial o frio fora ou dentro d’água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim não restou outra saída senão batermos em retirada o mais depressa possível. Aurélio corria como um louco na frente de todos. Voltara pilotando o Passat, resgatando todo mundo daquele aguaceiro. Numa primeira levou Mônica, Claudia, Calmon e André mais as irmãs Denise – era diagramadora de um jornal de cinema no qual a Claudia trabalhara antes de ir para o Globo -- e Simone, outro subgrupo. &lt;br /&gt;A Denise conhecia algumas pessoas desse Dream Team – ou Nightmare Team, mais apropriado - mas a irmã só conhecia, e mesmo assim, mal, a Claudia. As duas eram bem tímidas e quietinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda leva, Aurélio recolheu quem ainda estava debaixo d’água: eu, Luciana, Alexandre e Isabella. Os três já tinham estudado com a Claudia. Alex fizera o 2º ano do Segundo Grau (hoje ensino médio) e o cursinho pré-vestibular com ela no extinto Colégio Impacto, na Rua Xavier da Silveira, onde hoje funciona um apart-hotel. Luciana e Isabella estudaram Comunicação com Claudia. Lu optou por publicidade e abandonou o curso. Já Bella concluiu jornalismo com minha mulher, mas optou pela pesquisa, enquanto Claudia se rendeu ao jornalismo, primeiro o impresso, depois o televisivo e atualmente o on-line.&lt;br /&gt; Lu é uma das pessoas mais agradáveis que eu conheço, dona de um humor ágil e inteligentíssimo. É madrinha do Caio, meu filho mais novo, e botafoguense de carteirinha como nós, aqui em casa. Meus filhos são fascinados por ela. É uma genial contadora de história. Acho que ela e o Zamba, vulgo Gilberto, irmão do André, estão comendo mosca. Dariam dois ótimos comediantes – e é muito mais difícil arrancar uma                      gargalhada do que uma lágrima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já Isabella era diabólica – no passado mesmo, porque agora, deu uma acalmada. Viajar com a Bella significava disposição para aturar toda sorte de avarias no percurso da civilidade. Acordar untado de pasta de dente ou andar um longo trecho com um pedregulho imenso na bolsa eram sinônimos de que Bella estava por perto. Poderia listar uma infinidade de qualidades de Isabella, mas o objetivo desse texto é acentuar seu lado Loira Má. É madrinha de consagração do João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro vértice deste triângulo de amigos é o Alexandre, marido da Ciça, mas que na época nem imaginava que se tornaria Alexandre Mendes. Apresentado ao grupo da Eco pela Claudia, foi imediatamente aceito e passou ser um comunicólogo desde criancinha. Alex é a tranqüilidade em pessoa. Nunca vi o cara puto, nunca. E dá papo para todo mundo, até pros chatos. Se ele tem ansiedade – um dos grandes males contemporâneos – não demonstra; tira de letra todo e qualquer embaraço. É padrinho do Caio e conhecido lá em casa como “Tio Pangaré”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Bella e Alex foram os últimos a serem resgatados por Aurélio. Como não havia o que fazer – não tinha onde se proteger da chuva – vinham ensopados debaixo de uma toalha, tiritando de frio. Não preciso me estender ao dizer que o carro do Aurélio ficou um melê com barro até o teto. E o toró que caía era gélido e assim ficou o clima o resto do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à estalagem do Pônei Cansado (como era mesmo o nome do lugar onde os hobbits de “O senhor dos anéis” encontram pela primeira vez Aragorn (Viggo Mortensen) e por ele são salvos de serem mortos? Pois o Klein era a cara e a careca, mais a careca, do Gólum) tomamos banho quente – morno ou gelado mesmo, conforme reza a Lu. E como não tínhamos como sair com aquele pé d’água, ficamos no Klein, cuja diária só incluía café da manhã, traçando uns biscoitinhos muito dos muquiranas até umas quatro da tarde, quando parou de chover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas continuava frio pra chuchu. Sei que fomos a um restaurante e fizemos um lunner (corruptela inventada agora para designar, em inglês, duas refeições em uma, no caso o almoço e o jantar. Num tem o brunch?  Então pode ter o lunner). Sem poder  usufruir das belezas naturais de Lumiar e não tendo como permanecer na pousada do Klein (a Lu me corrige e diz que a estalagem era um moquifo só), pois o silêncio era imperativo a partir das dez e meia da noite, fomos, todos, de ônibus até São Pedro da Serra, uma cidadezinha um pouco mais acima de Lumiar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-143567828943930996?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/143567828943930996/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-24.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/143567828943930996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/143567828943930996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-24.html' title='Lumiar e polenguinho 2.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-8735088119879252131</id><published>2010-06-15T15:30:00.000-07:00</published><updated>2010-06-15T15:32:02.419-07:00</updated><title type='text'>Lumiar e polenguinho 1.4</title><content type='html'>Não lembro exatamente quando foi e por que escolhemos Lumiar. Sei que foi o grupo mais eclético que jamais conseguimos reunir. Eu e Claudia mais nove amigos, de quatro grupos diferentes. Foi antes de 1989; sei que eu inda não estava casado com Claudia, tão pouco Aurélio, um amigão meu do Voltaço, casara-se com&lt;br /&gt;Mônica (eles se separaram há dois anos e tem um filho de 21 anos, o Rafael). O casal era um dos grupos ecléticos que subiu a serra.&lt;br /&gt;   Na época, o Aurélio tinha um Passat vermelho e era o único que foi motorizado para Lumiar. Nós outros, fomos de buzão mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que foi numa Semana Santa que fomos conhecer a cidadezinha que era  título de música do Beto Guedes.Também não tenho certeza quanto à pousada: se reservamos daqui ou foi nossa única opção naquele paraíso de bichos-grilos. Afinal, era um feriadão e Lumiar, como todos os cantos turísticos do Brasil, estava cheia de urbanóides, como nós, além dos b.g. de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda alternativa – última e única opção – ganha força diante da porcaria que era a pousada. Isso pode se imaginar apenas lendo o letreiro em frente ao casario: “Pousada do Klein”. As dependências até que eram limpinhas, apesar do tal do Klein parecer um adepto de uma dessas seitas apocalípticas que prenunciam o fim do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o regime interno da pousada era o óu. Era vetado qualquer tipo de barulho depois de 22h30m. Ah, devia ser por isso que a pousada jazia vazia em pleno feriadão... Numa terra onde só tem bicho-grilo, você exigir silêncio total a partir de dez e meia é pedir pra falir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas foi um aviso afixado na parede dos quartos que nos chamou a atenção. “ É terminantemente proibido queimar vela fora da latinha”. Procuramos e nada de latinha ou vela. Aí fez sentido o que o André Fábio, companheiro de Jornais de Bairro e meu vizinho de rua -- morávamos em dois dos últimos prédios da Benjamin Constant, na Glória, separados por duas casas de tolerância.&lt;br /&gt; __ Hummm. Isto está mais parecendo uma proibição para não fumar maconha. Exato! É um código: onde lê-se “é terminantemente proibido queimar vela fora da latinha” deve-se ler “é terminantemente proibido queimar maconha” – matou a charada nosso Sherlock Holmes que dividia o quarto com outro amigo do Globo, que vem a ser padrinho de nosso filho mais velho (temos trigêmeos), Milton Calmon.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;André Fábio fez algo em 1991, isto é, há quase 20 anos, que é um enigma até hoje para mim. Éramos grandes amigos – de freqüentar a casa um de outro e filar bóia sem qualquer constrangimento – e isso se seguiu ao meu casamento com Claudia. Depois de morar um bom tempo na Benjamin Constant, ele mudara-se para a Conde Laje, também na Glória. A Glória é um dos menores bairros do Rio. Visitávamo-nos regularmente, mas sem qualquer motivo aparente, André parou de nos procurar. Simplesmente riscou-nos de sua relação de amigos. A gente perguntava o porque daquele notório esfriamento de relações e André sempre saía pela tangente.&lt;br /&gt;  -- Não há nada. Só num deu para aparecer  –- justificava (?) ele, quando reclamávamos de seu súbito gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André tangenciou rapida e definitivamente, mudou-se da Glória e pulou fora de nossas vidas. Sinto falta de nossos papos sobre cinema e música pop (tínhamos, eu e ele, uma porrada de vinis e emprestávamos, um ao outro, discos com frequência). Bem, bola pra frente ou bico pro mato/que o jogo é de campeonato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-8735088119879252131?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/8735088119879252131/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-14.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8735088119879252131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8735088119879252131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/lumiar-e-polenguinho-14.html' title='Lumiar e polenguinho 1.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-6750287772978859724</id><published>2010-06-03T15:24:00.000-07:00</published><updated>2010-06-03T15:25:42.782-07:00</updated><title type='text'>Guia</title><content type='html'>Ainda  hoje continuo a passar dias em Volta Redonda. Já teve umas duas vezes em que fiquei uma semana direto na casa que era do meu pai e atualmente é da Norinha. Desde que se separou de Natasha, há dois anos, Chris, meu sobrinho, voltou a morar num quarto com banheiro nos fundos, com entrada independente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uns três anos, quando ainda tínhamos carro – um Pegeout 206, ano 2004 – que vendemos no fim do ano passado, fomos passar um fim de semana no Voltaço. Sempre ficávamos no Bela Vista, um hotel ótimo, da própria C.S.N., que montou um hotel legal por conta dos  gringos, principalmente americanos, que vinham dar consultoria na companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos em cinco, o que inviabilizava nossa permanência na casa de minha irmã; uma única vez, ficamos na casa do André, enchendo com nossas presenças uma casa grande, bonita e confortável, mas que não fora projetada para abrigar nove pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que Códia e André tiveram que deixar o quarto deles, ocupado por Claudia, eu, João e Caio; Clarinha dormiu com Ana Júlia. Códia, do André, dormiu no quarto do filho, Andrezinho, enquanto o André dormiu num quarto na cobertura. Acho que o prédio tem apenas quatro apartamentos, sendo que os do segundo andar tinham mais um pavimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, já conhecíamos de cor e salteado o apartamento do André, mas nunca acertávamos o caminho. André e família moravam no Jardim Amália II, bairro colado no Jardim Amália, onde até hoje seu André e dona Leila moram num casarão que abrigara, muito confortavelmente, os pais do André e os seis filhos do casal: três homens e três mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse senso de “desorientação” não era de se estranhar em mim. Eu me perdia até em Viçosa, uma microcidade encravada nas montanhas de Minas e que em 1979, quando fui estudar lá, não tinha mais de 40 mil habitantes.  Mas acho eu minha antice contaminava a Claudia também, de modos que nunca acertávamos o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que numa de nossas idas a Volta, combinamos de lanchar na casa do André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- ... só tem um problema – ponderava ao telefone com o André. – A gente sempre se perde quando vai à sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Num tem problema, Erão. Quando estiver entrando no Jardim Amália II me liga e eu guio vocês. Mas pega a rua Fulano e Tal e me liga. Num vai ter  erro – prometeu André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim fizemos. Quando chegamos a rua Fulano de Tal, eu, eterno no banco de carona, pois não dirijo, liguei do celular para a casa do André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Alô? André? Tudo bem, miguim? Bem, já chegamos na Fulano de Tal... – disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Agora é só subir... Já estou vendo vocês... – respondeu André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde estava linda. Castanho-clara. O sol não demoraria a se pôr. Fui interrompido em minha contemplação pela recomendação do André:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha à sua esquerda. Agora, num tem erro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei na direção que ele mandara e imediatamente me pus a gargalhar.  Do lado esquerdo, havia um imenso terreno baldio e um morro, onde estavam assentadas várias casas. Eis que numa janela, surge uma bunda nua. Imediatamente avisei às crianças e a Claudia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É só seguir a bunda – disse, gargalhando, para Claudia que, assim como o trio, chorava de rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André ria alto ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hummm... Que ventinho bom – ouvi do outro lado da linha, antes dele desligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com aquela abundancia de informações chegamos rapidinho ao destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças estavam hiper-excitadas e ansiosas para que chegássemos logo à casa do tio André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por esta e outras que os três adoram o André.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-6750287772978859724?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/6750287772978859724/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/guia.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/6750287772978859724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/6750287772978859724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/06/guia.html' title='Guia'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-2218376500044480210</id><published>2010-05-08T16:28:00.000-07:00</published><updated>2010-05-08T16:30:57.616-07:00</updated><title type='text'>O susto</title><content type='html'>O ano era 1984. O André desfrutava de seu ano sabático em Volta Redonda. Ele ficou exatos 365 dias coçando tão logo concluiu, no tempo mínimo de quatro anos, o curso de engenharia agronômica, em Viçosa, Minas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André odiava Viçosa e passara os quatro anos da faculdade arrumando pretexto para ir para  Volta Redonda. A greve que, em 1980, mobilizou milhares de alunos para o André significou dias de folga junto â família. Assim, tão logo se formou, André tratou de passar um ano sem fazer nada na casa dos pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico abandonara a UFRJ, onde cursava matemática. Foram dois anos de tola insistência. Voltou para a casa do pai e para a caixa registradora da padaria da família. Um ano trabalhando de manhã e à tarde. Até resolver  fazer concurso público e estudar para valer. Ficava na padaria das 8h ao meio-dia, quando ia para casa, se trancava no quarto e estudava como um tarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro personagem desta história sou eu. Ex-aluno de engenharia agronômica em Viçosa, onde estudara com André, estava no terceiro ano de jornalismo numa faculdade que mais parecia uma boate na Zona Sul do Rio. Estava em Volta por causa de uma semana de recesso nos estudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi numa tarde de um dia útil que André me ligou, combinando de passar lá em casa. Chegando lá, fomos até uma loja de sucos, perto do cinema Nove de Abril. Nada tínhamos para fazer naquela tarde de sol ainda cálido de agosto, quando André propôs uma incursão abrupta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E se a gente fosse na casa do Chico? São quatro e meia Se dermos sorte, pegamos ele na academia, onde ele faz aulas de jazz – André pronunciou as últimas palavras entre risos abafados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tem certeza que num vamos perder a viagem? Cê sabe onde fica a academia dele? Cê já viu ele malhando? – perguntei, vislumbrando o Chico, um sujeito cabeçudo e de ombros e pernas curtas e grossas, todo desproporcional, fazendo ginástica entre beldades de malha que abundam as academias de ginástica, seja em Volta, Rio ou Foz do Iguaçu. &lt;br /&gt;Foi uma imagem medonha, dessas que, de noite, a gente baba na fronha, se urina todo e já não tem paz, parafraseando Chico Buarque.&lt;br /&gt; Chicão nunca dera o mole de deixá-lo flagrar malhando. André desconfiava onde era a academia, mas certeza, certeza, ele não tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas entre passar a tarde vagabundeando na Vila e ir de ônibus ao Aterrado e termos a chance de flagramos o “verme” – como André, volta e meia, carinhosamente, chamava Chico – malhando, preferimos a segunda hipótese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando na casa do Chico, tocamos a campainha na expectativa de ouvirmos de sua mãe ou de uma prima, que na época morava com a família – Seu Zé Alfredo era o chefe da casa, que, por sinal, era alugada do Zé Alberto, o JALB – que o Chico estava na academia.  Se Chico tivesse mesmo ido malhar, ela era capaz de nos levar lá para assistir a cena. Achava nossas brincadeiras inofensivas e realmente eram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Oi – dissemos em uníssimo para a prima, que foi quem atendera a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Chico está tomando banho. Acabou de chegar da  academia  -- disse-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André pediu silêncio a ela, com o dedo em riste sobre os lábios para em seguida lhe sussurrar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Podemos esperá-lo no quarto dele? Mas não avisa a ele, não, ta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Claro que podem – respondeu ela, com ares de cumplicidade, sabendo que faríamos alguma sacanagem com o primo dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Chico morava na parte superior de uma casa de dois andares. Havia um lance de escadas para a casa dele e em frente um terreno coberto de brita e uma garagem encimada por folhas de zinco com capacidade para quatro carros. Ao fim da escadaria, havia vasos e xaxins com  antúrios, avencas, samambaias e comigo-ninguém-podes(?), uma espécie de varanda-selva ou vice-versa. Duas portas: uma para a sala de casa; outra para a cozinha.&lt;br /&gt; A prima do Chico nos recebeu pela porta dos fundos. Correndo, silenciosamente, passamos pela cozinha e fomos direto para o quarto dele, o primeiro do corredor, vindo da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos no quarto vazio, e excitados com a possibilidade de sacanearmos o Chicão, batemos cabeça, rindo. Penamos em dar-lhe um susto, permanecendo atrás da porta. Isso, quando entramos. Mas imediatamente mudamos de idéia: nos escondemos nas cortinas do quarto.&lt;br /&gt;Foi quando André ditou a última forma.  Sussurou para mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fica debaixo da cama. Quando ele se  aproximar e estiver com os pezinhos ao alcance das suas mãos eu dou um berro e você puxa-lhes os tornozelos.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Me joguei rapidamente no chão e, em dois segundos, estava debaixo da cama de Chico, a postos para lhes chacoalhar &lt;br /&gt;os calcanhares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ficamos pouco mais de um minuto esperando-o chegar, numa excitação de criança, rindo nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o sujeito saiu do banho, indo tranquilamente para seu quarto. Vinha com o dorso, pouco, mas pouco mesmo, menos peludo que o do Tony Ramos. Uma toalha enrolada na cintura. Todo fresquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trancou a porta e imaginei que ia tirar a toalha. Mas com ela enrolada na cintura, veio caminhando em direção da cama. De barriga para cima, preparei-me para o berro do André. Mas eis que a meio metro da cama, Chico parou. Achei que tinha descoberto o André. Mas não. O súbito breque foi seguido de uma guinada tranquila rumo ao armário que ficava na parede oposta à cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou bermuda e camiseta, deu uma última olhadela no espelho, como a constatar que sua (feia) imagem conservava-se intacta. Voltou para a cama e seus tornozelos ficaram ao alcance das minhas mãos, mas esperava o berro do André, que parecia adivinhar que Chico viraria de costas para a janela e se sentaria na cama. Pronto! Ele se posicionara de maneira ideal. E ainda ficara pensativo, de costas para a cama. Mais mamão que isso, era impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Justo quando Chico ia sentar-se, André solta um urro irreproduzível. Quase simultaneamente ao berro, minhas mãos apertaram firmemente os tornozelos de Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cara ficou lívido; não tivesse o sangue galego de seu pai (forte como um touro, embora o Chico estivesse mais para um javali) correndo nas veias, acho que ele teria um troço. Por troço, subentendesse um ataque cardíaco, um desfalecimento (uma reação bichosa) ou um piti chiliquento (idem). Mas como bom filho de portuga, só tremeu nas bases, quietando por três ou quatro segundos – tempo mais do que suficiente para que André saísse de trás das cortinas às gargalhadas e puxasse a toalha que protegia as partes pudendas do verme. Ah, decepção!! Uma cueca crivada de ursinhos Poou evitou o grand finale daquela estratégica peça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Puta que o pariu – foram as primeiras palavras de Chico depois do susto, tratando de arrancar a toalha das mãos do André. – Aposta que foi a imbecil da Lena que deixou vocês entrarem. Lena! Lena!!.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele berrava, já com a toalha em torno da cintura, enquanto abria a porta do quarto. Flagrou Lena e sua mãe se escangalhando de rir, imediatamente  atrás da porta. E elas não viram minha participação, personificando o terrível monstro que guinchava atrás da cortina. Mas com ouvidos colados à porta e prenunciando que faríamos alguma sacanagem com o Chicão, não se assustaram quanto aquele berro horrível quebrou o silêncio da dormente casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Lena, sua idiota! Tá mancomunada com eles, né? – Chico ralhava rindo e ameaçando a prima nordestina. –- O´, que eu te boto no próximo pau-de-arara de volta pra Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu um xispa na mãe e retornou para o quarto, onde eu e André deitávamos na cama e ligávamos a TV de 21’, sem qualquer cerimônia. Rindo, Chico admitiu que aquele susto fora um dos mais fortes que tomara em toda sua vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nossa presença ali era raridade. Desconcertantes eram as visitas semanais feitas por Magno e Alexandre, em 1976, no 1º ano colegial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na época, unha-e-carne, a dupla (com um estilo de humor que ora lembrava a sofisticação do Monty Python, ora assemelhava-se à grossura encardida da série “Jackass”) invadia sempre o quarto do Chico. E fuçava o armário sem qualquer constrangimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espalhavam cuecas e meias pelo quarto inteiro. Até as quatro primeiras “visitas”, Chico ainda tentava impedir que deixassem o quarto como devastado depois da passagem de um furacão. Mas já na quinta vez, resignava-se a cobrir o rosto com uma almofada do Vasco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O pior é que eles não diziam palavra. Era como se fosse um trabalho que tinham que executar.   Como vinham, partiam. Já na terceira vez que vieram, deixaram até de falar com a toupeira da Lena, que insistia em abrir a porta para a dupla – ria-se a valer Chicâo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma investida das mais engraçadas foi quando, tacando uma a uma as cuecas no chão, Alexandre deparou-se com uma que tinha a Cruz de Malta. Alex não hesitou: botou a cueca vascaína na cabeça, acabou de espalhar as tralhas no quarto e foi-se embora, usando na cabeça a cueca do Vasco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa de maluco. Coisa do Alexandre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-2218376500044480210?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/2218376500044480210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/05/o-susto.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2218376500044480210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2218376500044480210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/05/o-susto.html' title='O susto'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-5781319424864152882</id><published>2010-04-27T13:43:00.000-07:00</published><updated>2010-04-27T13:44:39.897-07:00</updated><title type='text'>Bebum, eu?</title><content type='html'>Em 1999, eu ainda andava sem ajuda de aparelho algum. Andava meio trôpego, arrastando os pés e volta e meia me amparava em paredes. Era efeito da  Machado Joseph, que tornava mais penoso o meu dia-a-dia – não muito mais penoso, um tiquinho só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podia passar em frente a um botequim impunemente. Os pinguços me olhavam como quem diz: “O que é isso, companheiro? Num pode beber, num bebe”. E de nada adiantava meus olhares mais irritados, que evidenciavam uma lucidez que só calava em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve um cara que chegou a mexer comigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá ruim, hein, camarada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tropicava no nada, em frente a um pé-sujo na Barata Ribeiro, no caminho de casa, quando ainda morava na Nossa Senhora de Copacabana. É óbvio que nada respondi. Ia falar o que para o bebum?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Meu senhor, não estou alcoolizado. É que sofro de uma doença rara, uma ataxia spino-cerebelar, conhecida como Machado Joseph...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E diria isso com a voz pastosa, pois este cocô de doença também atinge a fala.  Tá, o cara me entenderia e até se desculparia pelo comentário. Pois sim!  Fiz a minha cara mais feia (o que não era nenhuma dificuldade), encarei o cara, tratei de buscar o prumo – ainda tinha prumo, naquela época -- e seguia adiante para ouvir outro comentário jocoso, noutro boteco mais à frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prédio onde moramos até 2005 fica quase na esquina com Bolívar. Em cima de uma Bagaggio, uma loja de malas. De frente para a ruidosa Avenida Nossa &lt;br /&gt;Senhora de Copacabana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças não tinham feito um ano ainda, quando, inconformados com o aluguel, resolvemos (eu e Claudia) comprar um apartamento, juntando o nosso fundo de garantia como entrada e financiando o resto a perder de vista. Bem, o apartamento da Nossa Senhora é enorme: três quartos amplos, uma sala imensa, que se subdivide em três, um cômodo grande demais para servir como corredor, mas era o que dividia quartos, banheiro, lavabo, cozinha e sala. As dependências é que são muito ruins: a área mal cabe dois secadores de roupa e o banheiro é quase inexistente. O quarto é ok, mas sem qualquer ventilação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que incomoda mesmo é o esporro que vem da rua. Um trânsito infernal durante o dia e a noite, batidas de carros no cruzamento de madrugada, freadas ríspidas e barulhentas de ônibus a qualquer hora, vândalos depredando tudo e todos no caminho a partir de uma da manhã...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só fui ver o apartamento porque tinha me comprometido com o proprietário, que por telefone, me pareceu ser um cara legal. Foi honesto, falou que o apartamento era baixo (3º andar) e de frente. Não queria perder tempo com subterfúgios. Só queria lá gente que, de fato, estivesse a fim de encarar estes desconfortos. Era sábado, Claudia com o trio em casa – antes de nos mudarmos, morávamos no Leme, num apartamento maravilhoso na Roberto Dias Lopes, de fundos para uma encosta verde. Barulho? Nenhum. Éramos felizes moradores e sabíamos disso! Até chegamos a pensar em comprar ali no Leme mesmo, mas não tínhamos cacife. A prestação da Caixa ia ficar alta demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, mas era um sábado. E era eu quem estava à caça de um apto. Combináramos o seguinte: nós dois nos revezávamos nas idas aos imóveis anunciados. Um gostando, os dois iriam checar condições. Bem, tinha acabado de olhar um apartamento insólito na Rua Barata Ribeiro (no anúncio dizia “com ampla vista para o verde”). Bah!  O apartamento era colado ao túnel que transforma a Barata Ribeiro na Raul Pompéia e a “ampla vista para o verde” limitava-se aos tufos de capim e uma esquálida palmeira que insistiam em crescer em cima do túnel.&lt;br /&gt;Já era uma da tarde e não queria me decepcionar mais. Quase voltei para casa, onde Claudia e os moleques, nascidos há nove meses, me esperavam para o almoço. Definitivamente, não tinha mais intenção alguma de morar numa rua movimentada e &lt;br /&gt;Só fui mesmo por desencargo. Assim que toquei a campainha e me apresentei ao Marcos, filho dos donos do apartamento e responsável pela venda do imóvel,ouvi uma pessoa sentada numa mesinha, único móvel na enorme sala, o que aumentava significativamente a impressão de imensidão.&lt;br /&gt;-- Eros querido – demonstrava toda a casualidade daquele encontro Ana, acho que Paula, divulgadora de uma grande gravadora e namorada do cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, gostei do apartamento, Claudia também deu o seu aval. E graças a um despachante (de grátis não, foi pago pelo serviço) conseguimos agendar a grana que o sujeito pedia pelo apartamento dia 28 de dezembro (não tenho certeza quanto à data, sei que foi nos últimos dias de 1998). Senão, teríamos que esperar mais de um mês de recesso dos funcionários da CEF. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Bem, compramos, pintamos o apartamento e nos mudamos. Na primeira noite dormindo no novo apartamento, um calor de matar, um barulho ensurdecedor e uma convicção nada convicta no peito insone. “Eu não vou me arrepender de termos comprado a este apartamento; eu não vou me arrepender de termos comprado a este apartamento”, repetia, como um mantra, entre uma freada mais brusca de ônibus e o farol alto &amp; buzinaço  de um táxi. Algum tempo depois, instalamos um aparelho de ar-condicionado e uma janela anti-ruído – que conseguiu reduzir o barulho em 30%, 40%.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prédio tinha quatro funcionários: o porteiro-chefe, que mandava em Deus e o mundo abaixo dele – contingente não muito vasto - outro porteiro, que ficava até as dez da noite, um faxineiro, que fazia às vezes de porteiro, e um vigia noturno, que ficava insone, sério, das dez da noite às seis da manhã do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube do que vou lhes contar há pouco tempo, uns três, quatro meses. Mas aconteceu há, pelo menos, nove anos.&lt;br /&gt;Na época, quem cozinhava e arrumava para nós era Esmeralda, uma senhora negra. Rose e, primeiro Derli, depois Priscila – mais tarde Rose ficou sozinha -- se revezavam tomando conta dos molequinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esmeralda é uma mulher “sacudida” para os seus 60 e lá vai fumaça.  Fala muito e tem uma voz estridente. É uma pessoa maravilhosa, gosto demais dela. Ainda hoje ela nos visita, sempre quando Cremilda, nossa diarista de sempre (começou a fazer faxina para mim na Glória, em 1986, quando comecei a namorar a Claudia) está aqui em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que chegava na portaria do prédio, me sentia aliviado. Eram breves instantes de uma paz, que sabia fugidia, mas que valia para respirar e relaxar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que eu entrasse em casa, a luta iria continuar, só mudaria o cenário da guerra: desde cedo no trabalho, não demoraria nada a ter pela frente um tufão que atendia por três nomes: Caio, Clara e João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Então, quando cruzava a porta do prédio, vindo do trabalho, era como se todo aquele esforço que fizera para me manter equilibrado terminasse subitamente e eu pudesse relaxar. Subia o lance de escada que separava a entrada predial do elevador social quase me dissolvendo. E minha voz, já pastosa, em nada contribuía para consolidar minha figura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi, Zé. E aí, Antônio? – cumprimentava sempre informalmente o faxineiro, nordestino, e o segundo porteiro, acho que carioca, respectivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio era botafoguense doente – mas diferente de mim, que sou botafoguense e tenho uma doença. Ele era fanático, lia tudo nos jornais sobre o time. Sempre que eu chegava, entabulava uma conversa sobre o Fogão. Eu gostava de trocar idéias com ele, enquanto subia, trôpego, o lance de degraus.        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E Zé atento à minha fala...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O horário do Arnaldo, o porteiro-chefe, era das seis da manhã às duas da tarde. Antônio pegava de duas às dez da noite, Eventualmente, muito eventualmente, eles trocavam. E também me dava bem com Arnaldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - E como vai a família, Arnaldo? – perguntava, repetindo o ritual – subia as escadas me dissolvendo, palavras saindo sonolentas da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E Zé atento aos meus passos tortuosos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O faxineiro pegava meio-dia e largava às oito da noite. Ou seja, só quando tinha “pescoção” no jornal – um tour de force para fechar a edição de um caderno ou determinada editoria – eu não me encontrava com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que num belo dia, Esmeralda chegava em casa para mais uma jornada de trabalho. E cumprimentou o Zé, que como sempre retribuiu e falava (mal) de algum condômino. Era uma briga de marido e mulher no 903 ou uma sova que o pai dera no filho mais velho no 401. Só que o assunto em questão não era outro senão eu.&lt;br /&gt;  -- Me explica uma coisa, d. Esmeralda: como a d. Claudia agüenta o seu Eros?&lt;br /&gt;Esmeralda fez ares de avestruz, de completo desentendimento.&lt;br /&gt;-- Hum??? - limitou-se a grunhir sua ignorância sobre o que Zé sugeria.&lt;br /&gt;-- O cara chega mamado todo santo dia. Chega em casa trocando as pernas. E ainda tem as três crianças. Num entendo como ela num dá um pau no cara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que Esmeralda entendeu. E faltou pouco para ela dar uma porrada no Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Seu infeliz. O Eros tem uma doença muito séria. Volta e meia, ele cai aqui dentro de casa – disse Esmeralda, que quanto mais nervosa, mais esganiçada falava. – E eu ainda dando papo para um imbecil como você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechou a porta do elevador na cara feia e descomposta do Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hummmm!! Deve ser por isso que o cara, de repente, passou a carregar sacolas para mim em vez de apenas ficar torcendo para eu me esborrachar no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, eu e ele deixamos o número 960 da Nossa Senhora de Copacabana. Nunca mais o vi e imagino que ele também não mais viu este bebum que vós (hic!) escreve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-5781319424864152882?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/5781319424864152882/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/04/bebum-eu.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/5781319424864152882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/5781319424864152882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/04/bebum-eu.html' title='Bebum, eu?'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4211734030624897487</id><published>2010-04-04T17:30:00.000-07:00</published><updated>2010-04-04T17:33:04.590-07:00</updated><title type='text'>T.S. 4.4</title><content type='html'>Além do despotismo com que administrou o C.I.V.R. e de sua boca exageradamente aberta, ao botar um violento chute a escanteio, guardo poucas recordações de Osvaldo. A que mais me lateja as têmporas é de seu desempenho não em “Dr. Jekill and Mr. Hide”, mas sim em “O médico e o monstro”, como a trama foi traduzida em português.&lt;br /&gt;          Foi este arremedo de montagem que inflou o ego do sujeito. Foi imediatamente antes de assumir a presidência do clubinho que ele encarnou o médico que descobre uma droga que o transforma no mais abominável dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na TV Globo, o protagonista era vivido por Sérgio Cardoso, ator que morreria no mesmo ano em que o especial foi exibido, 1972. Não foi difícil para ele nos convencer quanto a sua predisposição para viver o protagonista. Era de longe o mais teatral da turma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado...Eu não me lembro de qualquer outra montagem. Ou seja, não posso garantir que encenássemos sempre para fazer caixa. Mas lembro-me de flashes da encenação (encenação?? feita por moleques de 11, 12 anos?) de ”O médico e o monstro”. &lt;br /&gt;A gente se empenhou para caramba. Montamos bancos com tábuas e formas cilíndricas de concreto. O quintal ficou cheio de gente, faturamos uma fortuna (dinheiro mais do que suficiente para comprarmos mariolas e marias-moles até num poder). Na única cena em que eu aparecia era dentro da casinha da Nora. Eu era o padre que ouvia as confissões terríveis do médico, que diferentemente do texto original, lembrava-se de todos os crimes cometidos enquanto monstro. Subitamente, quando o padre (eu) ficava aterrorizado com as barbáries cometidas e preparava-se para dar no pé, o médico, já sem conseguir controlar a  bizarra transmutaçãa, avançava sobre ele (o padre,eu) e o (me) esganava.&lt;br /&gt;Mas quem roubou olhares e risadas do público foi um primo de Wilkens e Nem, conhecido como Baianinho. Era imagem e semelhança do Cascão, personagem de Maurício de Souza, só que mais nanico. Como não tínhamos mulher na nossa confraria – menina alguma se interessou em fazer parte do C.I.V.R. e nunca imaginamos uma entre nós – um guri tinha que encarnar algum personagem feminino. Como achávamos ridículo se pintar e vestir de mulher, passamos o papel para o Baianinho, – que resmungou um pouco, mas aceitou. Ele -- que não era membro efetivo e só se juntava à gente nas férias -- interpretava a vítima que escapara de um ataque do médico/monstro e detonava uma caçada frenética ao protagonista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Montado” – nosso figurino tinha até uma peruca, gentilmente cedida por minha mãe – o moleque era ainda mais feio. Além de um batom que lhe esboçava a boca, lápis preto acentuavam seus feios traços. Usava uma blusa rosa, descombinando com sapatos altos vermelhos. Saia preta e meias-arrastão de igual cor completavam o figurino de Baianinho.&lt;br /&gt;  A cena -- ensaiada uma ou duas vezes – era a seguinte: o médico tentava seduzir a personagem de Baianinho. Quando enfim conseguia, cambaleava, e possuído por um ser maligno preparava-se para estrangular a “moça”, que conseguia se desvencilhar dos baços do monstro. E fugia, alertando perseguidores que no fim, davam cabo da criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Assim foi no(s) ensaio(s). Nossa apresentação, marcada para às 19h, começara com uns dez minutos de atraso. Afinal, alguns de nós, atores, tínhamos que fazer às vezes de bilheteiros e lanterninhas, acomodando o público nas arquibancadas de tábua.&lt;br /&gt;Na hora do ”vamo ver”, o Baianinho perdeu a peruca e aquele tufo de cabelos crespos encimava aquela figura grotesca, de batom, saia preta e meias-arrastão que esquecera a fala. Perdido em cena, ele fez uma cara de pavor e correu rumo às arquibancadas e seu desespero arrancou genuínas gargalhadas. Só que a nossa idéia era fazer um espetáculo que deixasse as meninas de cabelo em pé, medonho mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando nós, “atores”, voltamos à cena para os agradecimentos de praxe, o mais aplaudido, de longe, foi o Baianinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra recordação que guardo do Osvaldo não é propriamente dele, mas de Wilkens. Depois que  Osvaldo e Paulinho foram para casa deles irreversivelmente&lt;br /&gt;brigados conosco, Vito cismou que ia dar porrada nele e já no dia seguinte. Para isso, iria cercá-lo no campinho de capim em frente ao Recreio do Trabalhador, por onde Osvaldo tinha que passar rumo ao Macedo Soares. Osvaldo ia para o colégio de manhã cedo; saía de casa sete e meia, mais ou menos. Ou seja, Vito ia ter que acordar bem cedinho se quisesse dar uns catiripapos no Osvaldo.&lt;br /&gt;  -- Num tem problema. Acordo até de madrugada para dar um cacete naquele bostinha – dizia, convicto, Vito.&lt;br /&gt;  Wilkens era bem mais forte que Osvaldo. Mas era muito, muito, muito, muito mais feio.  Sabe a morte? Pois ela rivalizaria em feiúra com Wilkens!! O cara tinha umas olheiras de zumbi, um nariz torto, uma boca feia, com dentes tortos e incivilizados. Era o....(pera, estou contando) sexto numa família de dez filhos. Valmir, Valdir, Valter. Wilson, Vilma, Wilkens, Aluísio, Maria de Fátima, Rosangela e Marcos. Escrevendo os nomes é que me toquei que todos até Wilkens deviam  ser grafados com W. Quando o Nem chegou, os pais deviam estar de saco cheio de botar nome de filho começando com W e aí botaram os nomes que mais gostavam...a menos que...Nada, não. Por breves instantes, imaginei as certidões dos quatro últimos filhos de Seu Wilkens (sim, acho que Vito era Júnior) e dona Coisa (ela era a responsável pelas olheiras dos filhos). Waloísio, Waria de Wátima, Wosângela e Warcos. Exagero...&lt;br /&gt; Mas Vito cumpria a ameaça e cedinho estava de tocaia no campinho por onde Osvaldo passava para ir para o colégio.&lt;br /&gt;Quando viu Wilkens, deu sebo nas canelas; já devia prever um acerto de contas com o troglodita, que acho, também estudava de manhã, na Escola Pandiá Calógeras, que formava mão-de-obra especializada para a Companhia Siderúrgica Nacional. Vito ficou só nos xingamentos:&lt;br /&gt; -- Foge não, viadim.&lt;br /&gt;-- Arrombado. Vou te dar porrada.&lt;br /&gt; Sabedor da tenacidade jumenta de Vito, Osvaldo dava uma volta muito maior atéo colégio, subindo a rua 31, onde ficava a igreja de Santa Cecília. O caminho era paralelo ao caminho original, só que mas cansativo e mais demorado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais demorou apenas três dias para que Vito percebesse o estrategema de Osvaldo e preparar-se para, entocado perto da ponte na rua 26, quase na rua 31, surpreender Osvaldo.&lt;br /&gt; O ex-presidente do C.I.V.R. vinha ressabiado e atento com tudo à sua volta. Percebeu que havia alguma coisa errada na ponte. Parou, como um antílope ao farejar o leão. Vito acreditou que poderia alcançar Osvaldo na corrida. Besteira. Osvaldo fugiu correndo de volta para casa.&lt;br /&gt; Vito , mais corpulento, ficou muito atrás e teve que se contentar novamente em xingar o desafeto:&lt;br /&gt; -- Covarde, bundão. &lt;br /&gt;-- Osvaldicha!!&lt;br /&gt;Não sei o que o Osvaldo contou ao pai, mas o Seu Lionel passou a levar – antes de ir para o Escritório Central, no coração da Vila  -- e trazer Osvaldo a bordo do Simca. Como tudo era muito perto, Seu Lionel almoçava em casa com a família. Bem, Wilkens desistiu de dar um pau no Osvaldo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguramente, há mais de 36 anos que não o vejo. A última notícia que tive do ex-presidente do C.I.V.R. foi que virara modelo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4211734030624897487?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4211734030624897487/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/04/ts-44.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4211734030624897487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4211734030624897487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/04/ts-44.html' title='T.S. 4.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-3646124296172864189</id><published>2010-03-21T11:38:00.000-07:00</published><updated>2010-03-22T15:30:50.603-07:00</updated><title type='text'>T.S. 3.4</title><content type='html'>No encontro seguinte com Osvaldo e Paulinho, estavam todos reunidos: eu, Marcos, David, Samuel, Vito e Nem.&lt;br /&gt;Pela primeira vez, eu estava batendo de frente com o Osvaldo. Questionava tudo: a TS, seu modo soberbo de tratar as pessoas, o clima de rivalidade entre os irmãos mais eu e os demais membros do C.I.V.R..&lt;br /&gt;No que ponderei, uma infinidade de reclamações explodiu.&lt;br /&gt;-- Você e o Paulinho são dois metidos – David, o mais franzino de todos, metia o dedo no nariz do então presidente do C.I.V.R.&lt;br /&gt;-- Num sei o que viram aqui. Voltem lá para os lados da rua 24 – disse, já no auge da cizânia, Vito.&lt;br /&gt;Encurralado e prestes a ser tirado na marra do grupo, Osvaldo, como era de seu feitio, dramatizou ao máximo seu gingado rumo ao cadafalso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre olhares arregalados e boca exageradamente aberta, como Peter Lorre em “M., o vampiro de Düsseldorf” – jóia expressionista do cinema &lt;br /&gt;alemão – Osvaldo sentia-se e demonstrava-se acuado. Ainda tentou um último apoio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Depois de tudo o que fiz, vocês estão me enxotando? É isso, Eros? – Osvaldo buscava a mim, não que eu tivesse ascendência sobre os outros; mas tudo funcionava lá em casa, do C.I.V.R. às exposições de tranqueiras usadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E o que você fez, Osvaldo? – interpelava Marcos. – Nada, só trouxe briga.&lt;br /&gt; Sabendo que perdera a guerra, o ex-goleiro do Topo Giggio, ainda tentou uma saída dramática. Com os olhos verdes quase pulando das órbitas, entrou no meu quintal seguido por todos agora ex-TSs.&lt;br /&gt;Entrou na sede do Clube Infantil e pegou um porquinho de plástico, onde estavam todas nossas economias.&lt;br /&gt; -- Então vamos jogar fora o que conseguimos juntos – disse ele, caminhando até o Jardim dos Inocentes. – A  gente taca foge nas notas e no cofre, que é de plástico e joga aos ventos todas as moedas – propôs, filosoficamente, Osvaldo.&lt;br /&gt; -- Uma ova!! – contestou Vito, matando a poesia que Osvaldo pretendia dar ao seu último ato como nosso líder. – Vamos é dividir o dinheiro.&lt;br /&gt; Vito foi apoiado por todos nós, quer por olhares ou por exclamações.&lt;br /&gt;Wilkens prontamente tomou o cofre das mãos de Osvaldo e com a ajuda de um canivete – não sei de onde surgiu – rasgou o porquinho de plástico. Deu uma mixaria para cada um de nós, Prontamente gasta com balas e chocolates pelos mais afoitos, como Muel, Nem e David – sinceramente teria tido destino mais digno fosse incinerado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quê fizera Osvaldo sair das imediações da rua 24 e se misturar cam moleques  como nós? É que nesta fase de idade a gente costuma fazer amizade com quem mora perto. E embora moradores da mesma rua 27, ele e Paulinho vinham de outra vizinhança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, Marcos, David, Samuel, Nem, Wilkens e Cláudio – que não participou do episódio do Osvaldo, mas era do grupo – diferíamos das outras turmas por uma pseudo-organização. Pirralhos de dez, 11 anos já fazíamos exposições de raridades &lt;br /&gt;.. -- como uma moeda de 1 peso chileno, de 1961 – ou insetos invocados que pegávamos em incursões feitas ao morro do Bela Vista, onde fica o melhor hotel da cidade. Lagartas multicoloridas, gafanhotos e grilos irados se juntavam a objetos raríssimos e exibíamos no meu quarto, o da frente. Cobrávamos de outras crianças, moleques mais novos ainda e meninas. Várias vezes tivemos que negociar o preço do ingresso pois o visitante achava tudo muito ruim. Aí em vez do valor ínfimo de cinco balas, cobrávamos o equivalente a um chiclete mastigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora fossem no meu quarto, as exposições eram eventos do C.I.V.R. (Clube Infantil de Volta Redonda). O clube, cujo nome foi invenção do Marcos, disparado o mais criativo e gente boa da turma. Funcionava fisicamente na casinha (casona) da minha irmã, que diferentemente das outras irmãs era, já, maravilhosa. Sempre me dei muito bem com a Norinha que, quatro anos mais velha, incentivava tudo o que eu fazia. Devia ser remorso, pois dela era a culpa d’eu carregar o Ricardo logo depois do Eros. Eros Ricardo é nome de cantor de zona! Tenho um amigo, defensor intransigente da breguice nominal, que não entendia porque não assinava o segundo nome, como faziam Bernardo Guilherme e Décio Manoel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao C.I.V.R., minha irmã deixava que partilhássemos da casinha desde que não atrapalhássemos ela e as amigas. Não tinha atritos. Ainda mais que o quintal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá de casa era grande o suficiente para abrigar duas turmas, aparentemente incompatíveis, já que as amigas da minha irmã eram mais velhas que nós, membros do clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal casinha era enorme. Feita com esmero com compensados agregados. Tinha mais ou menos nove metros quadrados e uns 1,80m de altura. Não tinha divisões internas; me lembro de uma mesinha e cadeiras de criança. Tinha telhado de zinco, duas janelinhas e uma porta com chave, que prontamente    sumiu – minha mãe tratou de desaparecer com ela. A porta tinha uma pequena abertura em forma de coração na altura dos olhos. Era azul. Minha irmã deixou que escrevêssemos em tinta rosa (rosa?) as inscrições do clube na entrada da casona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Foi um pusta presente de Natal. A casa chegou rebocada por um caminhão numa noite de 24 de dezembro. Não faço idéia de como entraram com a casinha, nem como a botaram no fundo do quintal. Fui uma baita surpresa e minha irmã ficou esfuziante. Não sei se chegamos a dormir na casa, mas nós insistimos muito com nossa mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os integrantes do C.I.V.R. pagavam uma mensalidade, uma ninharia, só para termos algum dinheiro para contabilizar. E arriscávamos na música também “Com cocares na cabeça são/Os caciques tremendão”. Tudo por uma rima. É bem verdade que todos no “The tigers” (eu, Marcos, David e Cláudio Esperança) tocavam um único instrumento. O maior instrumentista era aquele que conseguisse fazer mais esporro, fosse batucando uma panela, um penico ou qualquer coisa de metal. E tínhamos uma sanha politicamente correta, que era o supra-sumo da babaquice. Uma vez, instituímos uma cota de palavrões que poderia ser proferida: quem falasse mais de 20 era banido. Houve algum problema e Muel, o mais reprimido de nós todos – seus pais eram batistas ferrenhos – danou a xingar.&lt;br /&gt;      -- Puta merda – xingava ele, na reta final.&lt;br /&gt;      -- 18...– enumerávamos. &lt;br /&gt;-- Caralho.&lt;br /&gt;--19...&lt;br /&gt;-- Cu.&lt;br /&gt;-- 20. Fechou!! Muel, você está expulso do C.I.V.R.&lt;br /&gt; Ainda bem que este e outros afastamentos não duravam mais que dois dias.&lt;br /&gt;Mas foi esta suposta organização, tão rara, em moleques de 11,12 anos que encantou Osvaldo. Autoritário, decidiu pleitear a presidência do C.I.V.R. depois de protagonizar uma montagem de “Dr. Jekill and Mr. Hide”, de Robert L. Stevenson, adaptada por Domingos de Oliveira para a TV Globo. Ééééé, também montávamos peças para conseguir mais alguma mixaria em caixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-3646124296172864189?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/3646124296172864189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/03/ts-34.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3646124296172864189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3646124296172864189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/03/ts-34.html' title='T.S. 3.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-7497082104752964407</id><published>2010-03-11T09:08:00.000-08:00</published><updated>2010-03-11T09:10:17.202-08:00</updated><title type='text'>Tênis no toró 2.2</title><content type='html'>Ei!!Ei!! Dêem um rewind (aquela teclinha do DVD-player que volta a cena do filme) até “só me restou dormir mais furibundo ainda.” O Artur, testemunha ocular da história e dono de uma memória muito mais preservada que a minha, lembrou-me algo que julguei acontecer no dia seguinte.&lt;br /&gt; Deram o rewind? Então vamos à versão do Artur.&lt;br /&gt;Inconformado com a merda que acabara de fazer, parti em direção a um saco de goiabas e, como um louco ensandecido, comecei a sapecar as frutas nos meus inimigos de ocasião.&lt;br /&gt;-- Ce tá maluco, Eritos? – berrou o Artur, cuidando de guardar o violão na capa de napa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu estava possesso!!! E aquela cagada de atirar o meu próprio tênis lá fora com aquele dilúvio, foi a gota d’água!! &lt;br /&gt;Furibundo, mirava e acertava, à queima-roupa, nos corpos e nas cabeças de Lair, Enéas e Artur.&lt;br /&gt;Meu ataque maciço durou 20 segundos, se tanto. Este foi o tempo que eles demoraram entre a surpresa e o contra-ataque.&lt;br /&gt;No dia anterior catamos todas as goiabas maduras dos muitos pés que circundavam a casa. Era daquela goiaba que tem gosto e bicho. Branca, porque a nobre é a vermelha. Enchemos dois sacos de linhagem, enormes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eram dois sacos. Rapidamente os três lançaram mão do outro saco de goiabas. E aí tomei uma chuva dos frutos, que de tão maduros, estavam azedando. Tomei nas fuças, na cabeça, no peito esquálido, nu e suado. Tive que tirar os óculos para             evitar estragos maiores. Quando estava  em vias de perder o sacão de  goiabas, Claudio me acudiu, levando para longge dos três o saco de goiaba e atirando contra Enéas, Lair e Artur. Rapidamente me juntei a ele e a luta das goiabas passou para o quarto, com lençóis e colchões sendo pisoteados e paredes      alvejadas com os frutos. Sei que o contato corporal era inevitável e em pouco tempo Enéas e Lair estavam me imobilizando.&lt;br /&gt;-- Calma, calma – gritava Enéas, apaziguador, notando que eu realmente perdera as estribeiras.&lt;br /&gt;-- Calma? Como você quer que eu fique calmo? Vocês me enchem o saco, não me deixam dormir e a casa ainda é invadida por um penetra – a última frase disse olhando para o Lair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Melei a situação tanto quanto a guerra de goiabas. A coisa ficara séria. Enéas e Lair imediatamente me soltaram e o último estampido  daquela guerra foi uma goiaba atirada pelo Cláudio que resvalou na cabeça do Enéas antes de se despedaçar em cima do sofá. Obtida através de um decreto de guerra, a paz se fez presente instantaneamente. Iluminados pela fraca luz do lampião, arrumamos nossas cantos de dormir em silêncio. Imundos, colchões, sofá e lençóis estavam coalhados e grãos      de goiaba. Fomos tomar banho de chuva para limparmos um pouco dos restos de goiaba nas cabeças, e o tantão de suor com os quais encharcávamos os peitos nus. Acho que Artur e Enéas preferiram tomar uma ducha no banheiro. Não havia diferença: a água era igualmente gélida. Calados tomamos banho, calados fomos dormir. Somente o mal-estar pesava  sobre nossas cabeças. Ainda imagino alguém cuspindo sementes de goiaba no breu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O dia amanheceu esplendoroso. O quarto exalava a cheiro de goiaba; havia restos de goiaba em todo canto. As paredes, chapiscadas e brancas, estavam imundas, assim como o chão do quarto e da varanda. Tão logo tomamos café, Lair pegou as coisas dele, se despediu e partiu pela curta estradinha de terra até a Rio-Santos, que passava em frente a meia-água. Ia pegar o Pontal-Angra, de onde pegaria um ônibus para Volta Redonda.&lt;br /&gt;Fui atrás ele, óbvio.&lt;br /&gt;-- Lair, Lair – berrei.&lt;br /&gt;Ele parou e virando, me esperou chegar até ele.&lt;br /&gt;-- Cara, me desculpe pelo que falei ontem – comecei. – Tava puto com a zona que vocês estavam fazendo e disse besteira. Me perdoa.&lt;br /&gt;Lair, um cabeludo, que hoje imagino imagem e semelhança do pai, careca e com  um bigode colossal na época, foi polido:&lt;br /&gt;--Não tem nada que pedir desculpas,       Eros. Tá tudo bem. Tchau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lair deu uns quatro passos em direção  à estrada antes de ouvir meu pedido.&lt;br /&gt;-- Se está tudo bem, então porque você não fica? O fim de semana vai dar um praião... – era o convite que acho que teria que ser feito por mim ao novo integrante da trupe.&lt;br /&gt; Lair cedeu e voltamos pelo caminho de terra até a casinha no Pontal. &lt;br /&gt;Chegando lá rindo, fui dar buscar meu par de tênis que jazia numa poça perto do muro. Completamente esbagaçado. Tinha manchas daquela terra marrom e infértil com que aterraram o terreno onde foi erguida a casa. Eu o mostrei para a rapaziada, rindo, e segui para o tanque, onde o lavei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do sol cáustico e convidativo, só fomos para a praia poluída por óleo e gasolina de barcos do hangar do I.C.A.R. de tarde. Passamos a manhã limpando a sala e a varanda das sementes e dos bichos de goiaba. &lt;br /&gt;Cacete!! Tinha resto de goiaba até no teto. O cheiro de azedo foi atenuado com litros de Pinho Sol usados para limpar chão, móveis, paredes e bibelôs atingidos na guerra goiabal. E foi uma manhã alegre, descontraída, cheia de risadas e gozações de parte à parte, sendo eu o alvo preferido e óbvio da rapaziada.&lt;br /&gt; Lá pelas 15h, fomos correndo para o clube, retornando para casa quase às 18h. Depois de um banho gelado e embebidos de litros de repelente, fomos degustar um maravilhoso miojo com molho de sardinha e tomates e matamos o resto do garrafão de Sangue de Boi, o pior vinho que já bebi na vida. O bom humor voltava a imperar e voltamos a ser um grupo. &lt;br /&gt;Na mesa da cozinha, antes de sentarmos para o último jantar na meia-água daquele verão, alguém botara um copo de geléia improvisado como vaso de flor. Comovente  e realmente reconciliador.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-7497082104752964407?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/7497082104752964407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/03/tenis-no-toro-22.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/7497082104752964407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/7497082104752964407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/03/tenis-no-toro-22.html' title='Tênis no toró 2.2'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-2579809482468092445</id><published>2010-02-27T10:54:00.000-08:00</published><updated>2010-03-15T15:20:54.777-07:00</updated><title type='text'>ts.2.4</title><content type='html'>A T.S. foi uma das últimas iniciativas de Osvaldo como nosso líder. Eram muito ridículos nossos ensaios de vandalismo. Algumas vezes, lá pelas oito da noite, executávamos um bailado estranho às margens do riacho que, idilicamente, separava (ainda separa) a 27 da rua 31.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O riacho ficava a uns seis metros abaixo do nível das ruas, que só tinham um lado de casas. Em frente a elas havia um jardim gramado, com eventuais canteiros de plantas que adornavam o longo jardim – uns 2.000 metros quadrados.&lt;br /&gt;  Até as vertentes do rio eram gramadas. Às margens dos dois vórtices, árvores grandes (acácias) separadas a cada 10 metros, distância igual para românticos banquinhos de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De tempos em tempos, quando cruzava com ruas como a 33 e a 26, o regato corria sobre pontes. A única pinguela  que existia além das trafegadas por carros, ficava em frente à minha casa, e mais tarde, uns cinco ou seis anos depois, nos a chamávamos  de “Ponte das  Anharips”-- Piranha + s, no dialeto popular “de-trás-para-frente”. Casaizinhos se apertavam até num poder nos bancos à noite, sob a luz bruxuleante de postes que acendiam pontualmente às 6 e meia. A área foi, por um muito breve instante, apropriadamente batizada pela Prefeitura de “Jardim dos Inocentes”. Quando os casais descobriram o potencial, digamos, “romântico” do lugar, o título virou ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os casais de namorados viraram o nosso alvo preferencial em potencial, sempre em potencial. O inusitado bailado que praticamos algumas vezes consistia em simularmos ataques com sacos de água em  casais agarrados nos banquinhos. Um descia para o vale onde ficava o rio ao lado da pontezinha, munido de quatro sacos d’água, até o degrau mais alto e amplo dos três que margeavam diretamente o riacho, e abastecia moleques diretamente postados em frente aos bancos que tinham namorados. Ia o mais rápido e furtivamente possível. Treinamos esta ação umas quatro vezes, sem efetivamente molharmos um casal sequer.&lt;br /&gt;-- Uai, se já estamos lá  embaixo com os sacos d’água porque simplesmente não os tacamos nos namoradinhos? – perguntava, entre rude e óbvio, Vito, o Wilkens.&lt;br /&gt;-- Premeditação – responderia,  com ar cansado, Osvaldo, tivéssemos este vocábulo em nosso limitado léxico de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois toda graça vinha do ataque-surpresa e da ação coordenada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, o único ato de sacanagem do qual participei, junto com o Paulinho Cabeção, foi uma pedra grande, meio-tijolo, atirada contra a porta da última casa do lado ímpar da rua 20.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Paulinho atrás da árvore a uns dez metros da entrada da casa de uma senhora, que assustada com o barulhão, abriu a porta para checar o que tinha acontecido. Entre assustada e atônita com o pedrão e a tintura da porta agredida pela mesma, resignou-se a balançar a cabeça, desaprovando aquela ação de vândalos. Antes de entrar, pegou no colo uma criança que imergiu da sala em seu encalço.&lt;br /&gt;Assim que a mulher fechou a porta, Paulinho deu um soco na outra mão estendida e aberta&lt;br /&gt;e caprichou no berro surdo:&lt;br /&gt;--Yes! (Não, não, não. Naquela época não havia esta expressão e Paulinho Cabeção estava longe de ser “um filósofo de depois de amamhã”, como acreditava, muito apropriadamente,  Niestzche em vida). Mas Paulinho ficou exultante com nosso ato de guerrilha urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já eu, não. Me arrependi antes mesmo do pedregulho tocar a porta da mãe do menininho.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha alma de coroinha, embora cedo, começasse a simpatizar com o espiritismo. Tinha uma necessidade quase mórbida de partilhar com os outros os meus erros. Assim, enquanto Paulinho deve ter repousado seu cabeção no travesseiro e dormido o sono dos justos, minha noite de sono foi horrível. Demorei a dormir,dormi pouco e quando despertei, estava tomada a decisão: ia me desculpar pelo calhau na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comuniquei isso para a rapaziada, foi um “Deus nos acuda”.&lt;br /&gt;-- Caralho!! Não faz isso não. Você vai botar toda a nossa operação em risco – argumentou Paulinho, com anuência vibrante de Osvaldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Que operação? Que risco? – perguntava eu o óbvio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulinho Cabeção mais parecia um fósforo por acender. Era um moleque baixo, magricela e cabeludo, um cabelo liso, cortado na altura dos ombros. Acho que muito de sua notória cabeça, que lhe rendera o apelido, devia-se às suas mechas. Tinha hábitos estranhos: conversava com formigas e dizia ter poder sobre elas. Puras ilusão ou cascata.&lt;br /&gt;--- Vamos, minha nêga. Vá até aquela árvore e me traga aquele raminho – ordenava Paulinho a uma formiga preta, grande, com ferrão e bunda amarela, dona de uma picada doída pra caramba, equilibrando-a sobre o dedo indicador.&lt;br /&gt;Geralmente a formiga ia para a árvore, se escapasse do ataque furioso de Paulinho, em revide a uma ferroada tão logo caminhasse o primeiro centímetro de dedo.&lt;br /&gt;Como ele vivia com os dedos inchados devido à desobediência dos insetos, acho que ele acreditava ter mesmo algum poder sobre os bichos. Ou então era um noviço masoquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que estava resoluto em minha decisão (quase um ato religioso) apesar das muitas advertências em contrário, argumentadas por Paulinho e Osvaldo. O resto da turma só achava ridícula e desproporcional minha obsessão em esclarecer o episódio com a dona da casa.&lt;br /&gt;-- Não machucou ninguém – afirmava, inapelavelmente, Marcos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas minha decisão já estava tomada. Foi falar com a dona da última casa do lado ímpar da 20.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Constrangedor. Eu me desculpava por um acidente que não houve, mas que poderia ter havido. A mulher, que trazia o filho no colo quando atendeu a campainha, demorou um pouco a entender o que eu queria, tamanhas eram as hesitações e o gagejar em meu discurso.&lt;br /&gt;Isentei o Paulinho de qualquer culpa, isto é, não toquei no nome dele. Tomei para mim toda a responsabilidade pelo “terrível” ato terrorista. E aí ela me fez uma pergunta que não tinha resposta e significou o início da derrocada do império osvaldino: “Por quê”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí da casa da mulher      em paz com minha crônica culpa judaica (?)-cristã. Mas aquela dúvida me latejava na mente. Por quê? Por quê? Por quê aceitávamos aquele julgo idiota e --- embora nunca posto à prova – maligno do Osvaldo? Seria mais justo fazer a pergunta no singular. Era eu quem dava suporte à ascensão do Osvaldo. Afinal, era no quintal  lá de casa que ficava a enorme casa de boneca da minha irmã, sede do Clube Infantil de Volta Redonda (C.I.         V.R.), sempre gerenciado, talvez sem objetivos, mas sempre com gentileza. Na administração do Osvaldo, a volúpia tomou forma, assim como a ambição. Desavenças começaram a brotar no grupo, unido em tudo, principalmente nas tolices. E a T.S., que nos lançaria num mundo completamente diverso do nosso, naufragara antes de qualquer ação maquiavélica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-2579809482468092445?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/2579809482468092445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/ts24.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2579809482468092445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2579809482468092445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/ts24.html' title='ts.2.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-910227965901496245</id><published>2010-02-23T08:14:00.000-08:00</published><updated>2010-02-23T08:15:44.062-08:00</updated><title type='text'>TS 1.4</title><content type='html'>T.S. . Turma de Sacanagem. A gente nunca tinha ouvido falar, mas pareceu a todos uma idéia promissora. Quem veio com esta história foi o Osvaldo, irmão mais velho do Paulinho Cabeção, quando, “alemães” que eram, se infiltraram na nossa turma. Osvaldo, com minha ajuda – culpa já assumida e prontamente desculpada – chegou a tocar o apito de líder. Por pouco tempo, graças a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Uma T.S. seria um bando de moleques – nós, bocós por completo, sem o menor traquejo em investidas agressivas -- concentrado em ações terroristas a namorados, cachorros, vizinhos mais velhos e o que mais pudesse se tornar um alvo em potencial. E não haveria de ter alvos, prometia, exagerando o tom, o Osvaldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, os bocós, éramos sete pacíficos garotos (tínhamos entre 11 e 14 anos): eu (morador da casa 30 da rua 27), Samuel (da casa 24), os irmãos Marco e David (do número 20) e mais três guris da rua 20, uma das quatro transversais da 27, que separava meu quarteirão do das casas do Muel e de Marco &amp; David. Minto: na época do Osvaldo, estávamos brigados com o Cláudio Esperança. Os únicos da 20  a integrarem nossa turma era o Vito (o nome verdadeiro deve ser o mesmo de um clássico da literatura eslava, Wilkens) e o Nem (apelido mais plausível para um simplório  Aloísio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Irmãos com uns quatro anos de diferença, Osvaldo e Paulinho moravam na mesma 27. A exatas quatro casas e mais uma ruazinha transversal, a 22, da minha. Um continente de distância, hábitos e língua diferentes – não, não, língua não -- em nossa imaginação de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembro do ponto de contato. Acho que o Osvaldo queria agarrar num time - desde que o Topo Gigio, mítico time no qual ele era goleiro, e Paulinho, reserva absoluto, pois era um zagueiro muito do perna-de-pau, fora extinto ele não mais jogara. E via potencial em nosso time, os Falcões – plágio descarado do Águia, equipe que só reunia gente da rua 22. O Águia media forças com o Topo Gigio pela hegemonia dos campinhos que pipocavam na 27, às margens de um afluente do rio Brandão.&lt;br /&gt;Osvaldo era bom goleiro, embora se achasse muito melhor do que realmente era. Muito exagerado, tinha como hábito de abrir excessivamente a boca, como a salientar a importância do fato que protagonizara ou testemunhara. Valera-se de ser mais velho e suficientemente maduro para assumir o controle de nossa turma – que tinha dois moleques de 10 anos, David e Muel; eu tinha 11; e Marcos e Nem, 12. Vito ou Wilkens era da idade do Osvaldo, 14 para 15, mas intelecto e sensibilidade não eram nem Tico nem Teco na cachola dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um exemplo da sagacidade do brutamontes. Certa vez, aflita com o destino das borboletas implacavelmente caçadas por Wilkens, Nora, minha irmã, pediu, chorosa:&lt;br /&gt; -- Num mata elas não, Vito.&lt;br /&gt;-- Num tô matando não, Norinha – tranqüilizou-a o toupeira, completando a sentença: -- Só estou arrancando as cabecinhas. &lt;br /&gt;  Nosso time tinha dois caras bons de bola: eu e o Nem, que éramos magros de ruim (eu ainda sou); o Vito, truculento e vigoroso zagueiro – do pescoço para baixo, bordoada não era falta; Marquinhos, David, Muel e Paulinho eram uma mulambada só.&lt;br /&gt;Mas o Osvaldo viu em nós mais do que apenas um bando que jogava bola.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-910227965901496245?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/910227965901496245/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/ts-14.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/910227965901496245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/910227965901496245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/ts-14.html' title='TS 1.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-500811272554927720</id><published>2010-02-22T11:36:00.000-08:00</published><updated>2010-02-22T11:39:51.371-08:00</updated><title type='text'>Tênis no toró 1.2 (lembrança do turteis)</title><content type='html'>Eis que me ergo do sofá-cama, puto, e aos primeiros acordes de “A volta do boêmio” (“Boemia, aqui me tens de regresso/e suplicante te peço a minha nova inscrição”), sucesso imortalizado por Nelson Gonçalves, nas vozes zombeteiras de Enéas e Artur, pego um par de tênis e isolo um por um pela janela da casa do Pontal, em Angra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chovia horrores, mas a janela estava escancarada por conta do calor e como não chovia de vento, a água não respingava no quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meu ato, bradei, silhueta iluminada por raios que a tempestade vomitava, intensificando o toró (de “silhueta” até “toró” foi só para conferir dramaticidade à ação):&lt;br /&gt;    -- Eu avisei! Agora quero ver neguinho ir buscar o tênis lá fora com esta chuva!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia de janeiro de 1977choveu pesado até às 6 da tarde, quando a chuva deu uma estiada boa e conseguimos ir ao I.C.A.R. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos em cinco: eu, Cláudio Esperança, Enéas, Lair e Artur, este já um músico fabuloso (tem um dom raro mesmo entre os músicos consagrados – ouvido absoluto). E obviamente sempre o Artur levava consigo um instrumento -- naquela noite, um violão. Ele, hoje um maestro, naquele tempo já era o centro de qualquer rodinha: bastava alguém cantarolar  um fraseado que ele tirava a música. Isso é ouvido absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, sentamos numa mesa e logo começou a juntar gente. Artur tocou as indefectíveis e, por isso mesmo, insuportáveis “Andança” e “Travessia”, e mais umas dez músicas. Mas nos mandamos de volta para casa quando começou a ventar forte do mar para  o continente, sinal de que chuva forte não tardaria a cair. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranhamente – não sou um cara mau-humorado – estava chateado. Um pouco pelo chuvaréu que fez daquele dia um tédio, muito pela presença do Lair passando dias lá em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lair era um cara legal, jogava pelada com a gente, foi titular da primeira seleção de basquete do Clube Recreio do Trabalhador, formada pelo Paulinho Camargo. Nada contra, em absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estava pau da vida, porque eu, o dono da casa, não o havia convidado para ficar lá com a gente. Íamos sempre a Angra e calhou de esbarrarmos com ele. Lair estava na casa de primos e dali a dois dias ia embora para Volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, o encontramos novamente em frente a um supermercado. Até passamos um constrangimento juntos: entramos no mercado, três de nós – acho que o Cláudio e o Artur não fizeram a besteira – abrimos iogurtes, tomamos e jogamos no lixo do mercado, antes de irmos ao caixa pagar nossas compras: pão de forma, margarina, leite longa-vida, miojo, velas e outros itens de sobrevivência na meia-água sem luz.&lt;br /&gt;A caixa cobrou-nos: &lt;br /&gt;-- $ (não me lembro a moeda e o valor é chute) 28,80.&lt;br /&gt;Tirei $30 do bolso e dei para ela.&lt;br /&gt;Nisso ouvimos a voz possante de um segurança:&lt;br /&gt;-- Cobra mais $ 2,40, Marta. $ 0,80 por cada iogurte que estes “senhores” tomaram no passeio pelo Epa (nome fictício do mercado).&lt;br /&gt; Sequer tentamos uma desculpa esfarrapada. Rubros de vergonha, coletamos mais $1,20 e demos no pé, rapidinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando íamos para o terminal rodoviário pegar o ônibus para o Pontal, Lair veio atrás.&lt;br /&gt;-- Ei, ei. Vou ficar com vocês --&lt;br /&gt;disse ele, que só trazia uma mochila não muito cheia. – Tinha decidido ir embora hoje mesmo. Já ia para a rodoviária quando encontrei vocês. E já é sexta. Posso muito bem ficar com vocês até segunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabia a mim cortar a permanência dele conosco, Afinal, a casa era minha. Eu era o senhor do castelo. Sem luz, com água fria, calor, mosquitos, mas era o meu castelo. Sua decisão de ficar entre nós sem qualquer consulta me deixou puto. Mas como era de meu (péssimo) feitio, não fiz qualquer objeção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, uma vez explicada a razão do meu azedume, voltemos para o meu brado, naquela noite tenebrosa. Tínhamos, diante da ameaça de chuva, voltado para casa antes das 10 da noite. &lt;br /&gt;Chegando em casa, estendemos as duas redes na varanda, Artur, de violão em punho, puxava músicas bacanas de  Milton e Gonzaginha, mas esquecêramos que nenhum de nós tinha voz. Mesmo o Artur tinha uma voz       de pequeno alcance. E rapidamente começaram as galhofas tocadas por Artur, interpretadas por Enéas e Lair. Sei que aquelas asneiras foram me enchendo o saco. Quando esboçaram “Mariazinha do bole-bole”, me levantei da rede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Chega! Vou dormir, que é o melhor que eu faço. E vê se não       fazem muito esporro, tá? – fui para o quarto, seguido pelo Cláudio, também puto com a cantoria.&lt;br /&gt;Fechamos a porta, mas a cantoria desafinada prosseguia, agora mais alta. Berrei lá de dentro:&lt;br /&gt;-- Podem diminuir o volume?&lt;br /&gt; Pelo sorteio, o sofá-cama cabia a mim e ao Artur. Cláudio dormia num dos colchões num canto do quarto.&lt;br /&gt;Por alguns segundos, a cantoria cessou. Mas deu lugar a risos abafados, sinal que a sacanagem continuaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva era intensa em volume, mas nada de vento. Os caras – Enéas, Artur e Lair – foram miar debaixo da janela escancarada, já que tinha uma laje de uns 30 centímetros em torno de toda a casa. Cantaram uma besteira qualquer e, rindo, voltaram correndo para as redes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda dei uma de macho, saindo do quarto e ameaçando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Porra, num dá pra sossegar o facho, não? Guarda um pouco deste humor para amanhã... Eu tô avisando, já estou cansado, quero dormir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Ah, ele tá cansadinho...Vamos fazer silêncio, gente – desdenhou Enéas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novo silêncio entrecortado por risadinhas. Bem próximo da porta, acordes, gargalhadas e cantoria rápida. Não mexi um músculo. Voltaram a cantarolar perto da porta, esperando que eu saísse do quarto. Como não saí, Enéas e Artur adentraram o quarto – Lair ficou na rede – cantarolando “Boêmio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que me ergo do sofá-cama, puto, e diante de zombeteiros Enéas e Artur, pego um par de tênis e isolo um por um pela janela da casa do Pontal, em Angra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meu ato, bradei, silhueta iluminada por raios que a tempestade vomitava, intensificando o toró (de “silhueta” até “toró” foi só para conferir dramaticidade à ação):&lt;br /&gt;    -- Eu avisei! Agora quero ver neguinho ir buscar o tênis lá fora com esta chuva!! (Ei, ei, eu já vi isso antes. Será que foi no cinema? Observação: isto é ironia, claro. Este é um recurso relativamente comum no cinema. Narrar um fato, recorrer a  flashbacks até chegar à tal ação novamente e continuar daí a narrativa.)&lt;br /&gt; Imediatamente Enéas vai até onde estavam as coisas dele, tateia no breu e encontra seu par de tênis. Entre risadas dispara:&lt;br /&gt;-- Meu tênis táqui.&lt;br /&gt;  Artur procura os seus, os encontra e também anuncia, intensificando as risadas:&lt;br /&gt; -- Os meus também estão a salvo.&lt;br /&gt;Como os do Lair estavam nos pés dele, e o Claudio, meu aliado, comentou, sem conter o sorriso – uma vez que a situação era engraçada pacas - que os dele também estavam livres da chuva, só me restou dormir mais furibundo ainda. Com aquele tiro no pé, minha moral caíra e escorria como a chuva que encharcava os meus tênis.&lt;br /&gt; Os caras resolveram acabar com a cantoria e vieram dormir. Trocaram um monte de gracejos diante da minha hilariante vacilada, mas o que realmente me incomodava, até cair no sono, eram as risadinhas abafadas do Enéas deitado no colchão dele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-500811272554927720?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/500811272554927720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/tenis-no-toro-12-lembranca-do-turteis.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/500811272554927720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/500811272554927720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/tenis-no-toro-12-lembranca-do-turteis.html' title='Tênis no toró 1.2 (lembrança do turteis)'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-8140667723323996289</id><published>2010-02-09T15:26:00.000-08:00</published><updated>2010-04-05T15:45:25.128-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='&apos;'/><title type='text'>Pneu furado</title><content type='html'>Isso aconteceu ainda na fase “porra louca” de meu pai, quando minha mãe ainda era viva. Não sei o ano; sequer garanto a década. Vou ser o mais preciso possível: foi entre 1975 e 1983, respectivamente, o ano seguinte à fratura da perna direita de d. Leonor e o ano da morte dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha irmã Nora “encontrou casualmente” meu pai no bairro do Aterrado, num bar em frente à delegacia. Isso a uns cinco quilômetros de casa, uma ida de ônibus da Vila ao lá e às 11 da noite. Mas Norinha o convenceu de que estava na casa de uma amiga. Voltava para a Vila quando passando em frente ao botequim que meu pai freqüentava, divisou-o numa mesa junto a velhos e novos amigos de bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Oi, pai - apressou-se ela a cumprimentar o Celinho, antes que algum daqueles vira-latas que o acompanhavam mexesse com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Livre do constrangimento que um gracejo poderia desencadear, Norinha sapecou dois beijos nas faces semi-barbeadas do pai e continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu estava na casa de uma amiga, a Dilma, quando passei em frente ao bar e vi o senhor. Aí, pensei: “vou esperar ele acabar o papo e pegar uma carona com o Celinho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão logo ela chegou, fez-se silêncio na mesa e um velho conhecido de meu pai – não posso chamar aqueles trastes de amigos – até cumprimentou-a. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--E aí, Eleonorinha. Acompanhando o pai? Cadê o cavaquinho, Celinho? Busca ele no carro, vai – disse Hamilton, o único daquela corja que não tinha interesse em jogo com meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celinho odiava quando chamavam o bandolim dele de cavaquinho. Para ele era uma depreciação. Não tanto, embora também, pelo diminutivo; mais pela completa ignorância musical de quem confundia os instrumentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi minha irmã que gelou diante da possibilidade de ter que acompanhar o pai,numa quinta-feira, saindo sabe-se lá que horas do boteco. O dia começava cedo para ela na Cobrapi, uma empresa que prestava serviços à C.S.N.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas indiferente ao pedido de Hamilton, farmacêutico do hospital da companhia, e da troca indesejável de seu bandolim pelo cavaquinho, Celinho pediu ao garçom “a dolorosa”, isto é, a conta. Pagou aquela montanha de cervejas e pratos de aperitivos, consumidos por ele e mais sete camaradas, que falsamente e sem qualquer convicção protestaram diante do pronto pagamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi-se embora com a Norinha, despedindo-se apenas de um – o Hamilton – e outro. Na verdade, ele conhecia bem seu séquito de aduladores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo que entraram no fusca – meu pai teve vários fuscas – 1.300 cilindradas, branco, minha irmã notou que não seria tarefa das mais tranqüilas chegarem sãos e salvos em casa. Saindo da frente do botequim, onde tinha estacionado, meu pai quase bateu num TL que vinha em sentido contrário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Norinha tinha know-how em viver perigosamente, tantas vezes no banco de carona com meu pai dirigindo alcoolizado. Ainda bem que embora em outro bairro, o caminho até minha casa era uma enorme reta. Mesmo assim, antes do meio do percurso -- a rodoviária da cidade – meu pai acelerou demais da conta e só parou quando ficou engastalhado num guard-rail que dividia as pistas e o pneu dianteiro direito furou. Graças a Deus, o baque e o esporro foram maiores do que os estragos: meu pai e Norinha saíram do carro ilesos.&lt;br /&gt;¬-- Tudo bem, Nora? – tratou de certificar-se o que a aparência de minha irmã denotava, apenas susto.&lt;br /&gt;-- Hã, hã...E com o senhor, tudo tranquilo? –respondeu e perguntou Norinha.&lt;br /&gt;Sim,estava tudo normal. Minha irmã soube disso tão logo Celinho exclamou, com voz pastosa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Puta que pariu! Como é que deixam esta bosta no meio da pista? Alguém tinha que bater!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caraca!! O cara estava maldizendo o guard-rail que separava as pistas. É bem verdade que já estava todo destroçado mesmo antes de meu pai passar por cima dele. Mas se não fossem os restos do obstáculo, o fusca atravessaria para o outro lado, só parando num veículo vindo em sentido contrário ou num muro chapiscado do outro lado. Os destroços da divisória haviam salvado os dois.&lt;br /&gt;Continuou com a cantilena alterada pelas cervejas muito além do razoável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E agura? Estamos fodidos e mal pagos. Já passam de 11 da noite e vai ser ruim a gente conseguir ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Nora estranhou a fala recheada de palavrões. Não que o Celinho não os usasse. Falava, e muito!! Era um senhor boca-suja!! Mas aqueles palavrões nada tinham do tom irreverente do meu pai. Mas Norinha creditou o timbre áspero ao grau etílico em que nosso pai se encontrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celinho tomou coragem para ver o estrago no valente fusquinha. Aproximando-se do parachoques dianteiro e constatou que os únicos danos foram o pneu direto furado e algumas avarias na lataria dos dois paralamas, mas isso é o que mais tinha no fusquinha, agredido que era todo dia pelo Celinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos ver se funciona – disse o pai para Nora, enquanto virava a chave, com o carro em ponto morto. O fusquinha deu sinal de vida quando Celinho acelerou, fazendo esporro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Acho que foi só o pneu furado – disse Celinho, sem descer do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manobrou o fusca, livrando-o dos destroços do guard-rail, desceu e retirou o estepe – careca que só – do capô dianteiro. Começou a desaparafusar o pneu, mas pela sucessão de palavrões proferidos, não estava logrando êxito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, minha irmã vê dois sujeitos se aproximando do meio da pista, onde ela e Celinho – naquele momento brigando com o f%$#@ do pneu e aquela p%$#@ de chave de boca – estavam. Um negão, imenso, com cara de poucos amigos, e outro de cabelos castanhos-claro, quase louro, barba agreste por fazer.&lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;Se estivesse falando, como era seu costume, Norinha teria se calado. Na falta de assunto, só alertou o pai, temerosa de que saqueadores tivessem descoberto a diligência avariada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai, pai - disse, aproximando-se do Celinho, que se contorcia em força inútil contra aqueles parafusos do c%$#@. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem tirar os olhos dos recém-chegados, ouviu do negão-armário:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa noite! Cês estão precisando de ajuda? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celinho, que apesar das ardvertências da Nora, só agora se deva conta de que não estavam mais sozinhos, não mediu palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que não, Pedro Bó (antigo personagem de um programa do Chico Anísio, consagrado por só fazer perguntas óbvias) – disse Celinho, que à voz pastosa e ao bafo de cerveja, juntara suor farto e inglório na tentativa de trocar o pneu. - Tá f%$#@...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O negão, com cara de poucos amigos, abriu um sorriso e disse, inclinando-se para o lourinho:&lt;br /&gt;-- Ta tranquilo. Deixa com a gente – disse, tomando das mãos do pai (ia empregando “meu” pai, esquecendo que quem co-protagonizou o episódio foi a Nora) a chave de boca imunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os caras eram operários do alto-forno da Companhia. E entravam à meia-noite. Moravam ali perto, eram vizinhos e estavam indo para o trabalho, quando os viram em dificuldades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os parafusos estavam bem arrochados. O negão teve que fazer careta para conseguir afrouxá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto os dois davam o maior duro, Celinho olha o relógio (um Eternamatic, com ponteiros verdes e discretos, fundo escuro e pulseira metálica. Lembro-me do relógio como se o tivesse visto ontem!!) e começou a resmungar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puta que o pariu! Dois sujeitos grandes e a maior demora para trocar um mísero pneu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celinho não falava alto, mas também não escondia sua irritação. Norinha, envergonhada com a ingratidão do pai, era muito atenciosa; perguntava coisas desinteressantes, tals como era trabalhar no turno de meia-noite às 8h e qual era a função de um soldador, profissão do negão, chamado Cosme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, Celinho dava nítidas mostras de sua impaciência. Ora chutava o ar, ora falava para os caras escutarem mesmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho, se fosse eu, trocaria esta merda de pneu em cinco minutos.Estes “bostas n’água” (um dos muitos xingamentos peculiares que ele adorava usar) estão demorando um século para botar este estepe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os caras pareciam compreender o estado de meu pai, tanto que terminado o trabalho, botaram o pneu furado junto com a chave de boca no capô,  bateram o mesmo e sorrindo, Cosme – que de poucos amigos só tinha a cara – ao fim da “eternidade” segundo o meu pai, 11 minutos em qualquer relógio, despediu-se:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Prontinho. Ta trocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que Celinho, gesticulando para o alto, retrucou;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Até que enfim. Já não era sem tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continuou, apressado e zombeteiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos, vamos! Entra no carro, Norinha E vocês, Cosme e – o loirinho não se apresentou e Celinho não podia perder o gracejo – Damião, eu deixo vocês na entrada da Usina perto da Vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Não precisa não, doutor Célio – disse o lourinho, mostrando que além de reconhecê-lo, sabia que ele era advogado e adorava o título. - E o meu nome não é Damião, é Lincoln. Sou filho do Seu Alberto, da peixaria da Rua Amaral Peixoto. O senhor salvou a vida dele, quando ele teve um ataque cardíaco e o internou, no peito e na marra, no hospital da C.S.N.. Meu pai vai ficar muito contente ao saber que eu ajudei, ainda que um tiquinho só, o senhor. Bem, boa noite e vão com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizendo isso, Lincoln e Cosme, que também se despedira, tomaram o rumo da Companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celinho permaneceu estático alguns segundos no volante do carro.  Norinha sorriu seu sorriso mais saboroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai e a Nora chegaram em casa cinco minutos mais tarde sem atropelos e sem trocarem palavra.                       &lt;br /&gt;,&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-8140667723323996289?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/8140667723323996289/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/pneu-furado.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8140667723323996289'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8140667723323996289'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/02/pneu-furado.html' title='Pneu furado'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-545469591087827585</id><published>2010-01-29T07:18:00.000-08:00</published><updated>2010-01-29T07:21:39.672-08:00</updated><title type='text'>Lagartixa  em Ipanema 4.4.</title><content type='html'>Chega de tergiversar.  Vamos voltar ao cerne da história.&lt;br /&gt; Diante de nossa cara de espanto com o que acabara de nos contar – a expulsão dele e da mãe do morro – Lagartixa continuou seu discurso falacioso:&lt;br /&gt;  -- Achei que minha mãe estaria aqui. Quando penso nela subindo o morro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ele sabia que a mãe só trabalhava lá em casa às terças. Porque diabos ela estaria sábado à noite lá no apartamento? E como ele conseguira as chaves da porta dos fundos do apartamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram estas algumas das perguntas óbvias que devíamos ter-lhe feito, mas, nós (eu e Dudu) nos compadessemos daquele pobre diabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cara ainda mentiu sobre seu estado – mais obviamente etílico e drogado, impossível.&lt;br /&gt;-- Eu tombei quando forcei a porta porque estou nervoso e fraco. Só comi um pão com manteiga e um café preto hoje de manhã. E minha mãe, onde estará? – perguntava Lagartixa, já sabendo a resposta.&lt;br /&gt; Fui até o telefone e liguei para a casa do Faria. Ele atendeu, falara rapidinho com ele e pedira que me chamasse a Anita.&lt;br /&gt;--Alô, Anita? Tudo, tudo. Tranqüilo.  É          que o Lagar..., o Gilmar vai falar com você. Beijos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvimos o cascatol repetido ao telefone com Anita. Segundo o próprio Lagartixa nos disse, tão logo desligara o telefone, que a mãe  chorara ao saber dos riscos que tornara uma volta à casa impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contar o desespero da mãe, Gilmar, sinceramente, chorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sou um infeliz. Só faço besteira – disse, soluçando, enquanto lágrimas percorriam as faces e um ranho descia fino pelo nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só disse um “Que é isso, Gilmar?! Besteira o que você está falando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dudu foi mais expansivo. Não ligou para o jeito maltrapilho nem para a sujeira no rosto do Lagartixa, dando-lhe um forte abraço.&lt;br /&gt;-- Que infeliz o quê. Bola pra frente, Gilmar. Só tomou café e comeu pão com manteiga de manhã? Então deve estar varado de fome! Eu estava exatamente indo fazer alguma coisa para comer quando você “chegou” – disse um entusiasmado Dudu, instantaneamente transformado num chef de cozinha diante de um gourmet do porte do Lagartixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu desisti do sanduba no MasDonald’s, fiz um misto frio e tomei uma coca na sala diante da TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei na cozinha para lavar copo e pires, cheguei no exato momento Cordon Bleu do Dudu; na hora em que ele quebrava um, depois um segundo ovo sobre aquele mix azedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Chegou na hora, Eritos. Pega um prato e vem comer também –convidou-me Dudu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Brigadão, Dudu. Acabei de comer um sanduíche. Vou ler um pouquinho e dormir. Boa noite, Dudu. Boa noite, Gilmar – disse, indo para o quarto..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, passei pela sala, onde Dudu dormia sempre que tinha pooca gente no apartamento. Já esperava encontrá-lo ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esperava era encontrar o Lagartixa morgadão, metade do corpo para fora do quartinho. Quando me veio à lembrança aquele pequeno sauro pronto para saborear aquela desgraça preparada pelo Dudu. “Pronto. Empacotou. Meteu o nariz no pó e depois comera aquele mix do Dudu...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem tinha aberto a geladeira para pegar leite para o café e eis que escuto logo atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bom dia, seu Eres. Bati aquele rango que o seu Eduardo preparou e dormi feito pedra. Posso dar uma ligadinha para a minha mãe? –- cumprimentou ele, que insistia no seu antes dos nossos nomes (o meu invariavelmente pronunciado erradamente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bom dia, Lagartixa – aturdido com sua pronta recuperação (esperava, ao menos, uma senhora caganeira), chamei-o pelo apelido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não reparou ou fingiu que não ouviu.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, lembrei-me que, além de tudo, Anita era mãe de Santo, macumbeira – nenhum preconceito quanto a isso, meus pais também eram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certo fechara o corpo de Lagartixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-545469591087827585?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/545469591087827585/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-44.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/545469591087827585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/545469591087827585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-44.html' title='Lagartixa  em Ipanema 4.4.'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4326301987133395294</id><published>2010-01-29T06:40:00.000-08:00</published><updated>2010-01-29T06:43:57.787-08:00</updated><title type='text'>Lagartixa em Ipanema 3.4</title><content type='html'>Não sem antes dar-nos uma notícia bombástica. Relevante para nós, por conta da Anita, pois para o Lagartixa,&lt;br /&gt;a gente tava pouco se lixando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nós fomos expulsos do morro – proferiu o sujeito, quando conseguiu balbuciar alguma coisa que fazia sentido.  – Não sei o que houve. Estava subindo o Cantagalo, voltando de um bico de pedreiro num apartamento na Barão da Torre, quando o chefe do tráfico do morro, um negão imenso, o Tolete, e mais uns quatro armados até os dentes, me impediram que eu entrasse em casa. Acho que decidiram tomar o barraco por causa da vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Dudu nos entreolhamos. Eram notórias a ingerência e a desfaçatez do tráfico em qualquer morro do Rio de Janeiro. Os caras barbarizam moradores em luta contra a polícia e usam a população das favelas como massa de manobra. Como o Estado só sobe o morro para vandalizar e matar com sua polícia corrupta, os traficantes adotam uma função assistencialista. Pagam tratamento de saúde, compram remédios, bancam festa de debutante.... Acabam ganhando a simpatia de muitos moradores, o que lhe é muito conveniente na hora do pega para capar, quando os policiais sobem o morro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas conhecendo a fama de Gilmar, era óbvio que aquela história era cascata!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era bem mais provável que ele pegou pó para revender e não pagara ao cara do tráfico. A ficha de antecedentes, agravada pela voz oscilante e por aquele olhar 220 volts, nos dizia que ainda havia resquícios de pó do “banho” que dera no traficante na nareba do Lagartixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre Anita, pensava eu, enquanto ouvia a versão mentirosa de Gilmar. Ainda bem que ela era idolatrada por muitos. Não teria dificuldade para encontrar um pouso. Só teria que se desfazer daquele traste do filho, um marmanjo de uns 35 anos que nada fazia, além de constranger a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubemos que ela ficou morando um tempo no apartamento do Touro, até se mudar definitivamente para a casa do Faria, quando o irmão se casou e mudou para outro apê com a mulher. O Lagartixa ficou na pista, ou melhor, foi morar na Baixada Fluminense, com uma tia, acho que em Belford Roxo. Faria não quis saber dele morando consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A versão do Lagartixa, como suspeitávamos, era mentira. Ele sequer subiu o morro depois de ter dado um “banho” no Cocô Parrudo, ou melhor, no Tolete, o traficante local.&lt;br /&gt;Um vizinho o avisara no asfalto que ele, Lagartixai, estava jurado de morte e o tráfico tinha invadido a casa onde vivia com Anita e tinha posto fogo em tudo que encontraram pela frente: cama, colchão, mesa, roupas, tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quem contou isso pra gente foi o Faria, pelo que conseguira filtrar da Anita, que como toda mãe, zelava irracionalmente pela reputação do filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A versão de Anita era muito mais amena e favorável ao Lagartixa. Ela estava sempre pronta a perdoar e minimizar os erros do filho. a quem sempre passava a mão na cabeça.  E era comum lamentar a falta de sorte de Gilmar, “que nunca tinha tido oportunidade na vida”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4326301987133395294?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4326301987133395294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-34.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4326301987133395294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4326301987133395294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-34.html' title='Lagartixa em Ipanema 3.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-652166863313946680</id><published>2010-01-29T06:36:00.000-08:00</published><updated>2010-01-29T06:37:16.018-08:00</updated><title type='text'>Lagartixa em Ipanema 2.4</title><content type='html'>Nossa faxineira, mãe do Gilmar, era algo. Negra retinta, devia beirar os 60 anos de idade. Sabe a mãe da “Fran”, “da Família Dinossauro”? Sogra do “Dino” “querida-cheguei”? Pois era a Anita, inclusive nos óculos, no quebradiço da pele – esticada e gasta pelo tempo, só pelo tempo -- e na estatura. Era magra que só e tinha uma vitalidade incomum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Anita era extremamente batalhadora, gente boníssima, tava sempre de alto astral apesar dos perrengues que passava. Muitos dos dissabores tinham uma única fonte: Gilmar ou Lagartixa, como era conhecido nas internas –  internas do nosso apartamento. O cara mais parecia uma iguana, um ser meio ancestral desses que habitam Galapágos. A ilha, no Pacífico equatoriano, foi crucial para Charles Darwin desenvolver sua teoria do Evolucionismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anita era faxineira de Touro e Cozido. Touro era um cara de Barra Mansa, que se tornara o melhor amigo de Cozido ou Faria, companheiro nosso de velhos tempos – estudei com Luís Henrique Faria Marques, na 3ª série primária do Nossa Senhora de Fátima. Era uma escola de madeira que ficava na rua 40 quase esquina com 41, vizinha ao Poeirinha, como era chamado um antigo cinema da Vila. Ambos não emplacaram os anos 80. Foram destruídos. Hoje, um shopping ocupa o espaço onde outrora existia o cineminha e a escola.&lt;br /&gt; Além de gente boa, Anita era bom papo, antenada. E aos 60 anos tinha fôlego de causar inveja em muito garotão: fumava maconha como gente grande e não dava qualquer bandeira, mesmo depois de consumir uma tora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas diferentemente do pessoal de Barra Mansa que morava com o Touro, o próprio e o Faria, que dividia o apartamento da família com o irmão mais velho, nós não a entronizamos como pitonisa. Menos que pelo seu potencial de xamã – eram vastas e invejáveis suas sabedoria popular e tranquilidade diante das adversidades da vida – mais pela intensa rotatividade da nossa república. Nos  três anos em que morei lá, nada menos do que 12 pessoas se revezaram no apartamento de dois quartos na Farme de Amoedo, quase esquina com Alberto de Campos. Assim era impossível canonizar alguém, mas beatificada por nós, Anita era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca dormiu lá em casa, o quartinho da área não tinha espaço para uma cama. Havia um móvel  que ocupava metade do quarto e um monte de tralhas que deixávamos lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois naquela noite de sábado em que só eu e Dudu estávamos no apartamento, quem dormiria no quartinho, largado no chão, em cima de uns edredons foi o Lagartixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-652166863313946680?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/652166863313946680/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-24.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/652166863313946680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/652166863313946680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-24.html' title='Lagartixa em Ipanema 2.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4534454131243184375</id><published>2010-01-29T06:30:00.000-08:00</published><updated>2010-01-29T06:31:10.299-08:00</updated><title type='text'>Lagartixa em Ipanema 1.4</title><content type='html'>Era 1984 e embora curtido por três anos na Universidade Federal de Viçosa – anos perdidos em termos acadêmicos, mas de grande valia pessoal – mantinha o fôlego de universitário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava no 3º ano de jornalismo na FACHA, uma faculdade em Botafogo. Dividia o apartamento em Ipanema, na Farme de Amoedo, com ...Caraca! Foi tanta gente que passou por lá que não estou bem certo de quem morava lá na época. Bem, acho que Dudu, Rogério, Tasso e Enéas dividiam o apartamento comigo na época. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas neste episódio bastava citar o Dudu. Irmão mais novo do Enéas, eu o conhecia desde molequinho mesmo, quando ele tinha 5, 6 anos. Era completamente diferente do irmão, meu grande amigo, com quem eu estudara os três últimos anos no colégio. Chegara ao Rio um ano antes para cursar engenharia na Santa Úrsula, faculdade vizinha ao Palácio Guanabara, em Botafogo e morava com  o Diano, amigo de infância dos tempos de rua 40. &lt;br /&gt;Só que, indecisão em pessoa, Dudu desistiu de engenharia e, no ano seguinte, fizera vestibular para duas faculdades diametralmente opostas: arquitetura, na UFRJ, e jornalismo, na PUC. Levou, acho que por ano e meio, as duas faculdades; uma no Fundão, Iha do Governador, outra na Gávea. Simultaneamente a esta maratona, mudou-se para a república do irmão.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas, seis anos mais velho, já há muito tinha traçado seu caminho. Seu pensamento exato, sua precisão, seu pragmatismo o levaram até a engenharia mecânica, primeiro na UCP, em Petrópolis, depois na PUC do Rio. Era seu último ano na faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achava Dudu bem parecido comigo. Era hesitante, questionava tudo, era sensível (SENSÍVEL, nada a ver com boiola, mané). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que optara pelo jornalismo um pouco por influência minha... Gostaa do moleque como se fosse meu irmão caçula (eu tinha 23; ele, 18 anos, e nesta época da vida, fim da adolescência, cinco anos davam-me alguma experiência a mais). Havia uma diferença gritante entre nós dois, porém: enquanto Dudu era “pegador” – ficava com as meninas mais cotadas – eu era um fiasco com meninas, cotadas ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me bem da chegada do Dudu ao apartamento de Ipanema. Foi num fim de tarde de domingo, no início de março, véspera do primeiro dia de faculdade. Dudu aportara de mala e cuia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como o Enéas, era bagunceiro toda a vida. E logo na chegada, dera mostra de seu desmazelo, deixando a mala de roupas no chão da sala. Depois de uma breve recepção de boas-vindas, protagonizada por eu e Rogério – os únicos no apartamento àquela hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de uma hora se passara e a mala de roupas continuava na sala. Só que agora estava aberta; Dudu havia tirado uma toalha e tomado uma ducha. Aquela hora, todos ao moradores do apartamento estavam por lá. Estávamos todos na sala, quando Dudu foi pendurar sua toalha no boxe do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos ver o que este moleque trouxe de casa...— disse Enéas, enquanto vasculhava a bolsa do irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi muito rápido. Jogou todas as roupas no chão. Caíram meias, cuecas, shortes, calças, camisas e por último, para desespero de Dudu, que tinha retornado à sala, uma bíblia.&lt;br /&gt;Enéas foi fundo no escárnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha só, Uma bíblia. Sinto, Dudu, mas isso não vai te ajudar, na faculdade de arquitetura não. Talvez na de jornalismo... – zombou Enéas, narigão vermelho de tanto rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rogério e Tasso acharam graça. Dudu apressou-se em tomar o livro das mãos do Enéas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Imbecil, babaca – disparou Dudu para o irmão, que agora se regojizava da descoberta, que rendeu pelo menos uma semana de zoação para o Enéas em cima do irmão mais novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dudu era fissurado numa gororoba chamada mexido. Consistia num mixer de sobras jogados numa frigideira, misturados. Ia à mesa como gosma, e o cara que comia só continuava vivo se Deus estivesse mesmo muito empenhado. Mas Dudu não só sobrevivia àqueles guisados de sobras como exultava quando encarava a solene missão de recolher restolhos na geladeira e transformá-los numa gororroba incomum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele fim de semana, eu e Dudu não subimos para Volta Redonda – por motivos distintos. Ele, a pretexto de estudar; eu combinei de sair com amigos da faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sábado à noite, estávamos os dois em casa, assistindo TV. Dudu estudou a tarde e parte da noite. Eu fora na primeira sessão do cinema Veneza, em Botafogo (lembram-se?).&lt;br /&gt;Acabou o Jornal Nacional e Dudu migrara, rápido, para a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Erão, vou preparar um mexido. Vamos nessa? – ofereceu, berrando da cozinha para a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tô fora, odeio isso. Você junta todas as porcarias que encontra na geladeira...Argh, que nojo! Prefiro um  MacDonalds. Quer ir não? — respondi, engatando um capítulo da novela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dudu investigava a geladeira. Um resto de feijão feito na terça anterior, um tanto de arroz, um cadinho de purê de batata, uma espécie de picadinho. Depois de tudo mexido, qual argamassa de cimento, Ulalá!!! Um ovo estrelado por cima! Um senhor bate e entope!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando ele reparou que a porta dos fundos estava semi-aberta. Dudu apressou em fechar e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eritos, corre aqui!!! – berrou Dudu da porta dos fundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei, Dudu estava estapeando, devagarzinho, um desmaiado Lagartixa, que era como nós chamávamos o filho da Anita, nossa faxineira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Gilmar, acorda, Gilmar! – sacudia Dudu um inerte Lagartixa. -– Eritos, me arruma um pouco d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lagartixa, um sujeito magro, preto e baixo, jazia junto à porta. Ele desfaleceu quando conseguira abri-la. Ou seja, quando a resistência da porta cedeu, ele desabou, de tão chapado que estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dudu sapecou água nas têmporas, mas nada.&lt;br /&gt;-- Caraca, pelo bafo, o cara entornou legal –- afirmou Dudu, voltando a estapeá-lo, agora com mais força. – Isso é o que dá para perceber com ele apagado. O cara também deve estar cheiradaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de mais uma sessão de tapas e de copos d’água na cara, Dudu soltou um muxoxo, fruto da impotência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Desisto – disse, enquanto tirava a cabeça do Lagartixa do colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que o quicar da cabeça o acordou. O cucoruto em contato com o ladrilho frio da cozinha fizera Gilmar despertar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhos esbugalhados, saliva acumulada nos cantos da boca, Gilmar acordou trôpego, e ansioso tentou levantar-se, e antes de estabacar-se novamente, bateu a cabeça na parede de ladrilho azul fazendo um esporro colossal.&lt;br /&gt;-- Caralho!! -- riu Dudu baixinho para mim. -- Senta numa cadeira, Gilmar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4534454131243184375?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4534454131243184375/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-14.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4534454131243184375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4534454131243184375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2010/01/lagartixa-em-ipanema-14.html' title='Lagartixa em Ipanema 1.4'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4546571719920818928</id><published>2009-12-28T15:53:00.000-08:00</published><updated>2010-01-02T13:10:45.974-08:00</updated><title type='text'>carnaval em Angra 4.4 - última parte</title><content type='html'>Depois de passada a roleta, ficamos uma meia hora reconhecendo o lugar, enquanto esperávamos a chegada de nossos objetos de desejo. O hall de entrada, os imensos decks ao ar livre, com vista para o escuro e fétido mar que margeava a cidade de Angra (mas que assim, à distância, era uma imensidão aprazível, cujo único cheiro bafejado pelo vento era o de uma tênue maresia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde ficavam os banheiros – tanto os masculinos quanto os femininos, estes, embora vedada nossa entrada, eram os mais importantes - os lugares mais barulhentos e mais sossegados, isto dentro do salão, porque se buscássemos algum resquício de paz, só lá embaixo, com os pés na areia. Enfim, esquadrilhamos o Aquibadã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; É lógico que fuçamos os dois bares do lugar e até tomamos umas cervejas. Eu fiquei numa latinha só. Ainda me revirava o estômago o porre que tomara no carnaval retrasado. A título de “aquecermos as turbinas” e cometermos haraquiri em nossa timidez, nos reunimos na casa do Pedro Moustache e tomamos todas antes do primeiro baile de carnaval no Clube dos Funcionários, em Volta. Apaguei e fui levado semiconsciente pra casa, antes do grito de abertura do carnaval. Desde este trágico evento, carnaval e porre nunca mais foram conjugados (executados) por mim numa mesma sentença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, eram 11h e meia, mais ou menos, quando as gatas de Barra Mansa pintaram no Iate Clube. Eram 13 meninas – algumas realmente lindas. Nós as avistamos do segundo andar – a entrada e o salão onde rolava o baile ficavam no térreo. Estávamos apreciando e contando a bela legião, quando Aurélio, escandaloso que só, começa a berrar, ou melhor, a falar mais alto, frases desencontradas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Caralho! A Suicídio taí!! É aquela de flor amarela presa nos cabelos. Já te falei dela, Eros. Viu, Gugu? É ela!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explica-se: a menina a quem Aurélio referia-se, pela alcunha de Suicídio – “por ela, o cara até se mata”, exagerava o capetinha de Volta Redonda – era a mais recente “descoberta” dele, que a achava lindíssima. Menos, Aurélio, menos. A menina, cujo nome não me lembro, era bonita, verdade. Esguia, elegante, bela pele e belos olhos amendoados. Mas não tinha qualquer traço de sensualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando viu que Suicídio – depois entronizada como Suicídio  1, quando apareceu outra da mesma estirpe – era uma das meninas de Volta que foram convidadas para se juntar às barramansenses, Al ficou eufórico. Parecia uma ave-do-paraíso macho – até onde poderia ir a macheza travestida de diabinho de cetim vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aurélio tinha (ainda deve ter) o raro hábito de lascar um apelido em alguém e consagrá-lo como definitivo, ainda que fosse o único a repeti-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- então venham você, Alexandre e o Verrugão (ao referir-se a um amigo que tem uma protuberância íntima, digamos, assustadora).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou: -- Fala para o Porno-man (este não me lembro da justificativa, nem a quem ele chama quando sai com esta) me ligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas Suicídio colou porque nós não a conhecíamos. Eu, Enéas e Gugu sequer sabíamos seu nome de batismo. É lógico que antes mesmo de a encontrarmos em Angra, Al tinha a ficha completa da menina: nome, idade, quem namorou, por quem suspirava, escolaridade, tipo sanguíneo, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas fora Aurélio, ignorávamos seu nome, e ainda que soubéssemos, subreptilinarmente não queríamos dar este crédito a ela. Imagine eu falando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha que graça aquela baixinha, a terceira à esquerda da Maria Eduarda (nome hipotético da Suicídio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então para gáudio do inventor de apelidos, sempre nos referíamos à ela como Suicídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, tentava me manter o mais confiante possível. Dei umas voltas no salão sozinho; depois fui falar com Andréa e Nazareth, isso na companhia de Enéas, Aurélio e Gugu. Pulei com Andréa, depois com a irmã dela; nunca investindo nelas. Era como se fossem vitrines móveis, que me permitiam vislumbrar possíveis flertes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vislumbrei algumas chances – tinha uma Mulher-Gato chapadaça e a mercê, primeiro de um grupo de centuriões romanos, depois de um trio de pierrôs. Dei um tchauzinho de longe para a Eliane, que pulava num canto do salão. Ela trajava meias-arrastão que me causaram uma ponta de arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Enéas também deu voltas despretensiosas com as duas irmãs. Gugu manteve o profile discretíssimo e sequer se aventurou pelo salão; Aurélio marcava passo no mesmo lugar, sempre atento às movimentações de Suicídio, enquanto desenvolvia, displicentemente, o hábito de botar o rabo que saia dos fundilhos de sua fantasia de Belzebu entre as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, a primeira noite passara em branco. As mais dadivosas e espevitadas de Barra Mansa já ficaram com sujeitos ignóbis – algumas com maurícios; outras com notórios sacripantas; uma sétima com um boiolinha metido a homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus!!! E eu era tão gente boa ... Feio, mas gente boa. Bocó, mas gente boa. Duro, mas gente boa. E a Natália ficou com aquele troglodiata que sequer deveria saber falar, pois desde que eles se atracaram, tão logo ela chegou, não vi trocarem palavra, apesar da intensa movimentação labial. Mas não me abati. Mantive o moral em alta. Tínhamos mais três noites pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda noite. Resultado parecido com a primeira, com uma baixa na minha auto-estima, que eu estava vendo minguar a passos largos: Eliane ficou com um bem comportado pirata, a julgar pela perfeita combinação do tênis – branco, com detalhes em vermelho e tiras pretas -  com o resto da fantasia – bermuda preta, camisa acetinada branca e lenço vermelho amarrado na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terceira noite. Começou a me bater o choque de realidade: eu era tímido demais, cioso em excesso de minhas limitações – sequer tentei ficar com uma viking loura, bonita, que bêbada feito um gambá, bastava ouvir uma senha (acho que era “Aiôôô, Silver”) que saia trotando pelo salão agarrada ao moleque que pronunciasse as palavras mágicas. Quando o galope já ia avançado, a loura se rendia aos apelos do rapaz que por, em média, dois minutos -- tempo suficiente para dar duas voltas no salão -- podia sapecar quantos beijos e agarrões conseguisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bêbada viking surgiu evoluindo ainda sóbria perto de nós, mas antes das duas da manhã já estava chamando “urubu de meu louro”. E fez-se fila de interessados em dar duas voltinhas pelo salão com ela. Nenhum de nós quatro demonstrou interesse na loura, com exceção o Enéas. Só que quando ele entrou na fila para dar uns catrancos na viking, contava-se mais de 18, mas cê sabe como é carnaval....De 18 para 180, basta um estalar de dedos. Eu sei que o Enéas não deu os pinotes com a loura, porque ela fora resgatada por um casal de primos ou por dois amigos, sei lá. Já não tinha mais o chapéu chifrudo e estava prestes a ficar sem a bata. A machadinha de plástico, para se defender de possíveis inimigos e predadores, sumira óóóóóó, fazia tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que minha auto-confiança estava indo para o brejo. Ficava junto do Aurélio e do Gugu, que limitavam-se a comentar, entre copos de cerveja, o quanto a odalisca, a feiticeira eram gostosas. Mas eram comentários para ninguém ouvir. Imagina se aquela desenibida fantasiada de modelo e atriz escuta a gente falando dela?!! Peraí, existe  fantasia de modelo e atriz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Parecíamos integrantes do bloco carioca “Concentra, mas não sai”: na beirada do salão com copos de cerveja na mão e a ginga típica de quem é natural de Volta Redonda. Vez por outra, dávamos juntos ou separados voltas no salão, para assegurarmo-nos que não tínhamos morrido (pelo menos era essa a minha sensação).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Aurélio, no começo da terceira noite no Aquidabã, chegou a ficar preocupado com a ausência de Suicídio. Mas logo Andréa, que era prima da dona da casa de praia onde as belas de Barra Mansa e de Volta estavam hospedadas, tratou de tranquilizá-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- A Isabel (poderia ser Suelen, ignoro solenemente o nome da moça)? Ela não veio porque está um pouquinho febril, resfriada. Amanhã vem até na matinê, de tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Aurélio só sossegou quando avistou o mauricinho com quem trocou bem-comportados beijos na véspera. Usava uma desconfortável, porque calorenta, pólo La Coste, bermuda cargo e tênis Adidas, vestimenta semelhante à que ele usara na noite anterior. Só que na ausência de Suicídio, ele jogava uma conversa numa ruiva gostosona sentados na mesa dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri que tem gente que vai aos bailes só para pular mesmo. Que consegue se divertir com batalhas de confete e serpentina ou simplesmente com a música estridente e repetitiva tocada por uma bandinha safada. Gente diferente de mim (que ia aos bailes cheio de segundas, terceiras, quartas e quintas, principalmente quintas, intenções). Andréa e Nazareth eram assim. Cansei de ver caras - alguns limpinhos, outros mamados que só – tentarem pular com elas e serem refutados imediatamente. E sobrava alegria e sobriedade naquelas marujas que se fartavam de água ou, muito eventualmente, de um refrigerante – na época, não tinha diet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim, cheio de más intenções, restava-me o consolo de mirar o mar, um pouco afastado daquela algazarra. Definitivamente, eu não tinha o mínimo de competência para concretizar meus ideais devassos. Mas a pá de cal naquele que seria o carnaval redentor viria num sutil e macio tapinha nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Cê tá bem? – perguntava-me Eliane, que se afastou do pirata arrumadinho alguns metros para me perguntar isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caraí!!! E o pior é que sua preocupação era sincera; preferia mil vezes que soasse como vingança, que ela viesse tripudiar do meu fracasso. Mas não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você está se sentindo bem? Bebeu muito? – perguntava, com devotamento sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Que nada, Eliane!! Só vim tomar um ar. Já tô voltando para lá. Afinal, a gente tem que aproveitar, já ta acabando.... – dei um pinote de alegria convicta e voltei para o tumulto do salão. No fundo, e no raso mesmo, queria que ela me abraçasse, me beijasse e esquecesse aquela frase  imbecil e imprevidente “Quero terminar” e aquele gentil pirata. Mas me restava um tiquinho de dignidade e saí dali do deck deixando o casal à vontade para os derradeiros amassos daquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De volta aos bêbados, às devassas, aos foliões sinceros e aquele som horroroso tocado pela bandinha, me baixou o banzo quando ouvi pela décima-quarta vez os vocalistas (dois negões, uma mulata magra e uma senhora branca, gorducha e baixinha) entoarem “Oh, quanto riso/ Oh, quanta alegria/  Mais de mil palhaços no salão...”. Que saudades do meu quarto, do meu pijama, da minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem preciso dizer que me recusei terminantemente a ir na matinê de terça-feira. Preferi ficar jogando tarrafa no rio que desembocava na baía do Pontal, próximo ao condomínio de casa vizinho ao I.C.A.R. Enéas também preferiu ficar dormindo na casinha do Pontal. Mas estava só se poupando para a noite. Ele estava às voltas com uma tal de Adriana, nativa de Angra mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aurélio e Gugu foram sozinhos à matinê de onde voltam umas seis e meia, três horas e meia depois de terem deixado o Pontal. Al vestiu uma roupa de “civil”. A fantasia ficara guardada para a última noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria saber mais de carnaval. Eu era um crítico incorrigível e não conseguia me ver, lépido e faceiro, investindo em um amor de carnaval, que duraria, no máximo, algumas horas. Tinha senso de ridículo. Sabia que precisava conhecer bem a menina para chegar. Aparência e indiferença a tocos não eram meu forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Devia ter te ouvido, Aurélio – reconhecia. – Não devia ter despachado a Eliane.&lt;br /&gt;Caralho!! Admitir que o Al estava certo, era o cúmulo do erro. Ir ao Aquidabã para quê? Para mim, o carnaval acabou, mesmo antes de ser reconfortado pela Eliane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Bem, tanto insistiram que fui demovido da idéia de dormir cedo e fomos, os quatro, para o Aquibadã. Chegamos lá, meia-noite e meia. Eu sentia os esforços de jogar rede no rio parte da tarde e só dei três voltas no salão. Com Andréa, com Nazareth e uma terceira sozinho, só para comprovar que o pirata da Eliane não era tão gentil assim. Empenhavasse em sufocá-la com um tremendo e vil chupão. Só não investi contra o sujeito, porque ela parecia estar gostando e muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De resto, fiquei  “concentrado mas não saí”, ao lado de Aurélio e Gugu. Enéas sumiu. Na companhia de Adriana, é claro. Gugu só tinha olhos para uma angrense amiga da Andréa. Mas só olhos, porque coragem para falar com ela, ele não tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al seguia obcecado na Suicídio. Quando ela e mais três amigas, de narizes igualmente empinados, deram três voltas pelo salão, Aurélio ficou eufórico. Convenceu Gugu a segui-las. Como recém-descidas de um pedestal, lançavam olhares reprovadores àquela plebe ignata. O mauricinho que sapecara-lhe umas bitoquinhas no domingo e agora entretinha-se com a ruiva, bem mais fornida do que ela, também foi fulminado pelo olhar de desdém de Suicídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na segunda volta, Gugu parou próximo a um grupo de meninas, entre as quais Andréa e a menina de Angra. E não é que ele puxou papo com a guria?! Através da&lt;br /&gt;Andréa, mas puxou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, Al acompanhava, embevecido, o “desfile” altivo da sua princesa entre os plebeus. Quando completou a terceira volta, ela e as três asseclas subiram as escadas e se refugiaram, enojadas, numa das muitas mesas reservadas para as meninas de Barra Mansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltava meia hora para o fim do baile. Se eu não  dependesse do Aurélio, já tinha ido dormir no Pontal há séculos. Já passava de cinco e meia da manhã, quando a bandinha entoou pela última vez, naquele carnaval, “Ai, ai, ai, aiaiai/Tá chegando a hora/ O dia já vem raiando, meu bem/ Eu tenho que ir embora”. No salão, restos da batalha carnavalesca travada há pouco: confete, serpentina, garrafas plásticas de refrigerante, a viking louraça, que voltou a encharcar-se de vodca, os primos que foram resgatá-la de uma tribo indígena canibal, nós quatro – Enéas reaparecera – e outros desconhecidos que esperavam os outros foliões saírem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um espírito nostálgico entre os casais e grupos que iam se deixando ficar. Até o Aurélio, que a ninguém abateu, respirava esta atmosfera idílica. Eu só queria esquecer mais aquele trágico carnaval, as cagadas que fizera antes de pisar no Aquidabã e... aiiii!!! Quem eu vejo sentada de mãos dadas e rostinho colado na entrada do salão? Eliane! Trocando beijos bem mais que protocolares com o pirata tricolor. Se arrependimento matasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso dizer que estava sozinho na merda. Enquanto esperávamos o salão esvaziar, Aurélio seguia encarando de longe Suicídio. Botar o rabo entre as pernas havia virado um hábito arraigado. Eis que Suicídio põe-se a olhar em nossa direção. Aurélio sustenta o olhar e diz, eufórico, baixinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha!! Olha!! A menina tá me encarando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a ar blasé de sempre, Suicídio pergunta a uma menina que desce as escadas ao seu lado sustentando o olhar e abrindo espaço para uma pergunta, no mínimo, vulgar e capciosa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Olha aquele bigodudo fantasiado de capeta. Será que é viado?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4546571719920818928?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4546571719920818928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-44-ultima-parte.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4546571719920818928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4546571719920818928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-44-ultima-parte.html' title='carnaval em Angra 4.4 - última parte'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-3338222211573078897</id><published>2009-12-19T11:52:00.000-08:00</published><updated>2009-12-19T11:57:54.385-08:00</updated><title type='text'>Carnaval em angra  - 3</title><content type='html'>Passamos mais três dias em casa, e vrrumm...Já estávamos no caminho de Angra novamente. Três dias antes do primeiro baile de carnaval no Aquidabã. Tempo mais que suficiente para tomar decisões apropriadas para o maior (o primeiro do novo Eros, garanhão, pegador) carnaval de minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite do mesmo dia que chegamos ao Pontal, fomos para Angra.&lt;br /&gt;Antes de encontrarmos com as meninas, já na Rua do Commercio, a principal da cidade, anunciei, resoluto, aos meus companheiros, ainda no Fiat&lt;br /&gt;do Al. &lt;br /&gt;-- Hoje vou terminar meu namoro com a Eliane. Carnaval tá chegando, vai ter um monte de gostosas de Barra Mansa, e eu não quero saber de compromisso - afirmei, com ares do mais novo boçal do pedaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aurélio ainda me advertira, solícito:&lt;br /&gt;-- Não faz merda, Eritos. Vai que num arruma ninguém nos bailes. Vai fazer o quê? Ficar com cara de bunda, chupando o dedo? Melhor você ficar com a Eliane...&lt;br /&gt;-- Acha que sou louco? Eliane vai pular no Aquidabã também... Quero é distância... Com Bárbara, Renatinha, Natália (é claro que são nomes fictícios, não me lembraria de ninguém, a não ser de uma, a preferida do Aurélio) no baile, cê acha que eu entraria de mãos dadas com a Eliane? – justificava, canalhamente, minha opção por terminar o namorico de verão.&lt;br /&gt;      &lt;br /&gt;     E eu falava das meninas de Barra Mansa como se as conhecesse. Sabia seus nomes – eram famosas para parúaras como nós - mas nunca trocara palavra com elas. Mas neste carnaval queria ver alguma resistir ao meu charme e à minha virilidade. Naquele momento, eu realmente acreditava que era charmoso e viril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontramos as meninas. E eu queria me livrar de qualquer compromisso com a bonitinha de olhos azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Oi, Eliane. Tenho que te dizer uma coisa – comecei, depois de um beijo não mais do que protocolar, num banco da praça que fica em frente ao cais. – Quero terminar. &lt;br /&gt; Era evidente a surpresa da menina. Titubiou:&lt;br /&gt;-- Mas, mas o que que houve? Tava tudo bem com a gente até você ir para Volta Redonda...&lt;br /&gt;-- É... Mas o carnaval taí. E num gosto de manter namoro durante o carnaval – esnobei eu, como que gabaritado por muita experiência, antes de proferir o chavão impronunciável – Acho melhor ir cada um pro seu lado.&lt;br /&gt;Era visível a decepção de Eliane, mas ela foi elegante e prática.&lt;br /&gt;-- Certo, você é quem sabe. Tudo bem, então. Amigos? – propôs ela, me dando um abraço fraternal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Dissipei um problema, sem criar outro: a inimizade de Eliane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta-feira, antevéspera de sábado de carnaval, um encontro aumentou significativamente nossas chances com as beldades de Barra Mansa. Trocamos a manhã no Pontal por boas horas em Angra. E fomos a uma das únicas praias razoáveis de Angra. A Praia das Gordas, vizinha ao Iate Clube do Rio de Janeiro (não me perguntam a razão dos nomes; ignoro totalmente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Lá, graças ao estilo “entrão” do Aurélio, ficamos conhecendo Andréa, sua irmã, Nazareth (não, não são nomes fictícios) e mais três meninas de Barra Mansa. Longe de “abalarem Bangu”, elas eram ótimos canais até as iguarias barramansenses (ou “barramansuínas”, se o assunto fosse alguma querela envolvendo habitantes da cidade vizinha a Volta Redonda). Ainda mais que estavam hospedadas na mesma casa (uma mansão) que “nossas” meninas. Elas nos contaram que durante o carnaval deveriam ter umas 15 meninas, algumas de Volta Redonda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andréa e Nazareth eram gurias legais e bonitas – mas naquele verão, só tínhamos olhos para as outras, as sebosas e metidas que sequer sabiam da nossa existência – quanto mais de nossas pretensões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou o grande dia e eis que pontualmente às 11 da noite adentramos o Aquibadã, cheios de ímpeto juvenil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, porém, sacaneamos muito, eu e o Enéas, principalmente, o Aurélio e sua fantasia de diabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aurélio vestido, fizemos alusões à masculinidade do traje. Mas a fantasia do Gugu?&lt;br /&gt;-- Ih, Aurélio, me esqueci de trazer – disse Gugu, entre sorrisos que denunciavam que a frase soava como “me lembrei de esquecer”.&lt;br /&gt; Foi aí que o Enéas instigou o demônio, de cetim rubro, enquanto  o Melão (me lembrei neste minuto que também chamávamos o cabeçudo do Gugu por este apelido), já vestia seu traje de “civil”.&lt;br /&gt; -- Que sacanagem, Gugu!! A d. Geralda passa noite em claro fazendo a tua fantasia e você sequer a traz para cá – disse Enéas, esperando uma reação do Al.&lt;br /&gt;O esporro do Aurélio veio quase imediatamente – só não veio contíguo a incitação do Enéas porque o Aurélio, naquele momento, fazia uma barbichinha com lápis preto que ele pegara com sua irmã, Celeste.&lt;br /&gt; -- Pó, cê num esqueceu. Não trouxe porque não quis. Putaria com a Geraldinha... Ela deu um duro danado... –disse Al, botando, pela primeira vez, o rabo do capeta entre as pernas, como um pinto.&lt;br /&gt;  Este gesto, ele repetiria, displicentemente durante todas as quatro noites de carnaval.&lt;br /&gt;Sei que entre cobranças de Aurélio, desculpas esfarrapadas de Gugu e muitas risadas minhas e do Enéas, partimos para o clube.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-3338222211573078897?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/3338222211573078897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-3.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3338222211573078897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3338222211573078897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-3.html' title='Carnaval em angra  - 3'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-2508659722201843735</id><published>2009-12-19T11:45:00.000-08:00</published><updated>2009-12-19T11:52:40.896-08:00</updated><title type='text'>Carnaval em Angra - 2</title><content type='html'>Eu, Enéas, Aurélio e Gugu compráramos ingressos para todas as noites de carnaval no Aquibadã, na praia do Anil (Isso! Me lembrei  do nome da praia mais popular e poluída de Angra!). De quebra, ganhamos entradas para as duas matinês.&lt;br /&gt;Minha performance em carnavais era indigna de nota. Com a manemolência de um norueguês e a desinibição de um coroinha de igrejinha do interior, era um zero à esquerda com meninas (fossem lindas ou canhões, minha incompetência era bem democrática) nos salões carnavalescos - e também fora deles. Eu era tímido demais. Achava uma falsidade quatro dias de devassidão para um sujeito bocó os outros 361. Só porque era carnaval? E cerveja e toda a sorte de bebidas alcoólicas estavam liberadas? Isso para ficar no teor etílico e lícito da “embriaguez”...&lt;br /&gt; Cada vez que a bandinha entoava “Bandeira branca, amor/ Não posso mais/ Pela saudade/ Que me invade/ Eu peço paz” – mote para o cara lascar um beijão na boca da menina que pulou a música anterior com ele, independentemente de se conhecerem há 20 segundos – eu só queria estar de pijamas, dormindo no meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas “este carnaval não vai ser igual àqueleS que passarAM” apropriava-me eu, confiante como nunca, da letra de outra marchinha conhecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incrível o que uma namorada, ainda que de verão, não faz na alma espinhenta de um adolescente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Eliane nunca passávamos de uns amassos junto ao muro de uma das muitas igrejas de Angra, ou de beijinhos mais comportados numa lanchonete onde sempre pedíamos sorvete – tinha um de maracujá que era um sonho. &lt;br /&gt; Mas aquele namorico me encheu de moral. Comecei até – sortilégio dos sortilégios, equívoco dos equívocos – a me achar bonito. Bom papo. Irresistível mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltavam sete dias para o carnaval e depois de duas semanas direto no Pontal, voltamos ao Voltaço, no Fiat 147 do Al. Mais para pegar grana para passar o carnaval do que por qualquer outro motivo. Não, minto. Aurélio e Gugu foram&lt;br /&gt;buscar fantasias que d. Geralda, mãe de Al, fizera exclusivamente para a ocasião.Tinha perdido noite de sono para confeccionar tudo a tempo.&lt;br /&gt;-- Anda, Gugu. Vem aqui pra casa. As fantasias estão prontas. Vamos experimentar que a Geraldinha ainda pode dar um jeito, caso não estejam boas  – Aurélio convocara Gugu por telefone, no dia seguinte à nossa chegada em Volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dois tempos, Carlos Alberto Barenco Pinto, o Gugu, estava na sala do apartamento do Aurélio. Eram vizinhos no Aterrado, bairro onde morava boa parte dos nossos companheiros de Macedo Soares.&lt;br /&gt;Sem muito alarde, d. Geralda tirou, cuidadosamente, as fantasias de uma sacola plástica.&lt;br /&gt; -- A sua, Aurélio...E a sua, Gugu... – anunciava, orgulhosa, Geraldinha, assim chamada pelo filho pela pouca estatura. -- Não tinha outro pano. Este era o mais fresco que achei.&lt;br /&gt;Quando Aurélio viu a sua e põe-se de cuecas – afinal, em casa só estavam sua mãe e um amigo – exclamou, enquanto vestia a fantasia:&lt;br /&gt; -- Pô, Geraldinha, muito maneiro!!! Cê caprichou!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Geralda caprichara mesmo. Ficou muito legal. Não sei se para um homenzarrão como o Aurélio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tratava-se de um macaquinho – um macacão sem calças compridas – num tecido que lembrava cetim, todo vermelho, cujo peito era aberto para melhor ventilação. Do short, a roupa subia pelas costas e terminava num capuz, de onde saíam dois chifres escuros. Ah, nos fundilhos também foi costurado um tecido preto, que graças a um enchimento, tinha consistência mais dura, como os chifres. Era uma versão menos calorenta do capeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al era um júbilo só, feliz da vida com sua fantasia de Coisa-ruim rubro-negro (Pleonasmo? Todo rubro-negro é        Coisa-ruim?), abraçava d. Geralda, beijava-a e a tirava do chão aos berros de “Geraldinha é campeã”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Geralda tentava manter a sobriedade diante da felicidade do filho que tanto amava e mimava.&lt;br /&gt;-- Me põe no chão, Luís Aurélio. Pára com isso – dizia, no fundo, radiante com os rodopios nos braços de Al.&lt;br /&gt;Gugu mal disfarçou a decepção. O Aurélio vestido de capeta, peito e pança à mostra, com aquele capuz com chifrinhos e aquele rabo preto no meio da bunda era a própria visão do inferno!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Maravilha, d. Geralda. Puxa, brigadão mesmo. Ficou muito bacana -- disse Gugu, já se encaminhando para a porta de casa&lt;br /&gt;do apartamento de Aurélio.&lt;br /&gt;¬¬-- Ei, ei, Espera aí, cara. Cê num vai experimentar não? Este seu cabeção pode num caber no capuz e aí? Aproveita que a Geraldinha pode arrumar isso... – disse Aurélio, já ressabiado com o pouco entusiasmo demonstrado pelo companheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Imediatamente, Gugu sacou sua fantasia do saco plástico e vestiu só o capuz enchifrado, e mostrou que sua cabeçora cabia no capuz de sua fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Viu, Aurélio? Perfeito, perfeito – afirmou Gugu, retirando o capuz da cabeça e socando a fantasia de volta à sacola. -- O resto nem precisa experimentar... A senhora num fez com as minhas medidas? Então, num tem erro.&lt;br /&gt;Até mais, Aurélio. Brigado, d. Geralda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A mãe do Aurélio mal teve a chance de balbuciar um “mas” e contestar a saída intempestuosa de Gugu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-2508659722201843735?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/2508659722201843735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-2.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2508659722201843735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2508659722201843735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-2.html' title='Carnaval em Angra - 2'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-8035044679102509068</id><published>2009-12-19T11:42:00.000-08:00</published><updated>2010-04-06T12:28:16.435-07:00</updated><title type='text'>Carnaval em Angra 1.1</title><content type='html'>Em fevereiro de 1979, passei o carnaval em Angra. Aquele era o último ano antes de ir para a universidade. Foi também o último verão passado na meia-água que tínhamos no Pontal, a 14 quilômetros de Angra – mas isso só saberia muito mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez e passados muitos anos – uns quatro, desde que me tornara adolescente, uma eternidade na época – arranjei uma namorada na cidade. O nome da moça era Eliane – e não era nenhum bagre não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezesseis anos, bonitinha, tinha olhos azuis, talvez um tico rechonchudinha. Tinha uma irmã que era mais nova, uns 14, cujo nome não me lembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que nós ficamos amigos dessas e acho que de mais duas meninas. E isso em Angra dos Reis, na cidade mesmo, para onde íamos todas as noites daquela temporada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos decidido passar o carnaval lá, já que em Volta nós não pegávamos ninguém. Ainda mais que soubemos que uma legião de ninfetas de Barra Mansa iria pular no Iate Clube Aquidabã, cuja praia, como todas da cidade, era horrível.&lt;br /&gt;Meus companheiros de aventura eram o famigerado Enéas, que protagonizou outras histórias já descritas, o Aurélio e o Gugu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Enéas tinha cabelo liso num corte curto. Olheiras, um nariz um pouco acima da média. Um rosto comum. Tinha 1,75m mais ou menos. Sempre esteve mais para gordo do que para magro. Quando criança, “mamava” uma lata inteira de leite condensado, e gordinho, era delicadamente chamado pelos colegas da rua 40, onde morou, de “Banha”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aurélio era (ainda é, graças a Deus!) um figuraço!! Narigudo, um bigode quase ruivo, cabelos muito finos, uma calva (na época) que logo se transformou em fulgurante careca. Tem mais de 1,80m e, na época, uma pancinha de chope. Ganhara o apelido de Pastoso, pelas consistência de sua voz e morosidade de concluir um raciocínio.Certa vez me contou em duas horas e meia um filme que tinha duas. Depois daquele massacre narrativo, virou-se para mim e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que bosta de filme, hein, Eritos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era um sujeito dos mais responsáveis – eventualmente fazia merdas inomináveis - mas em sua rudeza prezava como poucos a amizade sincera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gugu era a sombra do Aurélio. Unha e carne, tinha lugar cativo no banco de carona do Fiat 147, azul bebê, placa de Volta Redonda (só me lembro dos números: 3333) do amigo. Cabelos curtos, enroladinhos e castanhos-escuro pontuavam sua cabeça -– maior que a média. Tem (isso é imutável; bótox só aumentaria a circunferência) um rosto redondo, é troncudo e pouco mais baixo que Al (sei que o certo seria grafar o apelido com u, mas Au? Ninguém merece...).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-8035044679102509068?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/8035044679102509068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-1.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8035044679102509068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8035044679102509068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/carnaval-em-angra-1.html' title='Carnaval em Angra 1.1'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-9054135442543201088</id><published>2009-12-19T11:29:00.000-08:00</published><updated>2009-12-19T11:36:18.793-08:00</updated><title type='text'>justificativa</title><content type='html'>Como os textos são grandes demais – além de prolixo, me deixo guiar pelos desvãos da memória, como um gato guia-se pelo cheiro de peixe – resolvi dividir a crônica em capítulos.&lt;br /&gt;De nada adianta, pois estão linkados irreversivelmente. Você precisa ler em ordem para encontrar algum sentido. Mas tem o efeito psicológico: “Oba, quatro textos SÓ gigantescos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus parcos leitores (só não os cito nominalmente porque posso ter perdido o poder de cativá-los e aí seria um erro grotesco arrolá-los como testemunhas), por favor, opinem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saibam que o que me importa é qualidade, não quantidade.&lt;br /&gt;Observação: quando escrevi isso ainda não tinha concluído o quarto e último capítulo da saga “Carnaval em Angra”. Ou seja, tô mais vagaroso que cagado, isto é, cágado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-9054135442543201088?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/9054135442543201088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/justificativa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/9054135442543201088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/9054135442543201088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/12/justificativa.html' title='justificativa'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-4312647822951529763</id><published>2009-11-29T11:15:00.000-08:00</published><updated>2010-01-05T11:48:58.167-08:00</updated><title type='text'>blitz da PM</title><content type='html'>O André sempre foi (acho que ainda é) o melhor amigo do Enéas. Mas houve uma época, acho que pela proximidade de nossas casas – o André mudara-se da rua 40, na Vila, para um bairro mais afastado, o Jardim Amália -- em que fui lugar-tenente do Enéas. Lugar-tenente é ótimo, excelente eufemismo para coadjuvante. Raramente fui protagonista. Mas esta falta de luz própria jamais me incomodou. Presenciei cenas impagáveis por conta disso. &lt;br /&gt;Uma delas aconteceu numa das muitas noites em que rodamos pela cidade a bordo da Brasília bege do Capitão Enéas. O Juninho, como era tratado pela mãe, d. Aída, estacionou o carro em frente à minha casa, na rua 27, e conversávamos com as portas (as da frente) escancaradas. Passava pouco de uma da manhã, quando cruzou por nós uma patrulha da Polícia Militar, numa veraneio azul claro e branca.&lt;br /&gt;Rondas feitas pela PM nas áreas nobres da cidade -- sim, o Voltaço tem áreas nobres -- eram comuns. Naquela época, meados de 1970, Volta Redonda era considerada área de Segurança Nacional por sediar a C.S.N. A Companhia Siderúrgica Nacional fabrica aço e ferro, considerados material estratégico na visão belicista-boitatá  dos militares que chefiavam o país.&lt;br /&gt;Voltando à vaca fria, a veraneio com cinco mal-encarados policiais a bordo, parou na frente da Brasília, depois de passar por nós à velocidade de cágado. Descem quatro PMs da viatura. Só fica o motorista. Dois deles vão até o Enéas; os outros dois vêm até minha porta, escopetas em punho. O cara que chefiava a patrulha, sargento Antunes, disse, curvando-se e apoiando os antebraços na porta do Enéas:&lt;br /&gt;-- Boa noite, cavalheiros. Identidade dos dois, documentos do carro e sua carteira de motorista -- exigiu o sujeito, magro, não muito alto e barba feita.&lt;br /&gt;-- Boa noite -- respondeu Enéas, pronunciando as duas únicas palavras ditas amistosamente aos policiais. -- Cê sabe com quem está falando? &lt;br /&gt;Sargento Antunes tomara um susto com a petulância do moleque -- se bem que filhinhos-de-papai eram figurinhas fáceis numa sociedade de castas, como era Volta Redonda - mas recompôs-se num átimo:&lt;br /&gt;_ Você pode ser o presidente da República, estou me lixando. Seus documentos, os documentos do carro e sua carteira de motorista.&lt;br /&gt;- -- Sou filho do Capitão Enéas -- arrotava Enéas, com uma empáfia desmedida. – Moro na rua 26, quase esquina com a 31. Os documentos estão lá em casa. Sai só para trazer meu amigo.&lt;br /&gt;Morava a uns 350 metros do Enéas, embora de minha casa não avistássemos a dele.&lt;br /&gt;Sugeri que chamássemos o Celinho, meu pai, que dormia ali em casa .&lt;br /&gt;-- Não, não, não, Eros. Deixa o Celinho dormir. Aliás, vai dormir você também. São quase duas da manhã. Vou até lá em casa preu provar pra estes brucutus (o adjetivo é meu, não me lembro do que Enéas chamou os PMs, mas era algo que tinha a ver com a truculência e a ignorância deles... meganhas, talvez fosse este o termo que Enéas usara) que sou filho do Capitão -- disse Enéas, fechando os vidros do carro antes de trancá-lo.&lt;br /&gt;Não preciso dizer que vetei imediatamente a idéia de abandonar o barco.&lt;br /&gt;Então Juninho, virou-se para o sargento, e disse, entre impaciente e autoritário:&lt;br /&gt;--Vamos lá. Cês seguem a gente...&lt;br /&gt;-- Seria mais rápido se vocês entrassem no carro e fossem com a gente. O cabo França e um outro praça iriam com a Brasília -- sugeriu, cavalheirescamente, o sargento.&lt;br /&gt;-- Nem fodendo eu entro no carro de vocês. E nunca, nunca deixaria algum de vocês botar as patas no volante do carro de meu pai – devolveu, cavalgaduramente, Enéas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, lado a lado, fomos andando rumo à casa do Enéas com a Patamo nos seguindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei, quase segredando ao Enéas:&lt;br /&gt; -- E agora? Você num tem carteira de motorista...Que merda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E porque cê acha que eu tô levando estes imbecis lá pra casa? Quando o capita aparecer, eles vão se cagar todos, pedir desculpas e ir embora, de fininho. Quer apostar? – respondeu Juninho, resoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em três minutos, estávamos na casa do Enéas. As casas não ostentavam as grades que são obrigatórias na Vila atualmente, e a luz da varanda ainda estava acesa, o que significava que ainda faltava chegar alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois este “alguém” acabara de entrar em casa. Antes, Enéas pediu, ou melhor, comunicou aos PMs que esperassem, no carro ou na varanda. Ele ia buscar o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que nós entramos na sala, os PMs iniciaram uma breve conferência na patamo.&lt;br /&gt;-- E aí, vocês conhecem esse “Capitão Enéas”? – perguntou o sargento Antunes.&lt;br /&gt;-- Um primo meu foi ordenança na casa do capitão. Ele só falava bem do cara e da família – afirmou o soldado Flores.&lt;br /&gt;Ordenança era um empregado sem salário. Um soldado raso que era cedido pelo Exército para trabalhar na casa de um oficial. Na maioria dos casos, fazia a faxina pesada, como limpar latrinas.&lt;br /&gt;-- Eu conheço, ou melhor, sei quem é. Ele, na verdade, entrou para a reserva como major. Agora manda num departamento da C.S.N.. É gente boa demais...— garantia o cabo França.&lt;br /&gt;Outro praça também sabia da (boa) fama do capitão.&lt;br /&gt;Só Antunes e um soldado nada sabiam a respeito do Capitão Enéas. &lt;br /&gt;– Caralho, é melhor eu pôr meu galho dentro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda na sala, d. Aída, que ouve o barulho do filho chegando, sai do quarto do casal, envolta num roupão que combinava com a cor, bege, do      creme que passara no rosto.&lt;br /&gt; -- Juninho!! -- grita abafadamente ela. – Por onde você andava? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacei você por tudo quanto é lugar. Liguei para o Eros, o André... e nada!&lt;br /&gt;Enéas esquivou-se dela, com um ”tá bom, depois a gente conversa” e já ia entrando no quarto, atrás do capitão, quando d. Aída, indignada com a indiferença do Juninho, alterou a voz:&lt;br /&gt;-- Moleque!! Olha aqui, me respeita – olhos injetados, expressão irritada.&lt;br /&gt;Enéas olhou-a e respondeu, se desvencilhando das mãos da mãe:&lt;br /&gt;-- Num é nada disso, Aída. É que agora papai precisa conversar com uns guardinhas aí.&lt;br /&gt;Estressada que só, d. Aída já imaginava o pior.&lt;br /&gt;-- Deus do Céu!!Bateu com o carro!!! Machucou alguém?? Eros??&lt;br /&gt;E eu me fazendo de jarro de planta.&lt;br /&gt;-- Não, num aconteceu nada, tia Aída – disse eu, que diferentemente de meus amigos, costumava chamá-la de dona, não de tia.&lt;br /&gt;E enquanto d. Aída vistoriava  Juninho à cata de algum caco de vidro espatifado, o filho contou-lhe o que acontecera.&lt;br /&gt; Foi o suficiente para ela mudar de atitude. E da busca dos resquícios de vidro passou aos tapas e cascudos no filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Peste!! E eu sem conseguir dormir até agora – disse d. Aída. – Não vai ser fácil acordar teu pai. Tava te procurando para que você o buscasse na casa do Jader, onde tinha um enterro dos ossos de um churrasco de carneiro. Encheu a cara de cerveja e tava cochilando com o seu tio na mesa, quando Aída me ligou. Dudu poderia ter ido buscá-lo, mas você saiu com a Brasília...Ainda bem que o Jader Jr. chegou e o trouxe para casa agorinha há pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dr. Jader era médico respeitado e primo do Capita. Os dois moravam na mesma rua, separados por umas oito casas, se tanto. Aída era a mulher do Dr. Jader, homônima da mãe do Juninho, e Jader Jr., obviamente, era sobrinho do capitão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois entram no quarto. Imagino o que não fizeram para acordar o Capitão. Eis que d. Aída sai do quarto e grita para o Enéas:&lt;br /&gt; -- Juninho, pega umas pedras de gelo.&lt;br /&gt;Vira-se para mim, que acompanhava a movimentação do lado da porta de entrada.&lt;br /&gt;-- Eros, chama os policiais até a varanda – disse-me. – Vou pedir que eles esperem um pouco. O Enéas já vem.&lt;br /&gt; Eu fiz o que ela pediu, não sem antes sinalizar que ela tinha creme no rosto.&lt;br /&gt;Quando os PMs chegaram à varanda, o Capitão já estava de pé, graças aos cubos de gelo que Juninho buscara no congelador. Ficou a par da situação e encaminhou-se para a varanda, acompanhado de d. Aída, robe fechado da cabeça aos pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Capitão foi falar com os PMs da maneira que dormia, sem camisa, apenas com um calção surrado. Capitão Enéas tinha fisionomia tão única como seu caráter – um cara simples, que sempre buscava o bom da vida, um dos meus heróis. Usava um bigode farto encimado por uma imensa nareba – herança que deixou para os três filhos homens; Eneida escapou dessa. As sobrancelhas grossas cobriam olhos castanho-escuros e tranqüilos e tinha uma pança típica de todo bom bebedor de cerveja. Sacam o Abracurcix, chefe da aldeia gaulesa de “Asterix &amp; Obelix”? Já d. Aída me lembra a Eva Vilma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, a cena foi muito engraçada, hilária mesmo. Estavam ali perfilados os cinco policiais, quepes devidamente nas mãos e os cinco batem continência e juntam os calcanhares quando o Capitão, olhos e nariz vermelhos, pança saliente e gambitos à mostra, surge na varanda e devolve o cumprimento juntando os calcanhares nus.&lt;br /&gt; -- Desculpe, capitão.  Mas estávamos fazendo nossa ronda de praxe na Vila, e na rua 27, encontramos uma Brasília bege e dois rapazes. Um deles disse ser seu filho. Era nosso dever checar – argumentou, se desculpando, o sargento Antunes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cumpriu o seu dever, sargento.... –embora o Capita espremesse os olhos, não conseguia ler o nome do PM, gravado na camisa.&lt;br /&gt;-- Antunes, senhor – apressou-se em ajudar o sargento.&lt;br /&gt;-- Cumpriu bem o seu dever, sargento Antunes. Ele é meu filho, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Desculpe tirá-lo da cama, senhor – bateram continência, despedindo-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, antes que começassem a marchar em retirada, o capitão perguntou com voz pastosa:&lt;br /&gt;  -- Sargento Antunes, o meu filho não lhe faltou com o respeito não, né?&lt;br /&gt;Senti um frio na espinha, mesma sensação que imagino que Enéas deva ter sentido.&lt;br /&gt;  Porém, o sargento foi magnânimo, acho que mais pelo estado do Capitão.&lt;br /&gt; -- Em absoluto, Capitão. O senhor tem um filho bem educado – Antunes disse a última frase olhando fixamente para o Juninho.&lt;br /&gt;Mais não disse o Capitão, retornando, cambaleante, para a cama e o seu sono tão bruscamente interrompido.&lt;br /&gt;D. Aída fez menção de dar uns tapas no filho, mas Juninho imobilizou-a, segurando as mãos dela. Lascou-lhe um beijo, afirmando-lhe:&lt;br /&gt;  -- Volto já, Aídão. Só vou buscar o carro na casa do Eros.&lt;br /&gt;D. Aída ainda resistiu aos carinhos do filho, mas quando conseguiu livrar-se do abraço, o Enéas já ia longe.&lt;br /&gt;-- Boa noite, d. Aída – gritei, já em frente ao jardim.&lt;br /&gt;Fomos até minha casa, entrei e o Enéas pegou o carro. Chegou em casa um minuto mais tarde. Enfim, a luz da varanda foi apagada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-4312647822951529763?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/4312647822951529763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/blitz-da-pm.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4312647822951529763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/4312647822951529763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/blitz-da-pm.html' title='blitz da PM'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-2926180755116271617</id><published>2009-11-22T15:50:00.000-08:00</published><updated>2009-11-22T15:52:08.192-08:00</updated><title type='text'>a viagem</title><content type='html'>Quando eu tinha 3 anos, meu pai e minha mãe construíram uma casinha a 14 quilômetros de Angra, num lugar chamado Pontal. Era uma meia-água  mesmo: quarto, banheiro, cozinha e um varandão imenso, que servia como garagem. Já o terreno que circundava a casa era grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na minha infância, quase todo fim de semana era para lá que íamos. Quando cresci, continuei a ir com muita freqüência para lá. Sempre com os amigos: Cláudio, Enéas, Cozido, Aurélio e Gugu eram figuras constantes na maison do Celinho (Célio era meu pai). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho que André e Chico (meus dois melhores amigos) nunca tivessem ido à Angra. Decidi que iríamos para lá, os três mais Marco Antônio Guerrero, outro amigo do Macedo Soares (colégio onde cursei da 5ª série ao cursinho pré-vestibular) e Renatinho, camarada que estudou os dois primeiros anos do 2ª grau, e logo caiu nas graças de toda a turma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui cabe um longo, porém compreensivo parênteses, que tem a extensão de uma crônica.&lt;br /&gt;O Guerrero é um clínico-geral, chefe da emergência do mais importante hospital da região, o Vita, que assim se chama desde que a C.S.N. privatizou seu hospital. Coube a ele a triste incumbência de comunicar a morte de meu pai, em 1993. Ontem, 21 de novembro de 2009 (aniversário do Celinho), ele fez um festão comemorando seus 50 anos.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Já do Renato César, pouco sei. Apenas que é engenheiro químico da Petrobras. Ou era. Há uns 18 anos o vi pela última vez. E é este encontro que justifica estas aspas no texto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha uns dois anos de casado e até a morte do meu pai, quase todo fim de semana passávamos em Volta. Imagina minha alegria quando Chico me liga, sábado à tarde, para contar de um velho amigo:&lt;br /&gt;-- Eros, antes do almoço, encontrei com o Renatinho, cara!!&lt;br /&gt;-- Renatinho...Caraí! E ele tá bem? Tá trabalhando? – perguntei, sinceramente interessado.&lt;br /&gt;-- Tá ótimo. Casado, trabalhando na Petrobras...Ele, inclusive, quer se encontrar com a rapaziada. Falei pra ele que podíamos marcar aqui em casa. E que falaria com você e o André, que viriam com as respectivas esposas. Marcamos aqui às 8h, tá? – confirmou Chico, dando um breve briefing &lt;br /&gt;do Renato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Desliguei o telefone e falei pra Claudia do programa de logo mais.&lt;br /&gt; Às 8h15m, estávamos, de carona, com André e Códia em frente à casa de Chicão e Áurea, então sua mulher.&lt;br /&gt;Às 8h20m, chegava o convidado especial, Renato César. Conversamos amenidades, falamos do destino de alguns de nossos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Até que Renatinho nos convidou para irmos a uma sala onde Chico, a pedido feito à surdina por Renato assim que chegou, postara um quadro branco e um pilot azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, depois de nos acomodarmos num longo sofá, Renato se põe ao lado do quadro, saca a pilot e inicia o discurso habitual:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Amigos, venho trazer para vocês uma oportunidade única...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;-- Puta que pariu! É Anway...Caralho!!! -– eu, indignado, interrompera Renato&lt;br /&gt;antes que ele concluísse a primeira frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para minha total decepção, era realmente Anway, o que nos juntara, depois de tanto tempo, a Renatinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amway, para quem não conhece, é uma espécie de pirâmide legalizada. O cara tem que convencer o maior número de pessoas a comprar o maior volume de produtos (de higiene pessoal, hidratantes e para limpeza doméstica) de marcas vinculadas à Amway. E tentam (acho até que acreditam, ao menos nas primeiras reuniões) provar que ser um vendedor Amway é certeza de independência financeira.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes encontros têm (e teve com o Renato protagonizando um dos momentos mais constrangedores da minha vida) a velha lenga-lenga. Exemplos de total mudança de vida, tipo  “Ronaldo Calado era um humilde atendente de farmácia. Isso até se tornar um vendedor da Amway. A partir daí, sua vida mudou. Investiu todo o seu salário em produtos Amway e hoje Calado mora num condomínio de alto luxo em Key Biscayne, na Flórida, joga golfe uma vez por semana e vive vendendo os produtos Amway  pelo mundo a fora. E isso porque, certo dia, Calado falou com convicção para si próprio: ‘Vou virar um vendedor da Amway e me tornarei um quaclionário (vide almanaque do Tio Patinhas).’”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que a “minha” Claudia (a Códia do André também era Cláudia e Regina, como a minha) ficou uma arara. Com comentários desdenhosos à cada “veredicto empresarial” pregado por Renatinho,quase não o deixou demonstrar a eficiência da Amway, como ele se propusera a fazer. Não houve perguntas depois da explanação de Renato. &lt;br /&gt;Ele percebeu a imensidão de sua cagada: a pretexto de rever amigos há muito afastados, promoveu&lt;br /&gt; uma reunião para vender Amway!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico também ficara irado. Estranhamente, André não ficou puto com o cara, considerando a atitude dele normal. Eu sei que antes das 10 da noite, acabou a reunião.  Renatinho, muito constrangido, e, acredito, seriamente arrependido, foi para a casa de um primo. Nós fomos para casa. Eu, particularmente,&lt;br /&gt;com uma péssima sensação: saudades não apaziguadas porque do que eu tinha saudades não existia mais.&lt;br /&gt;Falência de uma amizade.&lt;br /&gt;Fim do imenso parêntesis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado de nossa viagem amanheceu esplendoroso, sem nuvens no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oito e meia surgiam, na porta de casa, Guerrero, Renatinnho, Chico e André, devidamente instalados na Brasília amarela do Guerrero. Assim, antes das 9h estávamos pondo os pés na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem foi tranqüila. Guerrero não chegava a 80km/h – preferia a morosidade do que o risco. Mas o dia estava tão pleno de sol que a velocidade – ou melhor, a falta de velocidade – não nos incomodava. Era outono e o céu tinha uma limpidez rara. A paisagem da estrada de Volta Redonda para Angra era – acho que ainda é – estonteante. A serra é úmida e a estrada, margeada por pequenas cachoeiras, samambaias, marias-sem-vergonha e avencas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Pouco depois de Lídice – vilarejo que ganhara este nome em homenagem a uma cidade tcheca destruída na Segunda Guerra – o caminho estreitava-se para percorrer uma sucessão de três túneis. Ao cruzar o primeiro, uma surpresa inesquecível até mesmo para adolescentes insensíveis e com testosterona até a alma: uma visão de cartão postal da baía de Angra dos Reis. Aquele marzão todo lá embaixo, emoldurado por ipês roxos que salpicavam a serra verde. Uma das mais esplêndidas vistas de minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Agora, agora...Dêem uma olhada do lado direito, logo na saída do túnel...Caraí, num é demais?  -- inquiria eu, entusiasmado com o que acreditava uma revelação .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O silêncio à pergunta seria mais enfático do que o menear de cabeças e o “hum, hum” que  André e Chico limitaram-se a grunhir antes de retomar o papo em questão, algo de seriedade equivalente, nos dias de hoje, aos limites éticos dos excessos das cachorras do funk. Guerrero sequer respondera, sequer percebera que acabáramos de ser oficialmente apresentados à Angra. Só tinha olhos para o chão da estrada. Acho que foi a indiferença à beleza do mar que levou o tempo a se revoltar e dar o troco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos em casa, pouco depois de 11h, o tempo já estava lusco-fusco. Meu pai comprara o lote uns dois anos antes de 1964, quando a casa ficou pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Como descobrira o lugar, tão longe da civilização? A fazenda onde Celinho havia comprado o lote – os proprietários venderam uns poucos terrenos -- ficava em frente ao Iate Clube de Angra dos Reis (I.C.A.R.), clube cuja maior atração era mesmo o hangar que abrigava lanchinhas, lanchas e lanchões. Só isso explicava a existência de um clube a 14 quilômetros da cidade: a saída para o mar, o estonteante mar de Angra. O I.C.A.R. hospedava também sócios e convidados.  Bem, uma vez meu pai e minha mãe passaram um fim de semana a convite de um casal de Barra Mansa. Adoraram o lugar. Tornaram-se sócios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma época em que meu pai tinha pretensões a alcançar -- uma lancha e uma casa na praia eram duas delas. Tivemos uma lancha  -- pequenininha, uns 15 pés, cinco metros – e um motor Johnson, cuja potência não me lembro nem me arrisco a chutar. Uma voadeira –lancha pequena com motor de popa com alguma potência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que nós cinco tínhamos objetivos bem mais simples. Queríamos apenas nos divertir e ir para Angra era o máximo para mim em termos de auto-suficiência: um fim de semana longe de casa, comendo miojo e atum em lata. E o que seria inadmissível nos dias de hoje, naquele tempo já era difícil de aceitar: a casinha do Pontal não tinha luz elétrica. Ou seja, banho, só frio. Geladeira, televisão eram apenas pequenos trastes que nunca couberam em meus sonhos de capitão de mim mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendíamos o lampião e não raro ficávamos jogando conversa fora e assistindo a noite chegar nos revezando na rede que cruzava o varandão, antes de irmos para o I.C.A.R.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele fim de semana, logo depois que chegamos ao Pontal, o tempo fechou e às três da tarde já desabava uma chuva torrencial – o que era sinônimo de goteiras, uma vez que não havia laje cobrindo o varandão, era só telha. Saco!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mais de uma vez eu, Enéas e Cozido encaramos chuva e mergulhamos no mar do I.C.A.R.. Mas naquele fim de semana estava frio e nos preparamos para ficar em casa mesmo, comendo um miojo com salsicha, brindando nossa independência com Sangue de Boi (o mais abominável vinho que alguém já bebeu) e suco de laranja (na época André era um abstêmio intragável) em copo de geléia. Driblamos o banho gelado que a falta de luz elétrica nos proporcionava e, conformados com o confinamento provocado pelo toró, já nos preparávamos para dormir às nove da noite quando a chuva arrefeceu. Agora apenas chuviscava. Catei dois baralhos, meti no bolso do casaco e lá, fomos nós, de carro – coisa que dificilmente fazia, já que o Iate Clube ficava a menos de 300 metros de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontramos o clube vazio: tinha, entre visitantes e hóspedes, umas 20 pessoas. Não tinha viv’alma no salão de jogos – onde uma mesa de bilhar, tacos tortos e uma mesa de pingue-pongue eram muito disputadas, principalmente pelos cariocas que  tinham casa de veraneio no condomínio vizinho ao clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A presença deles nunca era muito agradável. Eram adolescentes da Zona Norte do Rio que, longe de serem ricos, arrotavam arrogância e prepotência por passar o dia percorrendo de lancha o mar de Angra. À noite, sem ter muito o que fazer, iam para o I.C.A.R. esnobar os funcionários e eventuais duros como nós, cuja principal diversão durante o dia era irmos à praia ali no I.C.A.R. mesmo, mergulhar agarrados às correntes presas a âncoras, pescar no rio da fazenda ou de tarrafa no canal que desaguava na divisa entre o clube e o condomínio e fazer breves incursões às ilhas próximas ao continente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atividades de nenhuma relevância para as gatinhas queimadas de sol que não davam a menor para nós. No entanto, volta e meia nos iludíamos acreditando num flerte – nunca confirmado; sempre voltávamos para casa de mãos abanando.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quando o clube estava cheio, limitávamo-nos a nos inscrever entre as duplas que se revezavam nas mesas de bilhar e de pingue-pongue. Não me lembro dos cariocas misturados a nós para poder jogar. Preferiam esperar um conhecido perder a jogar em parceria com algum de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o salão estava vazio, primeiro jogamos sinuca, depois pingue-pongue. Eu nunca foi grande coisa mas André e Guerrero eram ainda piores e Chico uma nulidade em jogos que exigem alguma coordenação motora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, chegamos a sentar numa mesa no salão destinado a jogos de carta. Mas o tempo estava horrível, a chuva ameaçava apertar e voltamos para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram 10 e meia da noite mas como não havia nada para fazer, fomos dormir. No quarto/sala eram só dois sofás. Quem perdia no sorteio, dormia em colchões espalhados pelo chão.&lt;br /&gt;Ganhamos eu e o Guerero; Renatinho, Chico e André dormiram no chão. Em pouco tempo, após as besteiras habituais ditas por cinco adolescentes fechados num quarto sem luz, caímos em sono profundo, não sem antes ouvirmos os comentários muito pertinentes de André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Puta que pariu! Tem mosquito pra caralho! – disparou André, untado de baldes de repelente como todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar dos zunidos angustiantes de pernilongos, dormimos quase que imediatamente ao comentário de André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte, André é o primeiro a acordar, Guerrero, eu e Chico pouco depois. Foi o André o primeiro a reparar, quando já estávamos na cozinha, prontos para o café da manhã:&lt;br /&gt;  -- Chico, caralho!! Cê tá com o lábio inferior inchadaço. Que maneiro!&lt;br /&gt; Com ares de preocupação, Chico passou a língua no lábio e saiu correndo para o espelho do banheiro. Nós o seguimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá bonitaço, Chicão – disse, antes de cair na risada, junto com André e Guerrero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico tivera o lábio picado por um mosquito e agora ostentava uma beiçola que o tornava ainda mais cômico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico é um sujeito que traz na testa um luminoso no qual se lê, em letras garrafais: “Sou muito gente boa, pode se aproximar”. Não é um cara bonito. Tronco, pernas e braços curtos e musculosos fazem-no parecer mais baixo do que realmente é.  Tem pêlos em volume semelhante ao de Tony Ramos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginem o que nós não o perturbamos com aqueles dois quilos de  beiço. No entanto, antes do meio-dia, o lábio já estava desinchado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como a chuva dera lugar a um tempo nublado, quente e abafado pacas, fizemos um rápido périplo pelo I.C.A.R.. Fomos até o hangar, andamos pelos salões do clube e fui mostrar para os três o condomínio ao lado. Acabamos entrando na praia – que, naquela época, já tinha lodo – nadamos, comemos sanduíches frios no bar e fomos para casa. Tomamos uma ducha fria, arrumamos a bagagem e, antes das 4 da tarde, já estávamos rumo a Volta Redonda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali começara o inferno do Guerrero. Mais do que na vinda, ele redobrara a atenção com a pista, molhada e escorregadia. Muito branco, cabelos louros dourados, feições finas, Guerrero ganhara o apelido de Robert Redford. Era caladão e tranqüilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o cuidado com a direção e a conseqüente morosidade valera-lhe os achincalhes de André, Chico e Renato que o atormentaram a viagem inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Guerrero! Guerrero! Tem uma lesma te ultrapassando pela direita. Cuidado! – advertira-o Chico, enquanto ria sua risada galopante, qual o Rabugento, o cão do Dick Vigarista, do desenho animado “Corrida maluca”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Guerrero! Guerrero! Foi mal. Eu deixei cair meu chiclete na marcha. Por isso você num consegue passar a segunda – emendava André, se vergando de rir, ao lado de Chico e Renato, no banco de trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Eu ria de algumas piadas, mas não de todas. Minha criatividade era nenhuma. E bom samaritano, calei-me para não deixar o Guerrero ainda mais puto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de mais de uma hora ouvindo, calado, os gracejos dos dois, o motorista achou por bem responder. Mas o fez de maneira tão gutural que a frase ecoou ininteligível. O que só excitou ainda mais Chico, Renato e André, que choravam de tanto rir com o bordão emprestado da frase proferida por Guerrero. A partir da intervenção onomatopéica de nosso Robert Redford, toda frase dita pela dupla terminava com uma sucessão de vocábulos ininteligíveis ou um simulacro de cochilo. Assim foi o resto da viagem, com André e Chico enchendo o Guerrero até Volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro a descer em casa fui eu. O segundo foi o próprio motorista. Isso porque na altura da rodoviária, Guerrero obrigou Renato, André e Chico a desembarcarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bem, cês me sacanearam a viagem toda, né? Então peguem um buzão para casa. Quem sabe vocês não vão mais rápido? – vingava-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três tentaram argumentar, apelando para um monte de garrafas de plástico duro que levaram para Angra. Mas Guerrero estava irredutível e começou a jogar as garrafas para fora da Brasília, junto com as malas deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do retrovisor da Brasília que se afastava, Guerrero acompanhava os malabarismos de Renato, André e Chico para resgatar as muitas garrafas de plástico a salvo até a calçada. Pela primeira vez desde que saíramos de Angra, Guerrero sorria. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-2926180755116271617?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/2926180755116271617/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/viagem.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2926180755116271617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2926180755116271617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/viagem.html' title='a viagem'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-3113945807492911765</id><published>2009-11-15T15:13:00.000-08:00</published><updated>2010-04-13T13:43:47.674-07:00</updated><title type='text'>A flor</title><content type='html'>Bom, conforme podem constatar, criatividade aqui passou longe. E desaguo todo o entulho represado por anos a fio. Pior para quem lê. Me desculpem. O único texto escrito e postado quase imediatamente foi o dos baianos de Viçosa. Assim, mando este texto que está escrito há séculos. Já o mostrei  pra uma pá de gente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei reproduzir o que contei para a então minha analista.  – há uns dez anos eu fiz análise pela terceira e última vez .Tinha tido duas experiências decepcionantes com psicoterapeutas – um deles chegava a pitar cachimbo, protótipo do freudiano. Numa das primeiras sessões com Bia, mulher do Sérgio, falei do trajeto da flor no dia da morte de minha mãe. E ela chorou – se emocionando e me emocionando. Prometo que volto com coisas mais amenas. É que ou mandava essa ou quebraria minha promessa de mandar um texto por semana.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando minha mãe morreu, tinha absoluta convicção de que todas as minhas vicissitudes tinham se acabado. Uma certeza de que dali para frente só viriam coisas boas. Todas as minhas mágoas e tristezas tinham-se acabado. Ledo engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era 19 de fevereiro de 1983 e estava de férias da faculdade em casa. Cursava o segundo ano de agronomia, em Viçosa, cidade mineira que ficava a quase 400 quilômetros de minha Volta Redonda natal. Era verão e minha mãe tinha sido internada no Hospital da Companhia Siderúrgica Nacional(CSN), com dificuldade de respirar, tão gripada estava. Naquela época, ela pesava algo em torno de 40 quilos, vitimida que estava pelo galope da doença de Machado Joseph, mal que afeta o cerebelo, conseqüentemente, o equilíbrio, e vai drenando as forças de quem tem esta bosta de doença até o imobilismo total, isto é, a morte. Estava sozinho em casa quando o telefone tocou. Era do hospital.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;-- O seu Célio está? -- perguntou o homem, depois de identificar-se como sendo do hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele saiu. Quem fala é o filho dele. Algum problema com a minha mãe? – respondi, perguntando.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O cara foi direto e disse que ela acabara de morrer. Desliguei o telefone e segui a pé até o hospital, a uns 600 metros da minha casa, na Vila. Fui acompanhando o riacho, que corria em frente lá de casa. Primeiro, peguei uma rosa no jardim, atravessei a rua, fui até a pinguelinha que cruza o rio. Costumava ir lá sempre com minha mãe na cadeira de rodas. Ela atirava uma flor no rio e acompanhávamos a trajetória dela, levada pela correnteza, até perdê-la de vista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã, estava sozinho sobre a ponte. Chorava. Joguei a rosa no riacho, só que desta vez, acompanhava sua trajetória não apenas com os olhos, mas caminhando por uma trilha de brita às margens do Brandão. Segui pela rua 31 -- Volta Redonda é uma cidade planificada, ou era, e as ruas eram todas numeradas -- vendo sua evolução nas águas nada turvas, embora sujas, do riacho. Seguia me lembrando de diálogos, de conselhos, de trejeitos, de expressões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Filho, vai ser bom quando eu morrer. Um alívio para mim e para vocês -- dizia ela, não sem algum esforço, pois a doença compromete a fala também.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;-- É verdade, mãe. Vamos todos parar de sofrer -- respondia, afagando-lhe o rosto fino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente -- eu, minha mãe, meu pai e Norinha, minha irmã -- era cardecista. E os cardecistas acreditam na reencarnação e na necessidade de purgar erros passados. Conseqüentemente, a principal virtude de um cardecista é – ou deveria ser -- a resignação. Hoje tenho minhas dúvidas quanto ao título da maior das virtudes, mas na época era inconcebível não ser resignado. Inútil (mas humano pacas) se revoltar contra tudo e todos; acho que só torna ainda mais pesado o fardo que nos cabe. E durante longos nove anos, não havia melhor sentimento que definisse minha mãe: resignação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fora uma mulher bela, de olhos grandes (esbugalhados, posteriormente), pernas bem torneadas. Era moderna para os padrões vetustos e bolorentos da época; trabalhou durante 18 anos como contadora da Companhia Siderúrgica Nacional. Só aposentou-se porque já não conseguia andar sem amparar-se em alguma coisa. E como nas ruas não há necessariamente paredes... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inda hoje tenho uma foto dela esbelta, com óculos gatinhos e calças capri. Além da indumentária, a modernidade era patente em sua atitude: ela era mulher até a medula. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A flor seguiu flutuando, a pista da Rua 31 obrigava o Brandão a submeter-se a uma breve ponte, de onde saia dividindo duas ruas, a 18.A e a 18.B. Segui a rosa pela 18-B com as últimas imagens de minha mãe latejando na mente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me fustigava um inoportuno -- porque pequeno, em razão do justo tamanho do que de fato deveria sentir -- arrependimento por não tê-la levada mais vezes para ouvir música no meu quarto. Mais do que isso: o que me vinha à mente agora eram as vezes em que algum amigo me chama à porta de casa e a levava, carregando-a nos braços para seu próprio quarto -- é bem verdade, sempre um pedido dela mas que eu nunca objetivara. Ela tinha vergonha de estar naquelas condições ou melhor, eu é que tinha vergonha da minha mãe. E embora guardasse isso só para mim, posando de hercúleo e bom filho, relativizando minha vergonha diversas vezes, ela, obviamente com seu sonar de mãe captara meu desconforto com sua trágica presença junto a amigos meus e sempre que possível, buscava afastar qualquer constrangimento. E ela gostava tanto de ouvir música no meu quarto...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ia me torturando com estas lembranças, deixando uma lágrima rolar aqui, outra acolá. Quando o riacho mergulhou novamente, desta vez sob a pista da Rua 33, tentei rezar um Pai-Nosso, mas fiquei só nos dois primeiros versos: minha rosa tinha sumido. Me passou uma estranha sensação de solidão, de orfandade com o sumiço da flor nas águas do Brandão. Mas depois de alguns segundos, a rosa emergiu de um redemoinho e seguiu rumo ao hospital. Eu sorri um sorriso triste e a segui ainda pela Rua 18-B até o riacho desaguar num afluente do Paraíba, na Rua 41.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali até a entrada do hospital foi um pulo. O Hospital da CSN ficava, mais ou menos, na metade da rua. O sol começara agora, por volta de 11h30m, a despontar no céu, abrindo espaço entre muitas nuvens. A distância era curta, a flor não demorou mais de três minutos para rodopiar, pega por uma correnteza mais forte, em frente ao hospital, para onde eu seguia. Ao todo, caminhando lentamente para acompanhar a rosa, não levei mais de que 20 minutos. Tempo suficiente para que passasse a limpo e rememorasse as principais paradas do suplício de minha mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do diagnóstico errôneo de Parkinson -- mas o único cabível na Volta Redonda dos anos 60 -- o caminhar sempre escorando uma parede, o tombo no quarto da minha irmã, a decisão de não mais andar, de só se locomover de cadeira de rodas -- Meu Deus! E nós acatamos esta estupidez, que agravou e tornou irreversível seu quadro de imobilidade. As noites passadas dormindo na cama logo abaixo da sua, ajudando-a a se mexer durante a noite, a dificuldade para se expressar, as escaras, aquele corpo que mal chegava aos 35 quilos e cuja rigidez caminhava para assumir a posição fetal e final. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho certeza, certeza não, impressão, de que quando joguei um beijo para a rosa, numa despedida definitiva, a flor rodopiou ao descer uma correnteza e deslizou lentamente, como também despedindo-se de mim para, em seguida, seguir o caminho do rio. Àquela hora,chorava. E no peito, trazia um alívio indescritível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-3113945807492911765?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/3113945807492911765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/flor.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3113945807492911765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3113945807492911765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/flor.html' title='A flor'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-8407510572998156936</id><published>2009-11-06T13:50:00.001-08:00</published><updated>2010-02-06T14:24:57.187-08:00</updated><title type='text'>A Glória de Edisom (acolhendo, tardiamente, perfeita sugestão do André)</title><content type='html'>tá imensa, eu sei.Ficaria muito maior se eu contasse mais alguns episódios imprescíndíveis a saga de Edisom na Glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era 1980, 1981. Migrantes em busca de faculdades, nós, jovens de Volta Redonda deixávamos a cidade em debandada. Exagero falar em debandada. Na verdade, só os filhos da elite – uma classe média que podia pagar cursinhos pré-vestibular e bancar a permanência dos herdeiros em outra cidade – trocavam de ares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da turma que fez o 3º ano junto com o pré-vestibular no Macedo Soares, a grande maioria tinha ido para o Rio. Acho que, de conhecidos, só Artur e Ovinho foram para Petrópolis; eu e André, para Viçosa; Gugu para Valença; e Valéria e Guilherme para a Rural, em Seropédica. Aurélio e Jalb não passaram no vestibular integrado e ficaram por Volta Redonda mesmo, estudando na faculdade de engenharia civil da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui no Rio surgiram repúblicas formadas por quatro ou cinco rapazes, em média. Num dois quartos sem qualquer sofisticação na rua Benjamin Constant, na Glória, Chico e mais quatro sujeitos formaram uma das mais ecléticas que surgiram no período.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento só virou república no segundo ano de faculdade do Chico. Primeiro, ele e o Nelsinho, outro voltaredondense,  resolveram dividir um apartamento na Cacuia. Isso mesmo, Cacuia. Um bairro na Ilha do Governador, onde ficava o campus do Fundão, da UFRJ. Os dois, espertos, resolveram morar perto da faculdade de Matemática. Na primeira semana, chegaram todos os dias atrasados na aula; simplesmente não conseguiam acertar o ônibus. Detestaram a vizinhança, cansaram de se perder na Ilha. Enfim, descobriram que era uma senhora roubada morar na Cacuia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que muito mais longe do Fundão do que a Cacuia, a Glória era um caminho mais rápido para a dupla rumo ao imenso campus da U.F.R.J. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento na  Benjamin Constant já tinha um habitante: João Avelino, primo português de Chico que viera de além-mar tentar a sorte no Brasil. Os três rapidamente criaram uma comissão para aprovar eventuais candidatos a companheiros de aluguel. Eles queriam mais dois para dividir despesas. Assim, dois ficariam no quarto da frente, dois no quarto dos fundos e o Chico ficaria no quartinho de empregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três conversariam com os interessados. E para evitar futuros dissabores, combinaram que precisaria de uma tríplice aprovação. O primeiro candidato a ser sabatinado pelo trio foi Luís Fernando. Mais velho, já havia se formado em engenharia e era um gênio em computação. Trabalhava no campus da UFRJ, no Fundão. O papo com Chico, Nelsinho e João foi legal. Luís Fernando, que não esbanjava simpatia,  mostrou-se sério e objetivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E aí, gostaram do cara? Eu gostei. Voto a favor – perguntou e respondeu João, tão logo Luís despedira-se dos três, deixando o apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O cara não é simpático, mas parece ser gente boa. Também voto a favor...E você, Nelson? – reforçou Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Num sei... – ponderou Nelsinho. – Ele é muito feio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento para a dúvida fora tão estúpido que só ficou restando uma vaga, imediatamente preenchida por Edisom – também conhecido por Elvis, pela semelhança física com The Pelvis. Filho de um médico ilustre em Volta Redonda, de quem herdara o Júnior, morava no mesmo bairro que do dono do apartamento. Fora a própria mãe que falou com Seu Zé Alfredo, pai de Chico, pedindo pelo filho, que tinha que sair do apartamento que ocupava em Ipanema. Assim, resumira-se a uma única entrevista a atuação da comissão-de-aprovação-de-candidatos-a-uma-vaga-na-apto-301-da-Benjamin-Constant-149.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom era um velho conhecido de Chico e Nelson. Fora colega de classe da dupla nos três últimos anos de Macedo. Não estava entre os sujeitos mais populares do Macedo. CDF, passara para física no Fundão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de estudioso pra caramba, fazia musculação em casa – era fortão pacas – e vivia bronzeado, fruto de muito sol na casa de praia que a família tinha em Ubatuba, São Paulo. A casa onde morava, em Volta Redonda, era uma mansão. Casarão que não trazia boas recordações para Chico, que não se cansava de lembrar-se de uma sacanagem de Edisom. Chico tinha acabado de se transferir para o Macedo e ainda sem conhecer ninguém, visitara o vizinho, aluno do colégio desde o ginásio (ou melhor, 5ª série do 1º grau).  Estavam na cozinha quando Edisom percorreu a área de serviço abrindo a porta que dava acesso ao quintal. Rindo, gritou:&lt;br /&gt;  -- Pense rápido, Chico!!  &lt;br /&gt;A porta que Júnior abrira mantinha um doberman enorme  e feroz no quintal. O animal entrou na casa e cravou os olhos no Chico e  partiu, célere, ao alcance dele. Por sorte, o visitante atinara rapidamente para o perigo e pernas curtas em frenética corrida, fugira para o corredor, fechando uma porta atrás de si. Por segundos não teve sua parte mais protuberante (a bunda, óbvio) mastigada pelos dentes alvos do cachorrão do Edisom –  Edisom tinha dentes brancos e era mesmo um cachorrão, mas no caso a ameaça era mesmo o doberman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois era este brutamontes egocêntrico e arrogante o quinto morador da república de Volta Redonda na Glória. E de algoz, Júnior passaria a condição de alvo preferencial das sacanagens daquele quarteto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo em sua chegada ao apartamento, ficara claro em que vespeiro Edisom tinha se metido. Ele chegara para as aulas uma semana depois de iniciadas as aulas; aproveitou mais seis dias de sol em Ubatuba, e domingo à noite chegou à república.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fica à vontade, Edisom. Cê vai ficar no quarto com o Luís – anunciava Chico, enquanto o recebia.&lt;br /&gt;Marrento como de hábito, Júnior deu um tapão a título de cumprimento em Chico.&lt;br /&gt;-- E aí, Chico? – entrou, já atirando sua bolsa no chão da sala e dando uma olhada – a primeira – no apartamento.  – É esta a televisão? – perguntou, referindo-se a um televisor p&amp;b enquanto instalava-se no acanhado sofá de napa branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico não respondeu. Tratou de apresentar seu primo, João, que se sentara numa poltrona sem pés ao lado do sofá. Edisom exclamou um oi pouco efusivo. Falou com Nelsinho, também vizinho de Aterrado, bairro de Volta Redonda. O novo morador do apto 301 só não conhecera seu companheiro de quarto, Luís Fernando, que tinha ido ao cinema e só deveria chegar por volta de meia-noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico retoma o papel de mestre-de-cerimônias e recomeça, mostrando o apartamento ao recém-chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Este é o seu quarto, esta é sua cama; Nelson e João dividem o quarto da frente; aqui é o banheiro – apresentara Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E seguiu mostrando o resto do apartamento. De volta à sala, Chico levou Edisom até a janela e mostrou-lhe a rua. Disse que ao lado do apartamento havia “uma casa de tolerância”.&lt;br /&gt; __ Se precisar de maconha ou pó, encontra a um preço justo no segundo andar daquele prédio – afirmou, apontando para a cabeça-de-porco que ficava à esquerda. – Procura o Genésio. Diz que mora aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Júnior esboçou um sorriso, mas Chico sequer deixou-o retorquir o oferecimento.&lt;br /&gt;-- Pois é, Edisom. De vez em quando a gente até cheira um pouco. Tanto para ficar ligadão quanto para relaxar. Aliás, quando você tocou a campainha, a gente tava se preparando para cheirar. Cê está servido? – perguntou Chico, encaminhando-se à mesa de fórmica amarela próxima da janela.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentados, já se encontravam Nelson e João, em volta de carreiras de pó branco, canudos feitos de notas de R$ 10 à mão. Chico juntara-se aos dois e começava uma cheiração danada. Edisom mantinha-se sentado no sofá. Os olhos saltados, o novo inquilino mostrava-se assustado com aquela orgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sequer podia imaginar que o pó branco não passava  de fermento Flashman e que a encenação fazia parte da jocosa recepção tramada por Chico e Nelson. Ele começou a ficar preocupado quando Nelson, fingindo estar fora de si, enrolou-se nas velhas cortinas e começou a gritar.&lt;br /&gt;-- Vou sair voando pela janela. Vou seguir até o Voltaço – ameaçara ele, levantando-se, agitado, da mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom, perplexo com seus novos colegas, aproximou-se, num pulo, do suicida em potencial.&lt;br /&gt; -- Que isso, Nelson!! Enlouqueceu?  -- balbuciara, segurando-o pelo braço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João também se levantara rumo à janela. Edisom estava apavorado. Olhos esbugalhados, não sabia o que fazer. Merda! Seu primeiro dia na república e suicídios em massa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, Chico botou tudo a perder, quando teve um acesso de espirros. Sete seguidos. O Nelson e o João pararam com o ímpeto suicida. Até que Chico foi ao banheiro e pingou sorini, aquele remédio para nariz entupido. Numa das ações entorpecentes, Chico aspirava fermento sem querer e agora o “pó” incomodava-o pacas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da evidência de que Chico não estava drogado, Júnior se pôs a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vocês são uns idiotas mesmo, uns tremendos manés – disse Edisom se encaminhando para o banheiro. – Vou escovar os dentes e dormir. Boa noite, palhaços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alergia do Chico adiou o desmonte da empáfia de Elvis, que continuava a se achar muito melhor do que seus colegas de apartamento. Numa manhã, começou a irritar João, que tomava café com um ar e uma cara visivelmente cansados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E aí, fracote? Que animação, hein? – provocou Edisom, sentando-se à mesa, bíceps volumosos que transcendiam à camiseta. Tinha acabado de fazer meia hora de halter em seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  -- Por que você num faz como eu e passa a malhar todo dia de manhã? É óbvio que nunca chegaria a ter músculos assim, mas pelo menos ficaria mais animado – continuava a encher o saco de Avelino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora do “ é óbvio nunca chegaria a ter músculos assim”, estava bem perto de João, cotovelo na mesa enquanto exibia seu muque. João, que mascava seu desânimo, cream cracker e margarina, reagiu de maneira silenciosa e eficiente: encheu a faca de margarina e besuntou os músculos que Edisom exibia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ele custou dois segundos a acreditar na ousadia e João não deu sorte ao azar: estava semi-pronto para ir para o trabalho e semi-pronto foi. Esbaforido, escafedeu-se porta afora enquanto Edisom até pensou em ir atrás dele mas conteve-se, impedido pelo short de pijama que usava. Sem cueca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Restou ao fortão vociferar ameaças de aniquilamento a João, interrompidas pelas risadas curtas que alavancavam Chico do sofá, de onde assistira à cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa de um mês e pouco mais tarde, fim de tarde, início de noite, Nelson, Chico, João e Luis já tinham chegado em casa. Estavam todos na sala, assistindo televisão e jantando (uma sopa Maggi) uns, lanchando (pão com requeijão e presunto) outros. Eis que Júnior entra em casa, vindo da universidade. Tem o semblante carregado, vai até o sofá, onde calma e severamente desvencilha-se da bolsa – daquelas Sansonites que usa-se com a alça cruzando o ombro e suspira, todo sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da imensa carga de desânimo com que ele adentrara a sala, João, solícito, perguntou:&lt;br /&gt;-- O que houve, Edisom? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros três também abandonaram a TV e agora estavam atentos à maldição que caíra sobre o Edisom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Putzs!! Não dá!! Puta sacanagem!! Cês lembram que eu fiquei a semana passada toda estudando para uma prova? Pois é, era matéria pacas, um retrospecto de Cálculo I e Cálculo II, mais tudo que demos até agora em Cálculo III. Você viu, né, Luis? Virei noite estudando...&lt;br /&gt;-- Verdade, verdade – assentiu Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hoje o professor entregou a nota. Me ferrei – admitiu Edisom, olhar desolado fitando o nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como notas baixíssimas na faculdade de Matemática eram comuns para Chicão, ele quase sorriu de júbilo. Ameaçou um “bem-vindo ao clube”, mas pensou melhor, concluiu que o fracasso não teria entorpecido totalmente aquela besta-fera e evitou uns catirapapos com uma fingida solidariedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Não esquenta não, cara. O Fundão é foda, cê sabe  disso.Também acabei de receber as primeiras notas deste semestre. Minha maior nota foi 5,5. Fiasco geral – afirmou Chico, falso toda vida, mas que diante da inércia do colega começara a ficar realmente preocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João, Nelson e Luís Fernando também cercaram Edisom, prestando sinceras demonstrações de preocupação com o abatimento dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sujeito agradeceu as manifestações de carinho dos companheiros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- É, mas é isso aí! Vida que segue – afirmou Edisom, subitamente recuperado, se encaminhando ao seu quarto. – Vou tomar um banho, sair, tomar umas cervejas e dar uma relaxada... Num adianta ficar reclamando agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava quase na porta de seu quarto quando alguém, a título de curiosidade, perguntou: &lt;br /&gt;-- E quanto você tirou na prova?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retorno foi seco, seguido de barulho de porta fechando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sete e meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta emudeceu os quatro, que imediatamente se entreolharam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Caralho!!“ – pensavam em uníssono. – “A gente se solidarizando com o cara, crente que ele tinha se ferrado e, na verdade, o filha da puta reclama de um 7,5, um notão! É muito besta!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não trocaram palavra. Apenas cochicharam durante breves segundos. Edisom tomou banho, se perfumou e assobiando uma canção, despediu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que ele bateu a porta da rua, Chico correu para a pia da cozinha, onde, num canto, repousava uma panela de pressão na qual fizeram um feijão incrementado há pelo menos quatro dias. Encheu a panela de água e com a ajuda de João levou-a até a janela da frente do apartamento. Nelsinho e Luiz já esperavam os dois aos brados de “Rápido!”, “Rápido!”&lt;br /&gt;Poucos segundos mais tarde saiu Edisom, todo pimpão. Só ouviu alguém o chamando do apartamento, parou e olhou para cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choft!!! A água suja da panela caiu em cheio, encharcando completamente  o camarada. Pingando e puto dentro da roupa molhada, Júnior subiu voando de volta para o apartamento, pelas escadas mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou esbaforido na sala. Barulho algum. Os quatro estavam trancados no banheiro, morrendo de rir. Edisom esmurrava a porta, transtornado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Abram esta merda, seus filhos da puta. Têm coragem para me molhar mas não para me encarar, né, seus covardes. Vou enfiar muita porrada em vocês. Vou matar um! – vociferava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Ai, que meda! – irritava-o ainda mais Chico, protegido pela porta do banheiro. – Vai chorar seus 7,5 com suas amiguinhas da Augusto Severo (conhecida avenida de baixo meretrício na Glória). Tu é um babaca, Juninho!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom ainda tentou fazer com que eles saíssem do banheiro. Secou-se, trocou de roupa, foi até a porta da sala, abriu-a e bateu-a. Em seguida, pé anti pé foi até a porta do banheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Caralho, como você é previsível. Fingiu que saiu, bateu a porta da rua e agora taí, esperando a gente sair. Pó esperar  sentado. “Daqui não saio, daqui ninguém me tira” – cantarolou, irônico, Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom bufou. E foi-se embora, ávido que estava para dar uma escapada daquele ambiente pouco aconchegante onde se metia alguns dias antes de alguma prova. Queria relaxar, aproveitar aquela noite enluarada e de temperatura agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre assim: antes de uma bateria de provas, Júnior só saia de casa para ir às aulas. Fora isso, trancava-se em casa e passava tardes e noites estudando. Feita a prova, saía e se destrambelhava. Houve vez em que só chegou em casa no dia seguinte, completamente bêbado. Geralmente, as noites de esbórnia eram de sexta para sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fruto de maior intimidade este episódio ilustra a quantas andava a relação entre os republicanos. Depois de uma atribulada prova, Edisom preparava-se para uma noite de “descarrego”. Passara uma semana enfurnado em seu quarto estudando – faltou às aulas a semana toda para dedicar-se integralmente. No fim de tarde, lá estava ele febril para desopilar o cérebro, oxigenar a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Quer ir não, Chico? Vou só tomar umas cervejas...Voltamos logo...Vamos, João?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As negativas foram incisivas e pontuadas por gozações. Tanto que Edisom não insistiu e às 8h em ponto, perfumado que só, desceu a Benjamin Constant, não sem antes cruzar rapidamente a portaria do prédio, para onde debruçava-se pela janela do apartamento – seguro morreu de velho.&lt;br /&gt; Chico, João e Luiz – Nelsinho já não morava na Glória – só estavam esperando Júnior sair para começar a operação “desmanche”. Desmanche de cama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com precisão e cuidado, os três desmontaram o estrado da cama do Edisom. Para sustentar o colchão, colocaram várias caixas de papelão vazias. As caixas tinham sido coletadas pelos três ao longo da semana e armazenadas no banheiro de empregada, ao lado do quarto do Chico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final do trabalho, a impressão era de que a cama de Edisom sequer fora tocada. A colcha estava arrumada, não havia nada amarfanhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que do jeito que Edisom costumava chegar dessas noitadas não repararia num rinoceronte no quarto, quanto mais numa dobra na colcha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O perfeccionismo na confecção da cama imperou até às 4 da manhã quando, bêbado como um gambá, Edisom meteu a chave na porta do apartamento e entrou na sala. Acendeu a luz da cozinha, fez o esporro habitual de copo sobre a pia, e garrafa d’água retirada da porta da geladeira. Chico acordou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Júnior levou o copo d’água para o quarto, onde evitou fazer barulho até descobrir que Luís não dormira em casa. Tirou os sapatos, a camisa, a calça e se jogou, de cueca, sobre a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As caixas de papelão não resistem ao peso e o colchão desabou com Edisom em cima.&lt;br /&gt;-- Seus filas da puta. Viados, escrotos... – xingava Edisom, que com a voz pastosa ainda berrou mais uns cinco palavrões até cessar, derrubado pelo sono e as cervejas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico, sem sequer se levantar da cama, ria de soluçar. O mesmo fazia João, no quarto da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom diferia pouco de um aborígene. Era capaz dos atos mais imbecis para provar algo para os amigos – na maioria das vezes só conseguia provar o quanto era troglodita. Como quando apostou com o restante da república que conseguia comer, de uma vez só, uma dúzia de ovos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Consegue nada. Isso é só farol. Você fala muito... Cê lembra quando garantiu que fazia cem flexões e quando chegou a 91 bufou e quase apagou? – instigava Chico, lembrando outra aposta ridícula feita por Elvis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nanico, te garanto que como uma dúzia de ovos. Cozidos, é claro. Aposto o que você quiser – respondeu, ofendido em seus brios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando Chico e João fizeram uma proposta para lá de indecente. Inacreditável mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então tá. Se você conseguir comer todos os doze ovos, a gente te paga outra dúzia. Do contrário, não pagamos nada, ok? – propôs Chico, com total aprovação de João, que emendou: -- Mas se deixar meio ovo que seja, babau! A gente num compra um ovinho sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma proposta dessa é motivo, para no mínimo, xingar a mãe de sapo e o pai de perereca. No entanto, em nome da augusta palhaçada, Edisom aceitou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá legal. Mas vocês compram a dúzia de ovos amanhã, combinado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico e João não esperavam que ele topasse. A aposta foi feita de chofre, só para implicar. Difícil para Chico agora era conter o riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fechado! Você come uma dúzia de ovos que a gente te paga uma dúzia de ovos – João só pronunciou a frase para que reverberasse o absurdo da aposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom encheu uma panela de água e botou-a sobre uma boca do fogão. Depois foi até à geladeira. Pegou a caixa de ovos e cuidadosamente botou uma dúzia de ovos para cozinhar. João e Chico, ainda incrédulos, acompanhavam a movimentação excitada de Júnior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cozidos os ovos, ele os deixou esfriar e foi levado por Chico e João para a sala, onde a “degustação” podia ser assistida de camarote, ou melhor, no sofá velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de comer oito ovos em pouco mais de dez minutos, Edisom deu sinal de que a missão não era tão simples quanto ele próprio crera.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;-- Deixa eu beber um pouquinho de coca. Tô ficando entalado – disse, encaminhando-se para a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Nada disso – gritou Chico. – Tem que comer os ovos a seco. Do contrário, é mole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João apoiou o primo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Se não for a seco, num vamos pagar nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rindo aos solavancos, Chico cochichou com João: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu quero ver sair gema pelos tímpanos dele. Acho que basta ele comer mais uns dois ovos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--É, ele vai explodir –- juntou João. &lt;br /&gt;Edisom deu meia volta, sentou-se à mesa diante da panela com os quatro ovos intactos e do prato com as cascas dos outros oito. Soltou um alto e fétido arroto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos, vamos – frisou Chico,batendo palmas, encurralando Júnior, o que normalmente era impensável – A aposta era para comer agora. Comer assim, até eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edisom ameaçou dar uns cacetes naquele nanico insolente, mas voltou-se para sua atividade-fim momentânea e comeu os quatro ovos restantes. A seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ganhei!! Consegui!!! – ergueu-se da mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas num teve tempo sequer de comemorar. Mal se levantou, foi uma corrida desabalada para o banheiro. Chico e João foram atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajoelhado, quase abraçado ao vaso sanitário, Edisom vomitou toda a dúzia de ovos que acabara de ingerir. Chico gargalhava, até chorou de tanto rir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cara, você é mesmo um mané!! Vou descer ainda hoje para comprar sua dúzia de ovos, campeão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Caralho, és um estúpido mesmo – completou João, saindo do banheiro junto com Chico.&lt;br /&gt;Edisom continuou algum tempo ao lado do vaso. Durante à noite mal-dormida, com uma tremenda dor de cabeça causada pelo fígado, levantou-se umas três ou quatro vezes. E teve que agüentar durante muito tempo Chico e João repetindo a história.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso tem quase 30 anos. Hoje Edisom é professor de física numa universidade mineira. Um sisudo – me engana que eu gosto – mestre. Casado, pai de uma menina de 15 anos.&lt;br /&gt; Calvo, nem de longe lembra o topetudo Elvis. A marra e a arrogância se diluíram ao longo de anos de análise, de confinamento em Londres, onde fez mestrado e doutorado, e -- por que não? --  na convivência no apartamento da Glória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-8407510572998156936?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/8407510572998156936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/elvis-pelvis.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8407510572998156936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/8407510572998156936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/elvis-pelvis.html' title='A Glória de Edisom (acolhendo, tardiamente, perfeita sugestão do André)'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-5575039544386993118</id><published>2009-11-05T06:50:00.000-08:00</published><updated>2010-01-29T07:34:59.121-08:00</updated><title type='text'>Passei</title><content type='html'>tinha escrito este troço há muito tempo e continuava pelo meu encanto inicial por Viçosa. Mas eu não acabei o texto, dde modos que dada a urgência de manter um texto a cada semana, mando este mesmo reclamações na gerência.Mas cês esttão no lucro. quae mandei um texto pseudo-filosófico meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagens: toda a galera que estudava junto no Macedão, curso pré-vestibular de Volta, mais o Luis Henrique, o Cozido, que fizera cursinho no Rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chuveiro dava um choque fraquinho, mas que incomodava. Eu só ouvia, predominantemente, a voz do Guerrero, me orientando (?):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Isso, Eros. Segura aí (numa das tais maçanetas que davam o incômodo choquinho). Tá acabando... – gritava ele para mim e para um monte de gente que tinha ido me ver tomar banho, completamente bêbado, depois de vomitar, no chuveiro no banheiro do quarto do Enéas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era um misto de orgulho e depressão, aromatizado por um odor de vômito e coquinho  -- uma batida vagabunda que eu e o Cozido tínhamos comprado no fim da tarde para iniciarmos a comemoração por termos passado no vestibular. O resultado da maioria das provas saíra naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era dezembro de 1978 e éramos mais de 30 adolescentes na casa do Enéas, nosso ponto de encontro habitual. D. Aída, mãe do Enéas, não se importava com aquela  turma barulhenta que enchia a cara, ocupando varanda, sala, quartos,cozinha e garagem da casa dela com berros e bravatas. Ao contrário: vibrava mais do que muitos e consolava quem não tinha passado. Por isso, não se alterou quando me viu, cabeça molhada ainda, sem camisa e usando um short que imagino do Dudu, irmão mais novo do Enéas, ser atirado no beliche superior do quarto do filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutei o comentário sucinto dela: &lt;br /&gt;-- O Eros é mesmo fraco para bebida, né?  &lt;br /&gt;Apagaram a luz e fecharam a porta do quarto. Tentei protestar, mas aquela altura tinha me tornado inaudível. E apesar do facho de luz no chão da porta e do vozeiio, o efeito do álcool era mais forte e apesar da comemoração ter ido noite adentro, em pouco tempo eu “apagara”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-5575039544386993118?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/5575039544386993118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/passei.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/5575039544386993118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/5575039544386993118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/11/passei.html' title='Passei'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-2457895025933020519</id><published>2009-10-29T18:15:00.000-07:00</published><updated>2010-02-24T15:05:26.423-08:00</updated><title type='text'>"O" apelido</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_MG18-o8YHWY/S4Wwrv9qXSI/AAAAAAAAAAM/DiqQigV9NDE/s1600-h/capucci2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 299px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_MG18-o8YHWY/S4Wwrv9qXSI/AAAAAAAAAAM/DiqQigV9NDE/s400/capucci2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5441949990403071266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TÁ GRANDE PACAS, EU SEI, MAS É RECENTE. O TÍTULO É O APELIDO,LITERALMENTE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que nos mudamos para Viçosa, em 1979 (caraí!!), eu e André éramos bem próximos a dois baianos de Salvador, Arthur e Boca – não me lembro do nome dele, só era conhecido pelo apelido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós os conhecêramos durante as provas do vestibular. Arthur era brilhante e não teve dificuldades para passar para engenharia agronômica. Éramos calouros do mesmo curso. André passara com méritos; eu, porque redação tinha o mesmo peso de matérias como matemática e biologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boca era calouro de um curso menos concorrido: zootecnia, que era uma sub-veterinária. Dava ao cara noções de como lidar com os bichos, coisas como tirar a temperatura, como vacinar, como ordenhar uma vaca, mas não lhe permitia sequer prescrever um remédio para berne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur era bem mais exuberante que Boca. Tinha a manemolência típica de&lt;br /&gt;todo bom soteropolitano (natural de Salvador). Era sacana toda  vida. Não passava um diálogo sem zoar de seu interlocutor. E ele e Boca falavam muito. Tanto que nós, nascidos e criados em Volta Redonda, sudoeste do Estado do Rio, sem -- graças a Deus! – qualquer sotaque característico, ficamos, durante meses, falando baianês. Sempre que íamos a Volta, carregávamos as expressões e as bocas moles dos baianos. Como se aquele vício de linguagem fosse algum legado importante...Imagina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que os caras eram engraçados pacas. Arthur nunca perdia a oportunidade de lascar um apelido em quem quer que fosse. Lindo Olhar era o jocoso nickname de Norberto, um sansei de Londrina, veterano que morava com eles numa pensão no primeiro semestre de faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Outras pérolas precisam ser creditadas: Erótico era como me chamava; batizou Guilherme, um calouro como nós, de Visconde de Sabugosa. Era olhar para o sujeito e visualizá-lo com a cartola da espiga de milho falante criada por Montteiro Lobato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas genial mesmo foi o apelido que cravou no Flavão, conterrâneo nosso . Era um sujeito grandalhão e algo pançudo - mais grande do que gordo.  Tinha expressão séria sublinhada por sobrancelhas volumosas, verdadeiras marquises. Nós nos conhecemos na primeira semana de aula, quando ele, já de posse de seu camelo – bicicleta, essencial para quem, como nós, não tinha carro – se apresentou, curto e grosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olá. Cês são de Volta  Redonda, né? Eu também. Meu nome é Flávio e vocês devem ser André e Eros. O Muel (amigo meu de infância, Samuel) comentou comigo que vocês tinham passado para cá – disse Flávio, numa torrente de perguntas e respostas que não mais se repetira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali para frente éramos três. Uma semana depois, Flávio mudara-se para a pocilga onde moramos os primeiros seis meses de 1979, onde dividira um quarto na parte baixa da casa de cômodos – morei em repúblicas de estudantes  e aquilo não era uma república, embora todos ali fossem estudantes – com um sujeito chamado Hélio. O codinome, Aranha, fora dado porque, numa noite de muita bebedeira (dele, o cara tomava goles e goles de cachaça sozinho!!), o celerado apostou conosco que botava o pé no teto do quarto. É claro que nós, três espíritos-de-porco em involução, botamos pilha.&lt;br /&gt;-- Mas isso é mole, Hélio!! O pé-direito desse quarto é mínimo – dizia eu, do alto de meu 1,67 cm, incendiando o bebum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mole é??? Eu falei que vou botar o pé é lá em cima!!! – repetia Hélio, apontando para onde uma fraca lâmpada iluminava o beliche onde dormia, no andar de cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sei que a gente apostou uma merreca que ele não botava o pé no teto. E o caboclo, bêbado de dar dó, insistia que conseguia. Subia pela parede como um asno ensandecido. O cara tomava distância – o quarto não era pequeno – vinha correndo, dava um galeio típico dos saltadores e escalava a parede feito uma lagartixa, ou melhor, um jegue gosmento. Ficamos uma meia hora incitando o sujeito a arremeter-se contra a parede. Até que os efeitos do álcool e das seguidas topadas derrubaram Hélio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não tenho certeza, mas acho que o sujeito, que não era nenhum nanico, chegou a tocar o teto com o pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechando o longo parênteses sobre o cara com quem Flávio dividira o quarto na pensão, voltemos aos baianos. Foi imediato o contato de Flávio com Artur e Boca. Nem bem o apresentamos e já eram os melhores amigos de infância do aparentemente taciturno Flavão. Eis que, no quarto ou quinto dia de convivência, Artur lascou-lhe um  apelido.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como cães famintos, ficávamos observando as meninas depois do almoço num dos muitos jardins próximos ao bandejão da UFV. Eram pouquíssimas que passavam pelo nosso crivo. Embora cada vez menos seletivos, eram a maioria, quase a totalidade,  tribufús.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, a ida de mulheres, ou melhor, de representantes do sexo feminino, para Viçosa foi uma indução federal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1926, o presidente Artur Bernardes fundou a universidade, então faculdade, pois para ganhar o título de universidade, a instituição tem que abrigar, no mínimo, 22 cursos superiores. E Viçosa  surgiu para ser um centro de excelência  no ensino agrícola. Ou seja , no nascedouro da então FFV (Faculdade Federal de Viçosa), a cidade só tinha homem. Imagina se em meados dos anos 20, mulher se dispunha a se formar em engenharias agronômica e florestal, medicina veterinária ou zootecnia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que fez o governo para conseguir atrair mulheres para Viçosa? Criou um curso chamado economia doméstica. Que hoje tem matérias bem úteis e interessantes no currículo. Mas quando surgiu era apenas um curso para arrumar marido para os tribufús que se dispunham a ir para o interior de Minas (sei que Minas só tem interior; neste caso, a palavra designa o oposto de centro urbano).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpem-me este novo aparte, mas tribufús é um tema forte demais. Sim, era nosso esporte preferido ficarmos jogados na grama observando as “beldades” passarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha, olha, uma saracura desdentada – chamava nossa atenção Artur diante da aparição de uma loura de farmácia, de pernas finas e sorriso escondido entre os lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Disfarça, que vem aí aquela senhora metida à gatinha. Até que dá um caldo...De maracujá, mas dá – anunciava discreto e jocoso, referindo-se a uma mulher com mais de 40 que insistia em usar óculos de gatinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando passou uma caloura, morena, nem magra nem gorda, de uma alvura ímpar. Os olhos, negros, eram profundos, e o conjunto, harmonioso.&lt;br /&gt; Como juízes a proferirem  importantes e definitivos veredictos, nos entreolhamos, e nossas expressões denotavam que achávamos a garota apenas razoável.&lt;br /&gt; Flávio adiantou-se a qualquer comentário do grupo.&lt;br /&gt; -- Cara, que gata! Num acharam não? – perguntou, mesmo já sabendo a resposta. – Parece uma princesa. Não anda, desliza...&lt;br /&gt;-- Éééé...Parece mesmo uma princesa. Só faltam os anões. A branquela é a própria Branca de Neve – ria-se Artur, diante de um furibundo Flávio, na época um moleque tímido e de rara argumentação.&lt;br /&gt;Ficamos ainda algum tempo olhando as moças que iam-e-vinham a caminho da biblioteca, em cuja sombra que estávamos há quase uma hora.&lt;br /&gt; -- Dez pras 2. Vamos para a aula de Química. Eros? Artur?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos no último ano do regime militar (1979) e os milicos ainda temiam os estudantes, suas idéias e, principalmente, sua aglutinação. Por isso, a idéia era diluir as bases estudantis. Então, misturavam-se ao máximo os alunos. Era da turma de Química I de André e Artur. Mas não tínhamos aulas em comum de Física e Cálculo, por exemplo. Artur era colega de Flávio e Boca nas aulas teóricas de biologia. E assim seguiam as turmas, retalhadas, para evitar senso comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, voltáramos às respectivas salas. Eu, André e Artur seguimos para o prédio logo atrás do refeitório.&lt;br /&gt;Flavão tinha aula no departamento de biologia, para onde foi de bicicleta, e Boca foi para a biblioteca. Só teria aula às 4 da tarde.&lt;br /&gt;Combinamos de jantar juntos lá pelas 6h. Marcamos de nos encontrar em frente ao refeitório. Quem chegasse esperava os outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguimos para a aula de Química, cuja aula era dada num imenso anfiteatro. A matéria era básica para quase todos os cursos. Mas o salão não estava cheio, não. Eu, André e Artur sentamo-nos distante do professor, umas sete arquibancadas acima. E entre meneios de cabeça e anotações, reparei que Artur sorria consigo mesmo. Peguei-o algumas vezes trepidando o corpo, como se alguém estivesse a lhe contar uma hilariante piada. André chegou a lhe perguntar o que houvera, mas Artur deu de ombros e emitiu um “depois eu conto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 10 para às 4h, acabou a aula de química. Eu segui para o prédio da biologia, onde tinha aula; André permaneceu no edifício onde estávamos. Só mudou de sala. Foi para o terceiro andar, onde assistiu a uma aula de cálculo I. Artur nada mais tinha a fazer de acadêmico naquela quarta, de modos que foi só maturando a nova galhofa enquanto encaminhava-se para o carro dele (ele e Boca tinham carro, o que os tornavam mais emancipados do que nós, meros donos de camelos e usuários de mata-sapos inter-estaduais), estacionado em frente ao refeitório. Um por um fomos chegando e juntarem-se a nós   Ricardo, um caloro de agronomia, e Serginho, veterano, quase formando que moravam na mesma pensão que os baianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentados à mesa (juntamos duass para caber todo mundo). Artur virou-se para Serginho num tom que permitia que todos na mesa escutássemos, apesar do zum-zum-zum vindo de outras conversas:&lt;br /&gt;-- Rapaz, estávamos eu, Boca, Erótico, André e Flavão olhando as mocréias que aqui polulam, hoje, depois do almoço. Os comentários de sempre. Olhe meu rei, não tinha viv’alma interessante, só baranga. Se bem que uma das fofinhas que circulam na área cativou Gordonzelo... – e ia continuar seu discurso como  se todo mundo soubesse quem era Gordonzelo, como se aquele apelido que ficara a tarde inteira remoendo não fosse sensacional.&lt;br /&gt;-- Peraí. Quem é Gordonzelo? – interrompeu Serginho, demorando a proferir a frase por conta das gargalhadas que lhe entrecortavam a fala. &lt;br /&gt;-- Ora, alguma dúvida sobre quem é o Gordonzelo?? É óbvio que é o meu companheiro aqui, o Flavão – disse Artur, apresentando Flávio, que estava do seu lado – justificando plenamente a inusitada formação na mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artur raramente sentava-se ao lado de Flávio no bandejão. Mas desta vez era conveniente. Eram dez pessoas nas duas mesas, unidas para formar um mesão. Nós três de Volta Redonda, os baianos, Sérgio e Guilherme, ambos de Niterói, Ricardo, do Rio, Norberto “Lindo olhar”, e outro Flávio,este natural de Friburgo, irmão de um músico pouco conhecido, Cecelo.&lt;br /&gt; Todos caímos na gargalhada, com a óbvia exceção do Flávio.&lt;br /&gt;Eu e o André sabíamos que aquele apelido o incomodava e não o usávamos. Mas não tenho dúvidas: foi o mais inspirado apelido que já ouvi... Gordonzelo... É a junção perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             @@@&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que quando me deparei, há dias, com Gordonzelo na memória, liguei o apelido de Flavão, erroneamente, a outro episódio. Este ocorreu já no apartamento que nós três dividíamos a partir do segundo semestre da faculdade. Também, depois das agruras que passamos na pensão/república – que não era uma coisa nem a outra – da D. Edith....&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi num fim de semana, pois estávamos os três em casa de tarde. O que era impossível de acontecer durante a semana, quando geralmente tomávamos café – vez por outra comíamos em casa – e sempre, sempre mesmo, almoçávamos e jantávamos no bandejão da universidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos chegado há pouco do almoço – sábado e domingo, invariavelmente, almoçávamos no refeitório – e costumávamos ficar batendo um rápido papo já em casa. Como o grande apartamento (três quartos, sala, uma cozinha imensa, mais dependências de empregada) não tinha nenhuma área comum habitável, cada um ficava em pé na entrada de seu quarto. O banheiro ficava entre o meu quarto e o do André; este ficava ao lado do quarto do Flávio. Estávamos conversando, já tontos de sono – era de lei uma soneca depois do almoço dos fins de semana – quando Flávio e André começaram a discutir do nada. Não me lembro a razão, mas guardo que Flávio ficara ofendido com alguma coisa. Ofendido, não. Magoado. Sei que a discussão terminou com uma frase que deixava clara a susceptibilidade de Flávio.&lt;br /&gt;-- E pode continuar a me chamar de”Mmmoostroo” que eu não ligo – disse ele, imitando a entonação que André dava ao apelido, antes de bater a porta do quarto estrondosamente.&lt;br /&gt;É ou não compreensível minha confusão de como surgira Gordonzelo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-2457895025933020519?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/2457895025933020519/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/o-apelido.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2457895025933020519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/2457895025933020519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/o-apelido.html' title='&quot;O&quot; apelido'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MG18-o8YHWY/S4Wwrv9qXSI/AAAAAAAAAAM/DiqQigV9NDE/s72-c/capucci2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-766777469832930430</id><published>2009-10-28T05:23:00.000-07:00</published><updated>2009-12-30T04:34:56.366-08:00</updated><title type='text'>Dois perdidos num porta-malas escuro</title><content type='html'>Estávamos nós, eu, Alexandre e Chico na varanda lá de casa. Um “terremoto” cujo epicentro fora no território do Aral, na Ásia, interrompera uma partida de War regada a licor de menta e “Fanfare for the commom man”, clássico de Aaron Copland, grandiloqüência progressiva típica de Emerson, Lake &amp; Palmer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Terremotos” eram comuns nas disputas de War das quais o Chico participava. Sempre que começava a perder, ele impostava a voz e iniciava a ladainha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  -- E atenção, atenção!! O maior tremor de terra de todos os tempos já teve início. O fenômeno vai atingir toda a Terra. Até países nunca antes afetados por este flagelo natural, como o Brasil, desta vez serão chacoalhados de maneira inclemente pelo movimento de placas tectônicas – dizia Chico enquanto virava de cabeça para baixo a América do Norte e misturando, de maneira irreversível, peças de diferentes cores. – Socorro! Socorro! Este prédio está ruuiinnnn........ – continuava ele, destruindo os exércitos que ocupavam o Brasil em meio a risos miúdos e debochados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim só cabiam berros de protesto e promessas de nunca voltar a jogar com ele; enquanto o Alexandre resignava-se a algumas fungadas – o que denotava um certo nervosismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim estávamos, eu e Alexandre fulos, Chico sem conter o escárnio -- jogo guardado, algumas pecinhas perdidas – na varanda, quando Enéas e André apareceram na Brasília do Capitão, pai do Enéas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partiu do André a proposta: porque não ir jogar um futsal no Funcionários? Boa idéia para aquela tarde morna de sábado.&lt;br /&gt;Mas como, se Alex e Chico não eram sócios? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Funcionários -- um clube metido a besta de Volta Redonda e que levava este nome porque nascera para a recreação de empregados um pouco mais graduados da Companhia Siderúrgica Nacional (C.S.N.) – ocupava uma imensa área verde, cujas quadras de futebol ficavam no alto de um morro. Para chegar a elas é preciso subir o morro, passando antes pela guarita do clube, onde porteiros checam se quem entra é realmente associado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que Enéas vem com uma alternativa aparentemente infalível para pôr Alexandre e Chico para dentro sem que o porteiro desconfiasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; -- Tá resolvido!! – começou ele, com uma convicção que não permitia apartes. – Chico, você e o Alexandre vão na mala do Opalão. É imensa e o porteiro do clube sequer vai desconfiar. Eu dirijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  O Opalão em questão era o carro do Seu Zé Alfredo, que o Chico frequentemente tomava do pai. Era verde-vômito, ano 1971, muito pouco rodado para seis anos de uso. Estava estacionado em frente à minha casa, na Vila, a poucos metros de onde Enéas parara a Brasília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pensei o que Chico verbalizou: uma desconfiança no Enéas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mas você num vai nos sacanear não, né? &lt;br /&gt;-- Enéas, o porta-malas é grande mas somos dois lá dentro. Olha lá... – advertiu Alexandre, resfolegando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas, com uma seriedade que não permitia desconfiança, jurou que nada faria além de atravessá-los a salvo. Alex e Chico olharam para mim e para o André em busca de fidelidade. Encontraram-na, pois em pouco tempo estávamos os cinco no Opalão rumo ao Funcionários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Rua 21 (Volta Redonda nascera planificada, as ruas eram numeradas) a poucos metros da estradinha que subia para o clube, Chico parou o carro. Ele desceu e entrou, junto com o Alexandre, no porta-malas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha o pé na minha cara, Chico  -- chamara a atenção Alexandre, enquanto se ajeitava diante de mim, Enéas e André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porta-malas fechado, a fisionomia de Enéas mudara: as feições benévolas agora davam lugar as do moleque irreverente que sempre fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ao volante do Opalão, André no banco do carona, eu atrás, Enéas pisou fundo, só diminuindo a velocidade ao cruzar o quebra-molas localizado no portão do Funcionários; o suficiente para que o porteiro identificasse nossas caras e autorizasse nossa entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando passamos, comecei a elogiar o plano do Enéas, mas sequer cheguei a completar a frase e Enéas já estava acelerando. Ele subiu o morro ziguezagueando usando as duas pistas -- a de subida e a de descida também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do fundo do porta-malas , além do barulho surdo proveniente do choque dos dois com a lataria do carro, berros e xingamentos abafados. Enéas ria a alto e bom som enquanto cantava pneu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos no estacionamento do morro e pensei que o Enéas pararia num canto qualquer para que os dois saíssem, ele contornou os carros estacionados e desceu em velocidade o morro, no mesmo ziguezague da subida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que não estava entendendo nada até o Enéas parar pouco aquém do quebra-molas, descer do Opala quase se vergando de tanto rir e ir     até o porteiro:&lt;br /&gt; -- Maurílio, vem cá!! Olha só quem estava tentando entrar de penetra!! – disse, enquanto abria o porta-malas.&lt;br /&gt; Chico foi o primeiro a sair e diante do porteiro percebeu que Enéas o enganara.&lt;br /&gt; -- Caralho! Putaria isso, Enéas – xingava Chico, ainda aturdido com os muitos encontrões que dera em Alexandre.&lt;br /&gt;Alex foi mais direto:&lt;br /&gt;  -- Enéas, você é um grande fila da puta!!!&lt;br /&gt;Assistindo a cena, Maurílio ria de se fartar e não se importava mais com a entrada dos dois clandestinos. Mas aí já era tarde: putos dentro da roupa, Alex e Chico foram para casa – eram vizinhos no Aterrado, bairro não muito distante da Vila Santa Cecília; eu, Enéas e André voltamos a pé para a 27, minha rua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-766777469832930430?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/766777469832930430/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/blog-post.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/766777469832930430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/766777469832930430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/blog-post.html' title='Dois perdidos num porta-malas escuro'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-467569748977906492.post-3981761583452390141</id><published>2009-10-27T17:21:00.000-07:00</published><updated>2009-11-22T10:26:22.727-08:00</updated><title type='text'>entre e fique à vontade.</title><content type='html'>Infância é que nem bunda: todo mundo tem a sua. O tempo é este mesmo: presente do indicativo. Porque infância e adolescência – tempos remotos para um cara beirando os 50 – resistem, quase que intactas, no nosso inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, então infância e adolescência são infância e adolescência em qualquer lugar do mundo. Com óbvias diferenças, é claro. A Volta Redonda que me viu moleque não existe mais. Porém, resiste nas minhas lembranças, assim como Viçosa, onde estudei por três anos, como lerão. Ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comentei sobre a idéia de escrever um blog sobre tempos imemoriais, um amigo meu ponderou sabiamente que a internet serve para falar, no mínimo, do presente. Realmente, só existem crônicas do hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas querem saber? Não me importa o quão velhuscos sejam meus textos. Importa é que são parte de mim. E no momento, mais pela restrita convivência social do que por nostalgia, resolvi jogar palavras na rede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os textos são testemunhos de episódios que envolvem outras pessoas. Acho que são mais/só palatáveis para quem conhece os personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fiquem inteiramente à vontade para fechar a página antes que termine o parágrafo. “Quanto mais estímulos, menor a percepção”, costuma citar, muito pertinentemente, Kelly, uma de minhas fisioterapeutas, sem negar crédito à fonte original. Entendo perfeitamente quem sequer tenha saco para abrir o e-mail em que convido o povo para dar uma olhadela no blog. Bom, é isso. Se comentarem, legal, respondo a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijos e queijos pra todo mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/467569748977906492-3981761583452390141?l=eros-memorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eros-memorias.blogspot.com/feeds/3981761583452390141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/entre-e-fique-vontade.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3981761583452390141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/467569748977906492/posts/default/3981761583452390141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eros-memorias.blogspot.com/2009/10/entre-e-fique-vontade.html' title='entre e fique à vontade.'/><author><name>Eros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15417738824717089934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry></feed>
