Isso aconteceu ainda na fase “porra louca” de meu pai, quando minha mãe ainda era viva. Não sei o ano; sequer garanto a década. Vou ser o mais preciso possível: foi entre 1975 e 1983, respectivamente, o ano seguinte à fratura da perna direita de d. Leonor e o ano da morte dela.
Minha irmã Nora “encontrou casualmente” meu pai no bairro do Aterrado, num bar em frente à delegacia. Isso a uns cinco quilômetros de casa, uma ida de ônibus da Vila ao lá e às 11 da noite. Mas Norinha o convenceu de que estava na casa de uma amiga. Voltava para a Vila quando passando em frente ao botequim que meu pai freqüentava, divisou-o numa mesa junto a velhos e novos amigos de bar.
- Oi, pai - apressou-se ela a cumprimentar o Celinho, antes que algum daqueles vira-latas que o acompanhavam mexesse com ela.
Livre do constrangimento que um gracejo poderia desencadear, Norinha sapecou dois beijos nas faces semi-barbeadas do pai e continuou:
-- Eu estava na casa de uma amiga, a Dilma, quando passei em frente ao bar e vi o senhor. Aí, pensei: “vou esperar ele acabar o papo e pegar uma carona com o Celinho”.
Tão logo ela chegou, fez-se silêncio na mesa e um velho conhecido de meu pai – não posso chamar aqueles trastes de amigos – até cumprimentou-a.
--E aí, Eleonorinha. Acompanhando o pai? Cadê o cavaquinho, Celinho? Busca ele no carro, vai – disse Hamilton, o único daquela corja que não tinha interesse em jogo com meu pai.
Celinho odiava quando chamavam o bandolim dele de cavaquinho. Para ele era uma depreciação. Não tanto, embora também, pelo diminutivo; mais pela completa ignorância musical de quem confundia os instrumentos.
Mas foi minha irmã que gelou diante da possibilidade de ter que acompanhar o pai,numa quinta-feira, saindo sabe-se lá que horas do boteco. O dia começava cedo para ela na Cobrapi, uma empresa que prestava serviços à C.S.N.
Mas indiferente ao pedido de Hamilton, farmacêutico do hospital da companhia, e da troca indesejável de seu bandolim pelo cavaquinho, Celinho pediu ao garçom “a dolorosa”, isto é, a conta. Pagou aquela montanha de cervejas e pratos de aperitivos, consumidos por ele e mais sete camaradas, que falsamente e sem qualquer convicção protestaram diante do pronto pagamento.
E foi-se embora com a Norinha, despedindo-se apenas de um – o Hamilton – e outro. Na verdade, ele conhecia bem seu séquito de aduladores.
Logo que entraram no fusca – meu pai teve vários fuscas – 1.300 cilindradas, branco, minha irmã notou que não seria tarefa das mais tranqüilas chegarem sãos e salvos em casa. Saindo da frente do botequim, onde tinha estacionado, meu pai quase bateu num TL que vinha em sentido contrário.
Mas Norinha tinha know-how em viver perigosamente, tantas vezes no banco de carona com meu pai dirigindo alcoolizado. Ainda bem que embora em outro bairro, o caminho até minha casa era uma enorme reta. Mesmo assim, antes do meio do percurso -- a rodoviária da cidade – meu pai acelerou demais da conta e só parou quando ficou engastalhado num guard-rail que dividia as pistas e o pneu dianteiro direito furou. Graças a Deus, o baque e o esporro foram maiores do que os estragos: meu pai e Norinha saíram do carro ilesos.
¬-- Tudo bem, Nora? – tratou de certificar-se o que a aparência de minha irmã denotava, apenas susto.
-- Hã, hã...E com o senhor, tudo tranquilo? –respondeu e perguntou Norinha.
Sim,estava tudo normal. Minha irmã soube disso tão logo Celinho exclamou, com voz pastosa:
-- Puta que pariu! Como é que deixam esta bosta no meio da pista? Alguém tinha que bater!
Caraca!! O cara estava maldizendo o guard-rail que separava as pistas. É bem verdade que já estava todo destroçado mesmo antes de meu pai passar por cima dele. Mas se não fossem os restos do obstáculo, o fusca atravessaria para o outro lado, só parando num veículo vindo em sentido contrário ou num muro chapiscado do outro lado. Os destroços da divisória haviam salvado os dois.
Continuou com a cantilena alterada pelas cervejas muito além do razoável:
-- E agura? Estamos fodidos e mal pagos. Já passam de 11 da noite e vai ser ruim a gente conseguir ajuda.
Nora estranhou a fala recheada de palavrões. Não que o Celinho não os usasse. Falava, e muito!! Era um senhor boca-suja!! Mas aqueles palavrões nada tinham do tom irreverente do meu pai. Mas Norinha creditou o timbre áspero ao grau etílico em que nosso pai se encontrava.
Celinho tomou coragem para ver o estrago no valente fusquinha. Aproximando-se do parachoques dianteiro e constatou que os únicos danos foram o pneu direto furado e algumas avarias na lataria dos dois paralamas, mas isso é o que mais tinha no fusquinha, agredido que era todo dia pelo Celinho.
-- Vamos ver se funciona – disse o pai para Nora, enquanto virava a chave, com o carro em ponto morto. O fusquinha deu sinal de vida quando Celinho acelerou, fazendo esporro.
-- Acho que foi só o pneu furado – disse Celinho, sem descer do carro.
Manobrou o fusca, livrando-o dos destroços do guard-rail, desceu e retirou o estepe – careca que só – do capô dianteiro. Começou a desaparafusar o pneu, mas pela sucessão de palavrões proferidos, não estava logrando êxito.
Nisso, minha irmã vê dois sujeitos se aproximando do meio da pista, onde ela e Celinho – naquele momento brigando com o f%$#@ do pneu e aquela p%$#@ de chave de boca – estavam. Um negão, imenso, com cara de poucos amigos, e outro de cabelos castanhos-claro, quase louro, barba agreste por fazer.
Se estivesse falando, como era seu costume, Norinha teria se calado. Na falta de assunto, só alertou o pai, temerosa de que saqueadores tivessem descoberto a diligência avariada.
- Pai, pai - disse, aproximando-se do Celinho, que se contorcia em força inútil contra aqueles parafusos do c%$#@.
Sem tirar os olhos dos recém-chegados, ouviu do negão-armário:
- Boa noite! Cês estão precisando de ajuda?
Celinho, que apesar das ardvertências da Nora, só agora se deva conta de que não estavam mais sozinhos, não mediu palavras:
- Claro que não, Pedro Bó (antigo personagem de um programa do Chico Anísio, consagrado por só fazer perguntas óbvias) – disse Celinho, que à voz pastosa e ao bafo de cerveja, juntara suor farto e inglório na tentativa de trocar o pneu. - Tá f%$#@...
O negão, com cara de poucos amigos, abriu um sorriso e disse, inclinando-se para o lourinho:
-- Ta tranquilo. Deixa com a gente – disse, tomando das mãos do pai (ia empregando “meu” pai, esquecendo que quem co-protagonizou o episódio foi a Nora) a chave de boca imunda.
Os caras eram operários do alto-forno da Companhia. E entravam à meia-noite. Moravam ali perto, eram vizinhos e estavam indo para o trabalho, quando os viram em dificuldades.
Os parafusos estavam bem arrochados. O negão teve que fazer careta para conseguir afrouxá-los.
E enquanto os dois davam o maior duro, Celinho olha o relógio (um Eternamatic, com ponteiros verdes e discretos, fundo escuro e pulseira metálica. Lembro-me do relógio como se o tivesse visto ontem!!) e começou a resmungar:
- Puta que o pariu! Dois sujeitos grandes e a maior demora para trocar um mísero pneu!
Celinho não falava alto, mas também não escondia sua irritação. Norinha, envergonhada com a ingratidão do pai, era muito atenciosa; perguntava coisas desinteressantes, tals como era trabalhar no turno de meia-noite às 8h e qual era a função de um soldador, profissão do negão, chamado Cosme.
Pouco depois, Celinho dava nítidas mostras de sua impaciência. Ora chutava o ar, ora falava para os caras escutarem mesmo:
- Caralho, se fosse eu, trocaria esta merda de pneu em cinco minutos.Estes “bostas n’água” (um dos muitos xingamentos peculiares que ele adorava usar) estão demorando um século para botar este estepe!
Os caras pareciam compreender o estado de meu pai, tanto que terminado o trabalho, botaram o pneu furado junto com a chave de boca no capô, bateram o mesmo e sorrindo, Cosme – que de poucos amigos só tinha a cara – ao fim da “eternidade” segundo o meu pai, 11 minutos em qualquer relógio, despediu-se:
-- Prontinho. Ta trocado.
Ao que Celinho, gesticulando para o alto, retrucou;
-- Até que enfim. Já não era sem tempo.
E continuou, apressado e zombeteiro:
-- Vamos, vamos! Entra no carro, Norinha E vocês, Cosme e – o loirinho não se apresentou e Celinho não podia perder o gracejo – Damião, eu deixo vocês na entrada da Usina perto da Vila.
--Não precisa não, doutor Célio – disse o lourinho, mostrando que além de reconhecê-lo, sabia que ele era advogado e adorava o título. - E o meu nome não é Damião, é Lincoln. Sou filho do Seu Alberto, da peixaria da Rua Amaral Peixoto. O senhor salvou a vida dele, quando ele teve um ataque cardíaco e o internou, no peito e na marra, no hospital da C.S.N.. Meu pai vai ficar muito contente ao saber que eu ajudei, ainda que um tiquinho só, o senhor. Bem, boa noite e vão com Deus.
Dizendo isso, Lincoln e Cosme, que também se despedira, tomaram o rumo da Companhia.
Celinho permaneceu estático alguns segundos no volante do carro. Norinha sorriu seu sorriso mais saboroso.
O pai e a Nora chegaram em casa cinco minutos mais tarde sem atropelos e sem trocarem palavra.
,
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Lagartixa em Ipanema 4.4.
Chega de tergiversar. Vamos voltar ao cerne da história.
Diante de nossa cara de espanto com o que acabara de nos contar – a expulsão dele e da mãe do morro – Lagartixa continuou seu discurso falacioso:
-- Achei que minha mãe estaria aqui. Quando penso nela subindo o morro...
Ele sabia que a mãe só trabalhava lá em casa às terças. Porque diabos ela estaria sábado à noite lá no apartamento? E como ele conseguira as chaves da porta dos fundos do apartamento?
Eram estas algumas das perguntas óbvias que devíamos ter-lhe feito, mas, nós (eu e Dudu) nos compadessemos daquele pobre diabo.
O cara ainda mentiu sobre seu estado – mais obviamente etílico e drogado, impossível.
-- Eu tombei quando forcei a porta porque estou nervoso e fraco. Só comi um pão com manteiga e um café preto hoje de manhã. E minha mãe, onde estará? – perguntava Lagartixa, já sabendo a resposta.
Fui até o telefone e liguei para a casa do Faria. Ele atendeu, falara rapidinho com ele e pedira que me chamasse a Anita.
--Alô, Anita? Tudo, tudo. Tranqüilo. É que o Lagar..., o Gilmar vai falar com você. Beijos.
Ouvimos o cascatol repetido ao telefone com Anita. Segundo o próprio Lagartixa nos disse, tão logo desligara o telefone, que a mãe chorara ao saber dos riscos que tornara uma volta à casa impossível.
Ao contar o desespero da mãe, Gilmar, sinceramente, chorou.
-- Sou um infeliz. Só faço besteira – disse, soluçando, enquanto lágrimas percorriam as faces e um ranho descia fino pelo nariz.
Eu só disse um “Que é isso, Gilmar?! Besteira o que você está falando.”
Dudu foi mais expansivo. Não ligou para o jeito maltrapilho nem para a sujeira no rosto do Lagartixa, dando-lhe um forte abraço.
-- Que infeliz o quê. Bola pra frente, Gilmar. Só tomou café e comeu pão com manteiga de manhã? Então deve estar varado de fome! Eu estava exatamente indo fazer alguma coisa para comer quando você “chegou” – disse um entusiasmado Dudu, instantaneamente transformado num chef de cozinha diante de um gourmet do porte do Lagartixa.
Eu desisti do sanduba no MasDonald’s, fiz um misto frio e tomei uma coca na sala diante da TV.
Quando cheguei na cozinha para lavar copo e pires, cheguei no exato momento Cordon Bleu do Dudu; na hora em que ele quebrava um, depois um segundo ovo sobre aquele mix azedo.
-- Chegou na hora, Eritos. Pega um prato e vem comer também –convidou-me Dudu.
-- Brigadão, Dudu. Acabei de comer um sanduíche. Vou ler um pouquinho e dormir. Boa noite, Dudu. Boa noite, Gilmar – disse, indo para o quarto..
Na manhã seguinte, passei pela sala, onde Dudu dormia sempre que tinha pooca gente no apartamento. Já esperava encontrá-lo ali.
Não esperava era encontrar o Lagartixa morgadão, metade do corpo para fora do quartinho. Quando me veio à lembrança aquele pequeno sauro pronto para saborear aquela desgraça preparada pelo Dudu. “Pronto. Empacotou. Meteu o nariz no pó e depois comera aquele mix do Dudu...”
Mas nem tinha aberto a geladeira para pegar leite para o café e eis que escuto logo atrás de mim.
-- Bom dia, seu Eres. Bati aquele rango que o seu Eduardo preparou e dormi feito pedra. Posso dar uma ligadinha para a minha mãe? –- cumprimentou ele, que insistia no seu antes dos nossos nomes (o meu invariavelmente pronunciado erradamente).
-- Bom dia, Lagartixa – aturdido com sua pronta recuperação (esperava, ao menos, uma senhora caganeira), chamei-o pelo apelido.
Ele não reparou ou fingiu que não ouviu.
Aí, lembrei-me que, além de tudo, Anita era mãe de Santo, macumbeira – nenhum preconceito quanto a isso, meus pais também eram.
De certo fechara o corpo de Lagartixa.
Diante de nossa cara de espanto com o que acabara de nos contar – a expulsão dele e da mãe do morro – Lagartixa continuou seu discurso falacioso:
-- Achei que minha mãe estaria aqui. Quando penso nela subindo o morro...
Ele sabia que a mãe só trabalhava lá em casa às terças. Porque diabos ela estaria sábado à noite lá no apartamento? E como ele conseguira as chaves da porta dos fundos do apartamento?
Eram estas algumas das perguntas óbvias que devíamos ter-lhe feito, mas, nós (eu e Dudu) nos compadessemos daquele pobre diabo.
O cara ainda mentiu sobre seu estado – mais obviamente etílico e drogado, impossível.
-- Eu tombei quando forcei a porta porque estou nervoso e fraco. Só comi um pão com manteiga e um café preto hoje de manhã. E minha mãe, onde estará? – perguntava Lagartixa, já sabendo a resposta.
Fui até o telefone e liguei para a casa do Faria. Ele atendeu, falara rapidinho com ele e pedira que me chamasse a Anita.
--Alô, Anita? Tudo, tudo. Tranqüilo. É que o Lagar..., o Gilmar vai falar com você. Beijos.
Ouvimos o cascatol repetido ao telefone com Anita. Segundo o próprio Lagartixa nos disse, tão logo desligara o telefone, que a mãe chorara ao saber dos riscos que tornara uma volta à casa impossível.
Ao contar o desespero da mãe, Gilmar, sinceramente, chorou.
-- Sou um infeliz. Só faço besteira – disse, soluçando, enquanto lágrimas percorriam as faces e um ranho descia fino pelo nariz.
Eu só disse um “Que é isso, Gilmar?! Besteira o que você está falando.”
Dudu foi mais expansivo. Não ligou para o jeito maltrapilho nem para a sujeira no rosto do Lagartixa, dando-lhe um forte abraço.
-- Que infeliz o quê. Bola pra frente, Gilmar. Só tomou café e comeu pão com manteiga de manhã? Então deve estar varado de fome! Eu estava exatamente indo fazer alguma coisa para comer quando você “chegou” – disse um entusiasmado Dudu, instantaneamente transformado num chef de cozinha diante de um gourmet do porte do Lagartixa.
Eu desisti do sanduba no MasDonald’s, fiz um misto frio e tomei uma coca na sala diante da TV.
Quando cheguei na cozinha para lavar copo e pires, cheguei no exato momento Cordon Bleu do Dudu; na hora em que ele quebrava um, depois um segundo ovo sobre aquele mix azedo.
-- Chegou na hora, Eritos. Pega um prato e vem comer também –convidou-me Dudu.
-- Brigadão, Dudu. Acabei de comer um sanduíche. Vou ler um pouquinho e dormir. Boa noite, Dudu. Boa noite, Gilmar – disse, indo para o quarto..
Na manhã seguinte, passei pela sala, onde Dudu dormia sempre que tinha pooca gente no apartamento. Já esperava encontrá-lo ali.
Não esperava era encontrar o Lagartixa morgadão, metade do corpo para fora do quartinho. Quando me veio à lembrança aquele pequeno sauro pronto para saborear aquela desgraça preparada pelo Dudu. “Pronto. Empacotou. Meteu o nariz no pó e depois comera aquele mix do Dudu...”
Mas nem tinha aberto a geladeira para pegar leite para o café e eis que escuto logo atrás de mim.
-- Bom dia, seu Eres. Bati aquele rango que o seu Eduardo preparou e dormi feito pedra. Posso dar uma ligadinha para a minha mãe? –- cumprimentou ele, que insistia no seu antes dos nossos nomes (o meu invariavelmente pronunciado erradamente).
-- Bom dia, Lagartixa – aturdido com sua pronta recuperação (esperava, ao menos, uma senhora caganeira), chamei-o pelo apelido.
Ele não reparou ou fingiu que não ouviu.
Aí, lembrei-me que, além de tudo, Anita era mãe de Santo, macumbeira – nenhum preconceito quanto a isso, meus pais também eram.
De certo fechara o corpo de Lagartixa.
Lagartixa em Ipanema 3.4
Não sem antes dar-nos uma notícia bombástica. Relevante para nós, por conta da Anita, pois para o Lagartixa,
a gente tava pouco se lixando.
-- Nós fomos expulsos do morro – proferiu o sujeito, quando conseguiu balbuciar alguma coisa que fazia sentido. – Não sei o que houve. Estava subindo o Cantagalo, voltando de um bico de pedreiro num apartamento na Barão da Torre, quando o chefe do tráfico do morro, um negão imenso, o Tolete, e mais uns quatro armados até os dentes, me impediram que eu entrasse em casa. Acho que decidiram tomar o barraco por causa da vista.
Eu e Dudu nos entreolhamos. Eram notórias a ingerência e a desfaçatez do tráfico em qualquer morro do Rio de Janeiro. Os caras barbarizam moradores em luta contra a polícia e usam a população das favelas como massa de manobra. Como o Estado só sobe o morro para vandalizar e matar com sua polícia corrupta, os traficantes adotam uma função assistencialista. Pagam tratamento de saúde, compram remédios, bancam festa de debutante.... Acabam ganhando a simpatia de muitos moradores, o que lhe é muito conveniente na hora do pega para capar, quando os policiais sobem o morro.
Mas conhecendo a fama de Gilmar, era óbvio que aquela história era cascata!
Era bem mais provável que ele pegou pó para revender e não pagara ao cara do tráfico. A ficha de antecedentes, agravada pela voz oscilante e por aquele olhar 220 volts, nos dizia que ainda havia resquícios de pó do “banho” que dera no traficante na nareba do Lagartixa.
Pobre Anita, pensava eu, enquanto ouvia a versão mentirosa de Gilmar. Ainda bem que ela era idolatrada por muitos. Não teria dificuldade para encontrar um pouso. Só teria que se desfazer daquele traste do filho, um marmanjo de uns 35 anos que nada fazia, além de constranger a mãe.
Soubemos que ela ficou morando um tempo no apartamento do Touro, até se mudar definitivamente para a casa do Faria, quando o irmão se casou e mudou para outro apê com a mulher. O Lagartixa ficou na pista, ou melhor, foi morar na Baixada Fluminense, com uma tia, acho que em Belford Roxo. Faria não quis saber dele morando consigo.
A versão do Lagartixa, como suspeitávamos, era mentira. Ele sequer subiu o morro depois de ter dado um “banho” no Cocô Parrudo, ou melhor, no Tolete, o traficante local.
Um vizinho o avisara no asfalto que ele, Lagartixai, estava jurado de morte e o tráfico tinha invadido a casa onde vivia com Anita e tinha posto fogo em tudo que encontraram pela frente: cama, colchão, mesa, roupas, tudo.
Quem contou isso pra gente foi o Faria, pelo que conseguira filtrar da Anita, que como toda mãe, zelava irracionalmente pela reputação do filho.
A versão de Anita era muito mais amena e favorável ao Lagartixa. Ela estava sempre pronta a perdoar e minimizar os erros do filho. a quem sempre passava a mão na cabeça. E era comum lamentar a falta de sorte de Gilmar, “que nunca tinha tido oportunidade na vida”.
a gente tava pouco se lixando.
-- Nós fomos expulsos do morro – proferiu o sujeito, quando conseguiu balbuciar alguma coisa que fazia sentido. – Não sei o que houve. Estava subindo o Cantagalo, voltando de um bico de pedreiro num apartamento na Barão da Torre, quando o chefe do tráfico do morro, um negão imenso, o Tolete, e mais uns quatro armados até os dentes, me impediram que eu entrasse em casa. Acho que decidiram tomar o barraco por causa da vista.
Eu e Dudu nos entreolhamos. Eram notórias a ingerência e a desfaçatez do tráfico em qualquer morro do Rio de Janeiro. Os caras barbarizam moradores em luta contra a polícia e usam a população das favelas como massa de manobra. Como o Estado só sobe o morro para vandalizar e matar com sua polícia corrupta, os traficantes adotam uma função assistencialista. Pagam tratamento de saúde, compram remédios, bancam festa de debutante.... Acabam ganhando a simpatia de muitos moradores, o que lhe é muito conveniente na hora do pega para capar, quando os policiais sobem o morro.
Mas conhecendo a fama de Gilmar, era óbvio que aquela história era cascata!
Era bem mais provável que ele pegou pó para revender e não pagara ao cara do tráfico. A ficha de antecedentes, agravada pela voz oscilante e por aquele olhar 220 volts, nos dizia que ainda havia resquícios de pó do “banho” que dera no traficante na nareba do Lagartixa.
Pobre Anita, pensava eu, enquanto ouvia a versão mentirosa de Gilmar. Ainda bem que ela era idolatrada por muitos. Não teria dificuldade para encontrar um pouso. Só teria que se desfazer daquele traste do filho, um marmanjo de uns 35 anos que nada fazia, além de constranger a mãe.
Soubemos que ela ficou morando um tempo no apartamento do Touro, até se mudar definitivamente para a casa do Faria, quando o irmão se casou e mudou para outro apê com a mulher. O Lagartixa ficou na pista, ou melhor, foi morar na Baixada Fluminense, com uma tia, acho que em Belford Roxo. Faria não quis saber dele morando consigo.
A versão do Lagartixa, como suspeitávamos, era mentira. Ele sequer subiu o morro depois de ter dado um “banho” no Cocô Parrudo, ou melhor, no Tolete, o traficante local.
Um vizinho o avisara no asfalto que ele, Lagartixai, estava jurado de morte e o tráfico tinha invadido a casa onde vivia com Anita e tinha posto fogo em tudo que encontraram pela frente: cama, colchão, mesa, roupas, tudo.
Quem contou isso pra gente foi o Faria, pelo que conseguira filtrar da Anita, que como toda mãe, zelava irracionalmente pela reputação do filho.
A versão de Anita era muito mais amena e favorável ao Lagartixa. Ela estava sempre pronta a perdoar e minimizar os erros do filho. a quem sempre passava a mão na cabeça. E era comum lamentar a falta de sorte de Gilmar, “que nunca tinha tido oportunidade na vida”.
Lagartixa em Ipanema 2.4
Nossa faxineira, mãe do Gilmar, era algo. Negra retinta, devia beirar os 60 anos de idade. Sabe a mãe da “Fran”, “da Família Dinossauro”? Sogra do “Dino” “querida-cheguei”? Pois era a Anita, inclusive nos óculos, no quebradiço da pele – esticada e gasta pelo tempo, só pelo tempo -- e na estatura. Era magra que só e tinha uma vitalidade incomum.
Anita era extremamente batalhadora, gente boníssima, tava sempre de alto astral apesar dos perrengues que passava. Muitos dos dissabores tinham uma única fonte: Gilmar ou Lagartixa, como era conhecido nas internas – internas do nosso apartamento. O cara mais parecia uma iguana, um ser meio ancestral desses que habitam Galapágos. A ilha, no Pacífico equatoriano, foi crucial para Charles Darwin desenvolver sua teoria do Evolucionismo.
Anita era faxineira de Touro e Cozido. Touro era um cara de Barra Mansa, que se tornara o melhor amigo de Cozido ou Faria, companheiro nosso de velhos tempos – estudei com Luís Henrique Faria Marques, na 3ª série primária do Nossa Senhora de Fátima. Era uma escola de madeira que ficava na rua 40 quase esquina com 41, vizinha ao Poeirinha, como era chamado um antigo cinema da Vila. Ambos não emplacaram os anos 80. Foram destruídos. Hoje, um shopping ocupa o espaço onde outrora existia o cineminha e a escola.
Além de gente boa, Anita era bom papo, antenada. E aos 60 anos tinha fôlego de causar inveja em muito garotão: fumava maconha como gente grande e não dava qualquer bandeira, mesmo depois de consumir uma tora.
Mas diferentemente do pessoal de Barra Mansa que morava com o Touro, o próprio e o Faria, que dividia o apartamento da família com o irmão mais velho, nós não a entronizamos como pitonisa. Menos que pelo seu potencial de xamã – eram vastas e invejáveis suas sabedoria popular e tranquilidade diante das adversidades da vida – mais pela intensa rotatividade da nossa república. Nos três anos em que morei lá, nada menos do que 12 pessoas se revezaram no apartamento de dois quartos na Farme de Amoedo, quase esquina com Alberto de Campos. Assim era impossível canonizar alguém, mas beatificada por nós, Anita era.
Nunca dormiu lá em casa, o quartinho da área não tinha espaço para uma cama. Havia um móvel que ocupava metade do quarto e um monte de tralhas que deixávamos lá.
Pois naquela noite de sábado em que só eu e Dudu estávamos no apartamento, quem dormiria no quartinho, largado no chão, em cima de uns edredons foi o Lagartixa.
Anita era extremamente batalhadora, gente boníssima, tava sempre de alto astral apesar dos perrengues que passava. Muitos dos dissabores tinham uma única fonte: Gilmar ou Lagartixa, como era conhecido nas internas – internas do nosso apartamento. O cara mais parecia uma iguana, um ser meio ancestral desses que habitam Galapágos. A ilha, no Pacífico equatoriano, foi crucial para Charles Darwin desenvolver sua teoria do Evolucionismo.
Anita era faxineira de Touro e Cozido. Touro era um cara de Barra Mansa, que se tornara o melhor amigo de Cozido ou Faria, companheiro nosso de velhos tempos – estudei com Luís Henrique Faria Marques, na 3ª série primária do Nossa Senhora de Fátima. Era uma escola de madeira que ficava na rua 40 quase esquina com 41, vizinha ao Poeirinha, como era chamado um antigo cinema da Vila. Ambos não emplacaram os anos 80. Foram destruídos. Hoje, um shopping ocupa o espaço onde outrora existia o cineminha e a escola.
Além de gente boa, Anita era bom papo, antenada. E aos 60 anos tinha fôlego de causar inveja em muito garotão: fumava maconha como gente grande e não dava qualquer bandeira, mesmo depois de consumir uma tora.
Mas diferentemente do pessoal de Barra Mansa que morava com o Touro, o próprio e o Faria, que dividia o apartamento da família com o irmão mais velho, nós não a entronizamos como pitonisa. Menos que pelo seu potencial de xamã – eram vastas e invejáveis suas sabedoria popular e tranquilidade diante das adversidades da vida – mais pela intensa rotatividade da nossa república. Nos três anos em que morei lá, nada menos do que 12 pessoas se revezaram no apartamento de dois quartos na Farme de Amoedo, quase esquina com Alberto de Campos. Assim era impossível canonizar alguém, mas beatificada por nós, Anita era.
Nunca dormiu lá em casa, o quartinho da área não tinha espaço para uma cama. Havia um móvel que ocupava metade do quarto e um monte de tralhas que deixávamos lá.
Pois naquela noite de sábado em que só eu e Dudu estávamos no apartamento, quem dormiria no quartinho, largado no chão, em cima de uns edredons foi o Lagartixa.
Lagartixa em Ipanema 1.4
Era 1984 e embora curtido por três anos na Universidade Federal de Viçosa – anos perdidos em termos acadêmicos, mas de grande valia pessoal – mantinha o fôlego de universitário.
Estava no 3º ano de jornalismo na FACHA, uma faculdade em Botafogo. Dividia o apartamento em Ipanema, na Farme de Amoedo, com ...Caraca! Foi tanta gente que passou por lá que não estou bem certo de quem morava lá na época. Bem, acho que Dudu, Rogério, Tasso e Enéas dividiam o apartamento comigo na época.
Mas neste episódio bastava citar o Dudu. Irmão mais novo do Enéas, eu o conhecia desde molequinho mesmo, quando ele tinha 5, 6 anos. Era completamente diferente do irmão, meu grande amigo, com quem eu estudara os três últimos anos no colégio. Chegara ao Rio um ano antes para cursar engenharia na Santa Úrsula, faculdade vizinha ao Palácio Guanabara, em Botafogo e morava com o Diano, amigo de infância dos tempos de rua 40.
Só que, indecisão em pessoa, Dudu desistiu de engenharia e, no ano seguinte, fizera vestibular para duas faculdades diametralmente opostas: arquitetura, na UFRJ, e jornalismo, na PUC. Levou, acho que por ano e meio, as duas faculdades; uma no Fundão, Iha do Governador, outra na Gávea. Simultaneamente a esta maratona, mudou-se para a república do irmão.
Enéas, seis anos mais velho, já há muito tinha traçado seu caminho. Seu pensamento exato, sua precisão, seu pragmatismo o levaram até a engenharia mecânica, primeiro na UCP, em Petrópolis, depois na PUC do Rio. Era seu último ano na faculdade.
Achava Dudu bem parecido comigo. Era hesitante, questionava tudo, era sensível (SENSÍVEL, nada a ver com boiola, mané).
Acho que optara pelo jornalismo um pouco por influência minha... Gostaa do moleque como se fosse meu irmão caçula (eu tinha 23; ele, 18 anos, e nesta época da vida, fim da adolescência, cinco anos davam-me alguma experiência a mais). Havia uma diferença gritante entre nós dois, porém: enquanto Dudu era “pegador” – ficava com as meninas mais cotadas – eu era um fiasco com meninas, cotadas ou não.
Lembro-me bem da chegada do Dudu ao apartamento de Ipanema. Foi num fim de tarde de domingo, no início de março, véspera do primeiro dia de faculdade. Dudu aportara de mala e cuia.
Assim como o Enéas, era bagunceiro toda a vida. E logo na chegada, dera mostra de seu desmazelo, deixando a mala de roupas no chão da sala. Depois de uma breve recepção de boas-vindas, protagonizada por eu e Rogério – os únicos no apartamento àquela hora.
Mais de uma hora se passara e a mala de roupas continuava na sala. Só que agora estava aberta; Dudu havia tirado uma toalha e tomado uma ducha. Aquela hora, todos ao moradores do apartamento estavam por lá. Estávamos todos na sala, quando Dudu foi pendurar sua toalha no boxe do banheiro.
-- Vamos ver o que este moleque trouxe de casa...— disse Enéas, enquanto vasculhava a bolsa do irmão.
Ele foi muito rápido. Jogou todas as roupas no chão. Caíram meias, cuecas, shortes, calças, camisas e por último, para desespero de Dudu, que tinha retornado à sala, uma bíblia.
Enéas foi fundo no escárnio.
-- Olha só, Uma bíblia. Sinto, Dudu, mas isso não vai te ajudar, na faculdade de arquitetura não. Talvez na de jornalismo... – zombou Enéas, narigão vermelho de tanto rir.
Rogério e Tasso acharam graça. Dudu apressou-se em tomar o livro das mãos do Enéas:
-- Imbecil, babaca – disparou Dudu para o irmão, que agora se regojizava da descoberta, que rendeu pelo menos uma semana de zoação para o Enéas em cima do irmão mais novo.
Dudu era fissurado numa gororoba chamada mexido. Consistia num mixer de sobras jogados numa frigideira, misturados. Ia à mesa como gosma, e o cara que comia só continuava vivo se Deus estivesse mesmo muito empenhado. Mas Dudu não só sobrevivia àqueles guisados de sobras como exultava quando encarava a solene missão de recolher restolhos na geladeira e transformá-los numa gororroba incomum.
Naquele fim de semana, eu e Dudu não subimos para Volta Redonda – por motivos distintos. Ele, a pretexto de estudar; eu combinei de sair com amigos da faculdade.
Pois sábado à noite, estávamos os dois em casa, assistindo TV. Dudu estudou a tarde e parte da noite. Eu fora na primeira sessão do cinema Veneza, em Botafogo (lembram-se?).
Acabou o Jornal Nacional e Dudu migrara, rápido, para a cozinha.
-- Erão, vou preparar um mexido. Vamos nessa? – ofereceu, berrando da cozinha para a sala.
-- Tô fora, odeio isso. Você junta todas as porcarias que encontra na geladeira...Argh, que nojo! Prefiro um MacDonalds. Quer ir não? — respondi, engatando um capítulo da novela.
Dudu investigava a geladeira. Um resto de feijão feito na terça anterior, um tanto de arroz, um cadinho de purê de batata, uma espécie de picadinho. Depois de tudo mexido, qual argamassa de cimento, Ulalá!!! Um ovo estrelado por cima! Um senhor bate e entope!
Foi quando ele reparou que a porta dos fundos estava semi-aberta. Dudu apressou em fechar e...
-- Eritos, corre aqui!!! – berrou Dudu da porta dos fundos.
Quando cheguei, Dudu estava estapeando, devagarzinho, um desmaiado Lagartixa, que era como nós chamávamos o filho da Anita, nossa faxineira.
-- Gilmar, acorda, Gilmar! – sacudia Dudu um inerte Lagartixa. -– Eritos, me arruma um pouco d’água.
Lagartixa, um sujeito magro, preto e baixo, jazia junto à porta. Ele desfaleceu quando conseguira abri-la. Ou seja, quando a resistência da porta cedeu, ele desabou, de tão chapado que estava.
Dudu sapecou água nas têmporas, mas nada.
-- Caraca, pelo bafo, o cara entornou legal –- afirmou Dudu, voltando a estapeá-lo, agora com mais força. – Isso é o que dá para perceber com ele apagado. O cara também deve estar cheiradaço.
Depois de mais uma sessão de tapas e de copos d’água na cara, Dudu soltou um muxoxo, fruto da impotência.
--Desisto – disse, enquanto tirava a cabeça do Lagartixa do colo.
Acho que o quicar da cabeça o acordou. O cucoruto em contato com o ladrilho frio da cozinha fizera Gilmar despertar.
Olhos esbugalhados, saliva acumulada nos cantos da boca, Gilmar acordou trôpego, e ansioso tentou levantar-se, e antes de estabacar-se novamente, bateu a cabeça na parede de ladrilho azul fazendo um esporro colossal.
-- Caralho!! -- riu Dudu baixinho para mim. -- Senta numa cadeira, Gilmar.
Estava no 3º ano de jornalismo na FACHA, uma faculdade em Botafogo. Dividia o apartamento em Ipanema, na Farme de Amoedo, com ...Caraca! Foi tanta gente que passou por lá que não estou bem certo de quem morava lá na época. Bem, acho que Dudu, Rogério, Tasso e Enéas dividiam o apartamento comigo na época.
Mas neste episódio bastava citar o Dudu. Irmão mais novo do Enéas, eu o conhecia desde molequinho mesmo, quando ele tinha 5, 6 anos. Era completamente diferente do irmão, meu grande amigo, com quem eu estudara os três últimos anos no colégio. Chegara ao Rio um ano antes para cursar engenharia na Santa Úrsula, faculdade vizinha ao Palácio Guanabara, em Botafogo e morava com o Diano, amigo de infância dos tempos de rua 40.
Só que, indecisão em pessoa, Dudu desistiu de engenharia e, no ano seguinte, fizera vestibular para duas faculdades diametralmente opostas: arquitetura, na UFRJ, e jornalismo, na PUC. Levou, acho que por ano e meio, as duas faculdades; uma no Fundão, Iha do Governador, outra na Gávea. Simultaneamente a esta maratona, mudou-se para a república do irmão.
Enéas, seis anos mais velho, já há muito tinha traçado seu caminho. Seu pensamento exato, sua precisão, seu pragmatismo o levaram até a engenharia mecânica, primeiro na UCP, em Petrópolis, depois na PUC do Rio. Era seu último ano na faculdade.
Achava Dudu bem parecido comigo. Era hesitante, questionava tudo, era sensível (SENSÍVEL, nada a ver com boiola, mané).
Acho que optara pelo jornalismo um pouco por influência minha... Gostaa do moleque como se fosse meu irmão caçula (eu tinha 23; ele, 18 anos, e nesta época da vida, fim da adolescência, cinco anos davam-me alguma experiência a mais). Havia uma diferença gritante entre nós dois, porém: enquanto Dudu era “pegador” – ficava com as meninas mais cotadas – eu era um fiasco com meninas, cotadas ou não.
Lembro-me bem da chegada do Dudu ao apartamento de Ipanema. Foi num fim de tarde de domingo, no início de março, véspera do primeiro dia de faculdade. Dudu aportara de mala e cuia.
Assim como o Enéas, era bagunceiro toda a vida. E logo na chegada, dera mostra de seu desmazelo, deixando a mala de roupas no chão da sala. Depois de uma breve recepção de boas-vindas, protagonizada por eu e Rogério – os únicos no apartamento àquela hora.
Mais de uma hora se passara e a mala de roupas continuava na sala. Só que agora estava aberta; Dudu havia tirado uma toalha e tomado uma ducha. Aquela hora, todos ao moradores do apartamento estavam por lá. Estávamos todos na sala, quando Dudu foi pendurar sua toalha no boxe do banheiro.
-- Vamos ver o que este moleque trouxe de casa...— disse Enéas, enquanto vasculhava a bolsa do irmão.
Ele foi muito rápido. Jogou todas as roupas no chão. Caíram meias, cuecas, shortes, calças, camisas e por último, para desespero de Dudu, que tinha retornado à sala, uma bíblia.
Enéas foi fundo no escárnio.
-- Olha só, Uma bíblia. Sinto, Dudu, mas isso não vai te ajudar, na faculdade de arquitetura não. Talvez na de jornalismo... – zombou Enéas, narigão vermelho de tanto rir.
Rogério e Tasso acharam graça. Dudu apressou-se em tomar o livro das mãos do Enéas:
-- Imbecil, babaca – disparou Dudu para o irmão, que agora se regojizava da descoberta, que rendeu pelo menos uma semana de zoação para o Enéas em cima do irmão mais novo.
Dudu era fissurado numa gororoba chamada mexido. Consistia num mixer de sobras jogados numa frigideira, misturados. Ia à mesa como gosma, e o cara que comia só continuava vivo se Deus estivesse mesmo muito empenhado. Mas Dudu não só sobrevivia àqueles guisados de sobras como exultava quando encarava a solene missão de recolher restolhos na geladeira e transformá-los numa gororroba incomum.
Naquele fim de semana, eu e Dudu não subimos para Volta Redonda – por motivos distintos. Ele, a pretexto de estudar; eu combinei de sair com amigos da faculdade.
Pois sábado à noite, estávamos os dois em casa, assistindo TV. Dudu estudou a tarde e parte da noite. Eu fora na primeira sessão do cinema Veneza, em Botafogo (lembram-se?).
Acabou o Jornal Nacional e Dudu migrara, rápido, para a cozinha.
-- Erão, vou preparar um mexido. Vamos nessa? – ofereceu, berrando da cozinha para a sala.
-- Tô fora, odeio isso. Você junta todas as porcarias que encontra na geladeira...Argh, que nojo! Prefiro um MacDonalds. Quer ir não? — respondi, engatando um capítulo da novela.
Dudu investigava a geladeira. Um resto de feijão feito na terça anterior, um tanto de arroz, um cadinho de purê de batata, uma espécie de picadinho. Depois de tudo mexido, qual argamassa de cimento, Ulalá!!! Um ovo estrelado por cima! Um senhor bate e entope!
Foi quando ele reparou que a porta dos fundos estava semi-aberta. Dudu apressou em fechar e...
-- Eritos, corre aqui!!! – berrou Dudu da porta dos fundos.
Quando cheguei, Dudu estava estapeando, devagarzinho, um desmaiado Lagartixa, que era como nós chamávamos o filho da Anita, nossa faxineira.
-- Gilmar, acorda, Gilmar! – sacudia Dudu um inerte Lagartixa. -– Eritos, me arruma um pouco d’água.
Lagartixa, um sujeito magro, preto e baixo, jazia junto à porta. Ele desfaleceu quando conseguira abri-la. Ou seja, quando a resistência da porta cedeu, ele desabou, de tão chapado que estava.
Dudu sapecou água nas têmporas, mas nada.
-- Caraca, pelo bafo, o cara entornou legal –- afirmou Dudu, voltando a estapeá-lo, agora com mais força. – Isso é o que dá para perceber com ele apagado. O cara também deve estar cheiradaço.
Depois de mais uma sessão de tapas e de copos d’água na cara, Dudu soltou um muxoxo, fruto da impotência.
--Desisto – disse, enquanto tirava a cabeça do Lagartixa do colo.
Acho que o quicar da cabeça o acordou. O cucoruto em contato com o ladrilho frio da cozinha fizera Gilmar despertar.
Olhos esbugalhados, saliva acumulada nos cantos da boca, Gilmar acordou trôpego, e ansioso tentou levantar-se, e antes de estabacar-se novamente, bateu a cabeça na parede de ladrilho azul fazendo um esporro colossal.
-- Caralho!! -- riu Dudu baixinho para mim. -- Senta numa cadeira, Gilmar.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
carnaval em Angra 4.4 - última parte
Depois de passada a roleta, ficamos uma meia hora reconhecendo o lugar, enquanto esperávamos a chegada de nossos objetos de desejo. O hall de entrada, os imensos decks ao ar livre, com vista para o escuro e fétido mar que margeava a cidade de Angra (mas que assim, à distância, era uma imensidão aprazível, cujo único cheiro bafejado pelo vento era o de uma tênue maresia).
Onde ficavam os banheiros – tanto os masculinos quanto os femininos, estes, embora vedada nossa entrada, eram os mais importantes - os lugares mais barulhentos e mais sossegados, isto dentro do salão, porque se buscássemos algum resquício de paz, só lá embaixo, com os pés na areia. Enfim, esquadrilhamos o Aquibadã.
É lógico que fuçamos os dois bares do lugar e até tomamos umas cervejas. Eu fiquei numa latinha só. Ainda me revirava o estômago o porre que tomara no carnaval retrasado. A título de “aquecermos as turbinas” e cometermos haraquiri em nossa timidez, nos reunimos na casa do Pedro Moustache e tomamos todas antes do primeiro baile de carnaval no Clube dos Funcionários, em Volta. Apaguei e fui levado semiconsciente pra casa, antes do grito de abertura do carnaval. Desde este trágico evento, carnaval e porre nunca mais foram conjugados (executados) por mim numa mesma sentença.
Enfim, eram 11h e meia, mais ou menos, quando as gatas de Barra Mansa pintaram no Iate Clube. Eram 13 meninas – algumas realmente lindas. Nós as avistamos do segundo andar – a entrada e o salão onde rolava o baile ficavam no térreo. Estávamos apreciando e contando a bela legião, quando Aurélio, escandaloso que só, começa a berrar, ou melhor, a falar mais alto, frases desencontradas:
-- Caralho! A Suicídio taí!! É aquela de flor amarela presa nos cabelos. Já te falei dela, Eros. Viu, Gugu? É ela!!!!
Explica-se: a menina a quem Aurélio referia-se, pela alcunha de Suicídio – “por ela, o cara até se mata”, exagerava o capetinha de Volta Redonda – era a mais recente “descoberta” dele, que a achava lindíssima. Menos, Aurélio, menos. A menina, cujo nome não me lembro, era bonita, verdade. Esguia, elegante, bela pele e belos olhos amendoados. Mas não tinha qualquer traço de sensualidade.
Quando viu que Suicídio – depois entronizada como Suicídio 1, quando apareceu outra da mesma estirpe – era uma das meninas de Volta que foram convidadas para se juntar às barramansenses, Al ficou eufórico. Parecia uma ave-do-paraíso macho – até onde poderia ir a macheza travestida de diabinho de cetim vermelho.
Aurélio tinha (ainda deve ter) o raro hábito de lascar um apelido em alguém e consagrá-lo como definitivo, ainda que fosse o único a repeti-lo.
-- então venham você, Alexandre e o Verrugão (ao referir-se a um amigo que tem uma protuberância íntima, digamos, assustadora).
Ou: -- Fala para o Porno-man (este não me lembro da justificativa, nem a quem ele chama quando sai com esta) me ligar.
Mas Suicídio colou porque nós não a conhecíamos. Eu, Enéas e Gugu sequer sabíamos seu nome de batismo. É lógico que antes mesmo de a encontrarmos em Angra, Al tinha a ficha completa da menina: nome, idade, quem namorou, por quem suspirava, escolaridade, tipo sanguíneo, etc.
Mas fora Aurélio, ignorávamos seu nome, e ainda que soubéssemos, subreptilinarmente não queríamos dar este crédito a ela. Imagine eu falando:
- Olha que graça aquela baixinha, a terceira à esquerda da Maria Eduarda (nome hipotético da Suicídio).
Então para gáudio do inventor de apelidos, sempre nos referíamos à ela como Suicídio.
Enquanto isso, tentava me manter o mais confiante possível. Dei umas voltas no salão sozinho; depois fui falar com Andréa e Nazareth, isso na companhia de Enéas, Aurélio e Gugu. Pulei com Andréa, depois com a irmã dela; nunca investindo nelas. Era como se fossem vitrines móveis, que me permitiam vislumbrar possíveis flertes.
Vislumbrei algumas chances – tinha uma Mulher-Gato chapadaça e a mercê, primeiro de um grupo de centuriões romanos, depois de um trio de pierrôs. Dei um tchauzinho de longe para a Eliane, que pulava num canto do salão. Ela trajava meias-arrastão que me causaram uma ponta de arrependimento.
Enéas também deu voltas despretensiosas com as duas irmãs. Gugu manteve o profile discretíssimo e sequer se aventurou pelo salão; Aurélio marcava passo no mesmo lugar, sempre atento às movimentações de Suicídio, enquanto desenvolvia, displicentemente, o hábito de botar o rabo que saia dos fundilhos de sua fantasia de Belzebu entre as pernas.
Bem, a primeira noite passara em branco. As mais dadivosas e espevitadas de Barra Mansa já ficaram com sujeitos ignóbis – algumas com maurícios; outras com notórios sacripantas; uma sétima com um boiolinha metido a homem.
Meu Deus!!! E eu era tão gente boa ... Feio, mas gente boa. Bocó, mas gente boa. Duro, mas gente boa. E a Natália ficou com aquele troglodiata que sequer deveria saber falar, pois desde que eles se atracaram, tão logo ela chegou, não vi trocarem palavra, apesar da intensa movimentação labial. Mas não me abati. Mantive o moral em alta. Tínhamos mais três noites pela frente.
Segunda noite. Resultado parecido com a primeira, com uma baixa na minha auto-estima, que eu estava vendo minguar a passos largos: Eliane ficou com um bem comportado pirata, a julgar pela perfeita combinação do tênis – branco, com detalhes em vermelho e tiras pretas - com o resto da fantasia – bermuda preta, camisa acetinada branca e lenço vermelho amarrado na cabeça.
Terceira noite. Começou a me bater o choque de realidade: eu era tímido demais, cioso em excesso de minhas limitações – sequer tentei ficar com uma viking loura, bonita, que bêbada feito um gambá, bastava ouvir uma senha (acho que era “Aiôôô, Silver”) que saia trotando pelo salão agarrada ao moleque que pronunciasse as palavras mágicas. Quando o galope já ia avançado, a loura se rendia aos apelos do rapaz que por, em média, dois minutos -- tempo suficiente para dar duas voltas no salão -- podia sapecar quantos beijos e agarrões conseguisse.
A bêbada viking surgiu evoluindo ainda sóbria perto de nós, mas antes das duas da manhã já estava chamando “urubu de meu louro”. E fez-se fila de interessados em dar duas voltinhas pelo salão com ela. Nenhum de nós quatro demonstrou interesse na loura, com exceção o Enéas. Só que quando ele entrou na fila para dar uns catrancos na viking, contava-se mais de 18, mas cê sabe como é carnaval....De 18 para 180, basta um estalar de dedos. Eu sei que o Enéas não deu os pinotes com a loura, porque ela fora resgatada por um casal de primos ou por dois amigos, sei lá. Já não tinha mais o chapéu chifrudo e estava prestes a ficar sem a bata. A machadinha de plástico, para se defender de possíveis inimigos e predadores, sumira óóóóóó, fazia tempo.
Sei que minha auto-confiança estava indo para o brejo. Ficava junto do Aurélio e do Gugu, que limitavam-se a comentar, entre copos de cerveja, o quanto a odalisca, a feiticeira eram gostosas. Mas eram comentários para ninguém ouvir. Imagina se aquela desenibida fantasiada de modelo e atriz escuta a gente falando dela?!! Peraí, existe fantasia de modelo e atriz?
Parecíamos integrantes do bloco carioca “Concentra, mas não sai”: na beirada do salão com copos de cerveja na mão e a ginga típica de quem é natural de Volta Redonda. Vez por outra, dávamos juntos ou separados voltas no salão, para assegurarmo-nos que não tínhamos morrido (pelo menos era essa a minha sensação).
Aurélio, no começo da terceira noite no Aquidabã, chegou a ficar preocupado com a ausência de Suicídio. Mas logo Andréa, que era prima da dona da casa de praia onde as belas de Barra Mansa e de Volta estavam hospedadas, tratou de tranquilizá-lo:
-- A Isabel (poderia ser Suelen, ignoro solenemente o nome da moça)? Ela não veio porque está um pouquinho febril, resfriada. Amanhã vem até na matinê, de tarde.
Mas Aurélio só sossegou quando avistou o mauricinho com quem trocou bem-comportados beijos na véspera. Usava uma desconfortável, porque calorenta, pólo La Coste, bermuda cargo e tênis Adidas, vestimenta semelhante à que ele usara na noite anterior. Só que na ausência de Suicídio, ele jogava uma conversa numa ruiva gostosona sentados na mesa dela.
Descobri que tem gente que vai aos bailes só para pular mesmo. Que consegue se divertir com batalhas de confete e serpentina ou simplesmente com a música estridente e repetitiva tocada por uma bandinha safada. Gente diferente de mim (que ia aos bailes cheio de segundas, terceiras, quartas e quintas, principalmente quintas, intenções). Andréa e Nazareth eram assim. Cansei de ver caras - alguns limpinhos, outros mamados que só – tentarem pular com elas e serem refutados imediatamente. E sobrava alegria e sobriedade naquelas marujas que se fartavam de água ou, muito eventualmente, de um refrigerante – na época, não tinha diet.
A mim, cheio de más intenções, restava-me o consolo de mirar o mar, um pouco afastado daquela algazarra. Definitivamente, eu não tinha o mínimo de competência para concretizar meus ideais devassos. Mas a pá de cal naquele que seria o carnaval redentor viria num sutil e macio tapinha nas costas.
-- Cê tá bem? – perguntava-me Eliane, que se afastou do pirata arrumadinho alguns metros para me perguntar isso.
Caraí!!! E o pior é que sua preocupação era sincera; preferia mil vezes que soasse como vingança, que ela viesse tripudiar do meu fracasso. Mas não.
-- Você está se sentindo bem? Bebeu muito? – perguntava, com devotamento sincero.
-- Que nada, Eliane!! Só vim tomar um ar. Já tô voltando para lá. Afinal, a gente tem que aproveitar, já ta acabando.... – dei um pinote de alegria convicta e voltei para o tumulto do salão. No fundo, e no raso mesmo, queria que ela me abraçasse, me beijasse e esquecesse aquela frase imbecil e imprevidente “Quero terminar” e aquele gentil pirata. Mas me restava um tiquinho de dignidade e saí dali do deck deixando o casal à vontade para os derradeiros amassos daquela noite.
De volta aos bêbados, às devassas, aos foliões sinceros e aquele som horroroso tocado pela bandinha, me baixou o banzo quando ouvi pela décima-quarta vez os vocalistas (dois negões, uma mulata magra e uma senhora branca, gorducha e baixinha) entoarem “Oh, quanto riso/ Oh, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão...”. Que saudades do meu quarto, do meu pijama, da minha cama.
Nem preciso dizer que me recusei terminantemente a ir na matinê de terça-feira. Preferi ficar jogando tarrafa no rio que desembocava na baía do Pontal, próximo ao condomínio de casa vizinho ao I.C.A.R. Enéas também preferiu ficar dormindo na casinha do Pontal. Mas estava só se poupando para a noite. Ele estava às voltas com uma tal de Adriana, nativa de Angra mesmo.
Aurélio e Gugu foram sozinhos à matinê de onde voltam umas seis e meia, três horas e meia depois de terem deixado o Pontal. Al vestiu uma roupa de “civil”. A fantasia ficara guardada para a última noite.
Eu não queria saber mais de carnaval. Eu era um crítico incorrigível e não conseguia me ver, lépido e faceiro, investindo em um amor de carnaval, que duraria, no máximo, algumas horas. Tinha senso de ridículo. Sabia que precisava conhecer bem a menina para chegar. Aparência e indiferença a tocos não eram meu forte.
- Devia ter te ouvido, Aurélio – reconhecia. – Não devia ter despachado a Eliane.
Caralho!! Admitir que o Al estava certo, era o cúmulo do erro. Ir ao Aquidabã para quê? Para mim, o carnaval acabou, mesmo antes de ser reconfortado pela Eliane.
Bem, tanto insistiram que fui demovido da idéia de dormir cedo e fomos, os quatro, para o Aquibadã. Chegamos lá, meia-noite e meia. Eu sentia os esforços de jogar rede no rio parte da tarde e só dei três voltas no salão. Com Andréa, com Nazareth e uma terceira sozinho, só para comprovar que o pirata da Eliane não era tão gentil assim. Empenhavasse em sufocá-la com um tremendo e vil chupão. Só não investi contra o sujeito, porque ela parecia estar gostando e muito.
De resto, fiquei “concentrado mas não saí”, ao lado de Aurélio e Gugu. Enéas sumiu. Na companhia de Adriana, é claro. Gugu só tinha olhos para uma angrense amiga da Andréa. Mas só olhos, porque coragem para falar com ela, ele não tinha.
Al seguia obcecado na Suicídio. Quando ela e mais três amigas, de narizes igualmente empinados, deram três voltas pelo salão, Aurélio ficou eufórico. Convenceu Gugu a segui-las. Como recém-descidas de um pedestal, lançavam olhares reprovadores àquela plebe ignata. O mauricinho que sapecara-lhe umas bitoquinhas no domingo e agora entretinha-se com a ruiva, bem mais fornida do que ela, também foi fulminado pelo olhar de desdém de Suicídio.
Na segunda volta, Gugu parou próximo a um grupo de meninas, entre as quais Andréa e a menina de Angra. E não é que ele puxou papo com a guria?! Através da
Andréa, mas puxou.
Enquanto isso, Al acompanhava, embevecido, o “desfile” altivo da sua princesa entre os plebeus. Quando completou a terceira volta, ela e as três asseclas subiram as escadas e se refugiaram, enojadas, numa das muitas mesas reservadas para as meninas de Barra Mansa.
Faltava meia hora para o fim do baile. Se eu não dependesse do Aurélio, já tinha ido dormir no Pontal há séculos. Já passava de cinco e meia da manhã, quando a bandinha entoou pela última vez, naquele carnaval, “Ai, ai, ai, aiaiai/Tá chegando a hora/ O dia já vem raiando, meu bem/ Eu tenho que ir embora”. No salão, restos da batalha carnavalesca travada há pouco: confete, serpentina, garrafas plásticas de refrigerante, a viking louraça, que voltou a encharcar-se de vodca, os primos que foram resgatá-la de uma tribo indígena canibal, nós quatro – Enéas reaparecera – e outros desconhecidos que esperavam os outros foliões saírem.
Havia um espírito nostálgico entre os casais e grupos que iam se deixando ficar. Até o Aurélio, que a ninguém abateu, respirava esta atmosfera idílica. Eu só queria esquecer mais aquele trágico carnaval, as cagadas que fizera antes de pisar no Aquidabã e... aiiii!!! Quem eu vejo sentada de mãos dadas e rostinho colado na entrada do salão? Eliane! Trocando beijos bem mais que protocolares com o pirata tricolor. Se arrependimento matasse...
Não posso dizer que estava sozinho na merda. Enquanto esperávamos o salão esvaziar, Aurélio seguia encarando de longe Suicídio. Botar o rabo entre as pernas havia virado um hábito arraigado. Eis que Suicídio põe-se a olhar em nossa direção. Aurélio sustenta o olhar e diz, eufórico, baixinho:
-- Olha!! Olha!! A menina tá me encarando!
Com a ar blasé de sempre, Suicídio pergunta a uma menina que desce as escadas ao seu lado sustentando o olhar e abrindo espaço para uma pergunta, no mínimo, vulgar e capciosa:
-- Olha aquele bigodudo fantasiado de capeta. Será que é viado?
Onde ficavam os banheiros – tanto os masculinos quanto os femininos, estes, embora vedada nossa entrada, eram os mais importantes - os lugares mais barulhentos e mais sossegados, isto dentro do salão, porque se buscássemos algum resquício de paz, só lá embaixo, com os pés na areia. Enfim, esquadrilhamos o Aquibadã.
É lógico que fuçamos os dois bares do lugar e até tomamos umas cervejas. Eu fiquei numa latinha só. Ainda me revirava o estômago o porre que tomara no carnaval retrasado. A título de “aquecermos as turbinas” e cometermos haraquiri em nossa timidez, nos reunimos na casa do Pedro Moustache e tomamos todas antes do primeiro baile de carnaval no Clube dos Funcionários, em Volta. Apaguei e fui levado semiconsciente pra casa, antes do grito de abertura do carnaval. Desde este trágico evento, carnaval e porre nunca mais foram conjugados (executados) por mim numa mesma sentença.
Enfim, eram 11h e meia, mais ou menos, quando as gatas de Barra Mansa pintaram no Iate Clube. Eram 13 meninas – algumas realmente lindas. Nós as avistamos do segundo andar – a entrada e o salão onde rolava o baile ficavam no térreo. Estávamos apreciando e contando a bela legião, quando Aurélio, escandaloso que só, começa a berrar, ou melhor, a falar mais alto, frases desencontradas:
-- Caralho! A Suicídio taí!! É aquela de flor amarela presa nos cabelos. Já te falei dela, Eros. Viu, Gugu? É ela!!!!
Explica-se: a menina a quem Aurélio referia-se, pela alcunha de Suicídio – “por ela, o cara até se mata”, exagerava o capetinha de Volta Redonda – era a mais recente “descoberta” dele, que a achava lindíssima. Menos, Aurélio, menos. A menina, cujo nome não me lembro, era bonita, verdade. Esguia, elegante, bela pele e belos olhos amendoados. Mas não tinha qualquer traço de sensualidade.
Quando viu que Suicídio – depois entronizada como Suicídio 1, quando apareceu outra da mesma estirpe – era uma das meninas de Volta que foram convidadas para se juntar às barramansenses, Al ficou eufórico. Parecia uma ave-do-paraíso macho – até onde poderia ir a macheza travestida de diabinho de cetim vermelho.
Aurélio tinha (ainda deve ter) o raro hábito de lascar um apelido em alguém e consagrá-lo como definitivo, ainda que fosse o único a repeti-lo.
-- então venham você, Alexandre e o Verrugão (ao referir-se a um amigo que tem uma protuberância íntima, digamos, assustadora).
Ou: -- Fala para o Porno-man (este não me lembro da justificativa, nem a quem ele chama quando sai com esta) me ligar.
Mas Suicídio colou porque nós não a conhecíamos. Eu, Enéas e Gugu sequer sabíamos seu nome de batismo. É lógico que antes mesmo de a encontrarmos em Angra, Al tinha a ficha completa da menina: nome, idade, quem namorou, por quem suspirava, escolaridade, tipo sanguíneo, etc.
Mas fora Aurélio, ignorávamos seu nome, e ainda que soubéssemos, subreptilinarmente não queríamos dar este crédito a ela. Imagine eu falando:
- Olha que graça aquela baixinha, a terceira à esquerda da Maria Eduarda (nome hipotético da Suicídio).
Então para gáudio do inventor de apelidos, sempre nos referíamos à ela como Suicídio.
Enquanto isso, tentava me manter o mais confiante possível. Dei umas voltas no salão sozinho; depois fui falar com Andréa e Nazareth, isso na companhia de Enéas, Aurélio e Gugu. Pulei com Andréa, depois com a irmã dela; nunca investindo nelas. Era como se fossem vitrines móveis, que me permitiam vislumbrar possíveis flertes.
Vislumbrei algumas chances – tinha uma Mulher-Gato chapadaça e a mercê, primeiro de um grupo de centuriões romanos, depois de um trio de pierrôs. Dei um tchauzinho de longe para a Eliane, que pulava num canto do salão. Ela trajava meias-arrastão que me causaram uma ponta de arrependimento.
Enéas também deu voltas despretensiosas com as duas irmãs. Gugu manteve o profile discretíssimo e sequer se aventurou pelo salão; Aurélio marcava passo no mesmo lugar, sempre atento às movimentações de Suicídio, enquanto desenvolvia, displicentemente, o hábito de botar o rabo que saia dos fundilhos de sua fantasia de Belzebu entre as pernas.
Bem, a primeira noite passara em branco. As mais dadivosas e espevitadas de Barra Mansa já ficaram com sujeitos ignóbis – algumas com maurícios; outras com notórios sacripantas; uma sétima com um boiolinha metido a homem.
Meu Deus!!! E eu era tão gente boa ... Feio, mas gente boa. Bocó, mas gente boa. Duro, mas gente boa. E a Natália ficou com aquele troglodiata que sequer deveria saber falar, pois desde que eles se atracaram, tão logo ela chegou, não vi trocarem palavra, apesar da intensa movimentação labial. Mas não me abati. Mantive o moral em alta. Tínhamos mais três noites pela frente.
Segunda noite. Resultado parecido com a primeira, com uma baixa na minha auto-estima, que eu estava vendo minguar a passos largos: Eliane ficou com um bem comportado pirata, a julgar pela perfeita combinação do tênis – branco, com detalhes em vermelho e tiras pretas - com o resto da fantasia – bermuda preta, camisa acetinada branca e lenço vermelho amarrado na cabeça.
Terceira noite. Começou a me bater o choque de realidade: eu era tímido demais, cioso em excesso de minhas limitações – sequer tentei ficar com uma viking loura, bonita, que bêbada feito um gambá, bastava ouvir uma senha (acho que era “Aiôôô, Silver”) que saia trotando pelo salão agarrada ao moleque que pronunciasse as palavras mágicas. Quando o galope já ia avançado, a loura se rendia aos apelos do rapaz que por, em média, dois minutos -- tempo suficiente para dar duas voltas no salão -- podia sapecar quantos beijos e agarrões conseguisse.
A bêbada viking surgiu evoluindo ainda sóbria perto de nós, mas antes das duas da manhã já estava chamando “urubu de meu louro”. E fez-se fila de interessados em dar duas voltinhas pelo salão com ela. Nenhum de nós quatro demonstrou interesse na loura, com exceção o Enéas. Só que quando ele entrou na fila para dar uns catrancos na viking, contava-se mais de 18, mas cê sabe como é carnaval....De 18 para 180, basta um estalar de dedos. Eu sei que o Enéas não deu os pinotes com a loura, porque ela fora resgatada por um casal de primos ou por dois amigos, sei lá. Já não tinha mais o chapéu chifrudo e estava prestes a ficar sem a bata. A machadinha de plástico, para se defender de possíveis inimigos e predadores, sumira óóóóóó, fazia tempo.
Sei que minha auto-confiança estava indo para o brejo. Ficava junto do Aurélio e do Gugu, que limitavam-se a comentar, entre copos de cerveja, o quanto a odalisca, a feiticeira eram gostosas. Mas eram comentários para ninguém ouvir. Imagina se aquela desenibida fantasiada de modelo e atriz escuta a gente falando dela?!! Peraí, existe fantasia de modelo e atriz?
Parecíamos integrantes do bloco carioca “Concentra, mas não sai”: na beirada do salão com copos de cerveja na mão e a ginga típica de quem é natural de Volta Redonda. Vez por outra, dávamos juntos ou separados voltas no salão, para assegurarmo-nos que não tínhamos morrido (pelo menos era essa a minha sensação).
Aurélio, no começo da terceira noite no Aquidabã, chegou a ficar preocupado com a ausência de Suicídio. Mas logo Andréa, que era prima da dona da casa de praia onde as belas de Barra Mansa e de Volta estavam hospedadas, tratou de tranquilizá-lo:
-- A Isabel (poderia ser Suelen, ignoro solenemente o nome da moça)? Ela não veio porque está um pouquinho febril, resfriada. Amanhã vem até na matinê, de tarde.
Mas Aurélio só sossegou quando avistou o mauricinho com quem trocou bem-comportados beijos na véspera. Usava uma desconfortável, porque calorenta, pólo La Coste, bermuda cargo e tênis Adidas, vestimenta semelhante à que ele usara na noite anterior. Só que na ausência de Suicídio, ele jogava uma conversa numa ruiva gostosona sentados na mesa dela.
Descobri que tem gente que vai aos bailes só para pular mesmo. Que consegue se divertir com batalhas de confete e serpentina ou simplesmente com a música estridente e repetitiva tocada por uma bandinha safada. Gente diferente de mim (que ia aos bailes cheio de segundas, terceiras, quartas e quintas, principalmente quintas, intenções). Andréa e Nazareth eram assim. Cansei de ver caras - alguns limpinhos, outros mamados que só – tentarem pular com elas e serem refutados imediatamente. E sobrava alegria e sobriedade naquelas marujas que se fartavam de água ou, muito eventualmente, de um refrigerante – na época, não tinha diet.
A mim, cheio de más intenções, restava-me o consolo de mirar o mar, um pouco afastado daquela algazarra. Definitivamente, eu não tinha o mínimo de competência para concretizar meus ideais devassos. Mas a pá de cal naquele que seria o carnaval redentor viria num sutil e macio tapinha nas costas.
-- Cê tá bem? – perguntava-me Eliane, que se afastou do pirata arrumadinho alguns metros para me perguntar isso.
Caraí!!! E o pior é que sua preocupação era sincera; preferia mil vezes que soasse como vingança, que ela viesse tripudiar do meu fracasso. Mas não.
-- Você está se sentindo bem? Bebeu muito? – perguntava, com devotamento sincero.
-- Que nada, Eliane!! Só vim tomar um ar. Já tô voltando para lá. Afinal, a gente tem que aproveitar, já ta acabando.... – dei um pinote de alegria convicta e voltei para o tumulto do salão. No fundo, e no raso mesmo, queria que ela me abraçasse, me beijasse e esquecesse aquela frase imbecil e imprevidente “Quero terminar” e aquele gentil pirata. Mas me restava um tiquinho de dignidade e saí dali do deck deixando o casal à vontade para os derradeiros amassos daquela noite.
De volta aos bêbados, às devassas, aos foliões sinceros e aquele som horroroso tocado pela bandinha, me baixou o banzo quando ouvi pela décima-quarta vez os vocalistas (dois negões, uma mulata magra e uma senhora branca, gorducha e baixinha) entoarem “Oh, quanto riso/ Oh, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão...”. Que saudades do meu quarto, do meu pijama, da minha cama.
Nem preciso dizer que me recusei terminantemente a ir na matinê de terça-feira. Preferi ficar jogando tarrafa no rio que desembocava na baía do Pontal, próximo ao condomínio de casa vizinho ao I.C.A.R. Enéas também preferiu ficar dormindo na casinha do Pontal. Mas estava só se poupando para a noite. Ele estava às voltas com uma tal de Adriana, nativa de Angra mesmo.
Aurélio e Gugu foram sozinhos à matinê de onde voltam umas seis e meia, três horas e meia depois de terem deixado o Pontal. Al vestiu uma roupa de “civil”. A fantasia ficara guardada para a última noite.
Eu não queria saber mais de carnaval. Eu era um crítico incorrigível e não conseguia me ver, lépido e faceiro, investindo em um amor de carnaval, que duraria, no máximo, algumas horas. Tinha senso de ridículo. Sabia que precisava conhecer bem a menina para chegar. Aparência e indiferença a tocos não eram meu forte.
- Devia ter te ouvido, Aurélio – reconhecia. – Não devia ter despachado a Eliane.
Caralho!! Admitir que o Al estava certo, era o cúmulo do erro. Ir ao Aquidabã para quê? Para mim, o carnaval acabou, mesmo antes de ser reconfortado pela Eliane.
Bem, tanto insistiram que fui demovido da idéia de dormir cedo e fomos, os quatro, para o Aquibadã. Chegamos lá, meia-noite e meia. Eu sentia os esforços de jogar rede no rio parte da tarde e só dei três voltas no salão. Com Andréa, com Nazareth e uma terceira sozinho, só para comprovar que o pirata da Eliane não era tão gentil assim. Empenhavasse em sufocá-la com um tremendo e vil chupão. Só não investi contra o sujeito, porque ela parecia estar gostando e muito.
De resto, fiquei “concentrado mas não saí”, ao lado de Aurélio e Gugu. Enéas sumiu. Na companhia de Adriana, é claro. Gugu só tinha olhos para uma angrense amiga da Andréa. Mas só olhos, porque coragem para falar com ela, ele não tinha.
Al seguia obcecado na Suicídio. Quando ela e mais três amigas, de narizes igualmente empinados, deram três voltas pelo salão, Aurélio ficou eufórico. Convenceu Gugu a segui-las. Como recém-descidas de um pedestal, lançavam olhares reprovadores àquela plebe ignata. O mauricinho que sapecara-lhe umas bitoquinhas no domingo e agora entretinha-se com a ruiva, bem mais fornida do que ela, também foi fulminado pelo olhar de desdém de Suicídio.
Na segunda volta, Gugu parou próximo a um grupo de meninas, entre as quais Andréa e a menina de Angra. E não é que ele puxou papo com a guria?! Através da
Andréa, mas puxou.
Enquanto isso, Al acompanhava, embevecido, o “desfile” altivo da sua princesa entre os plebeus. Quando completou a terceira volta, ela e as três asseclas subiram as escadas e se refugiaram, enojadas, numa das muitas mesas reservadas para as meninas de Barra Mansa.
Faltava meia hora para o fim do baile. Se eu não dependesse do Aurélio, já tinha ido dormir no Pontal há séculos. Já passava de cinco e meia da manhã, quando a bandinha entoou pela última vez, naquele carnaval, “Ai, ai, ai, aiaiai/Tá chegando a hora/ O dia já vem raiando, meu bem/ Eu tenho que ir embora”. No salão, restos da batalha carnavalesca travada há pouco: confete, serpentina, garrafas plásticas de refrigerante, a viking louraça, que voltou a encharcar-se de vodca, os primos que foram resgatá-la de uma tribo indígena canibal, nós quatro – Enéas reaparecera – e outros desconhecidos que esperavam os outros foliões saírem.
Havia um espírito nostálgico entre os casais e grupos que iam se deixando ficar. Até o Aurélio, que a ninguém abateu, respirava esta atmosfera idílica. Eu só queria esquecer mais aquele trágico carnaval, as cagadas que fizera antes de pisar no Aquidabã e... aiiii!!! Quem eu vejo sentada de mãos dadas e rostinho colado na entrada do salão? Eliane! Trocando beijos bem mais que protocolares com o pirata tricolor. Se arrependimento matasse...
Não posso dizer que estava sozinho na merda. Enquanto esperávamos o salão esvaziar, Aurélio seguia encarando de longe Suicídio. Botar o rabo entre as pernas havia virado um hábito arraigado. Eis que Suicídio põe-se a olhar em nossa direção. Aurélio sustenta o olhar e diz, eufórico, baixinho:
-- Olha!! Olha!! A menina tá me encarando!
Com a ar blasé de sempre, Suicídio pergunta a uma menina que desce as escadas ao seu lado sustentando o olhar e abrindo espaço para uma pergunta, no mínimo, vulgar e capciosa:
-- Olha aquele bigodudo fantasiado de capeta. Será que é viado?
sábado, 19 de dezembro de 2009
Carnaval em angra - 3
Passamos mais três dias em casa, e vrrumm...Já estávamos no caminho de Angra novamente. Três dias antes do primeiro baile de carnaval no Aquidabã. Tempo mais que suficiente para tomar decisões apropriadas para o maior (o primeiro do novo Eros, garanhão, pegador) carnaval de minha vida.
Na noite do mesmo dia que chegamos ao Pontal, fomos para Angra.
Antes de encontrarmos com as meninas, já na Rua do Commercio, a principal da cidade, anunciei, resoluto, aos meus companheiros, ainda no Fiat
do Al.
-- Hoje vou terminar meu namoro com a Eliane. Carnaval tá chegando, vai ter um monte de gostosas de Barra Mansa, e eu não quero saber de compromisso - afirmei, com ares do mais novo boçal do pedaço.
Aurélio ainda me advertira, solícito:
-- Não faz merda, Eritos. Vai que num arruma ninguém nos bailes. Vai fazer o quê? Ficar com cara de bunda, chupando o dedo? Melhor você ficar com a Eliane...
-- Acha que sou louco? Eliane vai pular no Aquidabã também... Quero é distância... Com Bárbara, Renatinha, Natália (é claro que são nomes fictícios, não me lembraria de ninguém, a não ser de uma, a preferida do Aurélio) no baile, cê acha que eu entraria de mãos dadas com a Eliane? – justificava, canalhamente, minha opção por terminar o namorico de verão.
E eu falava das meninas de Barra Mansa como se as conhecesse. Sabia seus nomes – eram famosas para parúaras como nós - mas nunca trocara palavra com elas. Mas neste carnaval queria ver alguma resistir ao meu charme e à minha virilidade. Naquele momento, eu realmente acreditava que era charmoso e viril.
Encontramos as meninas. E eu queria me livrar de qualquer compromisso com a bonitinha de olhos azuis.
-- Oi, Eliane. Tenho que te dizer uma coisa – comecei, depois de um beijo não mais do que protocolar, num banco da praça que fica em frente ao cais. – Quero terminar.
Era evidente a surpresa da menina. Titubiou:
-- Mas, mas o que que houve? Tava tudo bem com a gente até você ir para Volta Redonda...
-- É... Mas o carnaval taí. E num gosto de manter namoro durante o carnaval – esnobei eu, como que gabaritado por muita experiência, antes de proferir o chavão impronunciável – Acho melhor ir cada um pro seu lado.
Era visível a decepção de Eliane, mas ela foi elegante e prática.
-- Certo, você é quem sabe. Tudo bem, então. Amigos? – propôs ela, me dando um abraço fraternal.
Pronto. Dissipei um problema, sem criar outro: a inimizade de Eliane.
Na quinta-feira, antevéspera de sábado de carnaval, um encontro aumentou significativamente nossas chances com as beldades de Barra Mansa. Trocamos a manhã no Pontal por boas horas em Angra. E fomos a uma das únicas praias razoáveis de Angra. A Praia das Gordas, vizinha ao Iate Clube do Rio de Janeiro (não me perguntam a razão dos nomes; ignoro totalmente).
Lá, graças ao estilo “entrão” do Aurélio, ficamos conhecendo Andréa, sua irmã, Nazareth (não, não são nomes fictícios) e mais três meninas de Barra Mansa. Longe de “abalarem Bangu”, elas eram ótimos canais até as iguarias barramansenses (ou “barramansuínas”, se o assunto fosse alguma querela envolvendo habitantes da cidade vizinha a Volta Redonda). Ainda mais que estavam hospedadas na mesma casa (uma mansão) que “nossas” meninas. Elas nos contaram que durante o carnaval deveriam ter umas 15 meninas, algumas de Volta Redonda.
Andréa e Nazareth eram gurias legais e bonitas – mas naquele verão, só tínhamos olhos para as outras, as sebosas e metidas que sequer sabiam da nossa existência – quanto mais de nossas pretensões.
Chegou o grande dia e eis que pontualmente às 11 da noite adentramos o Aquibadã, cheios de ímpeto juvenil.
Antes, porém, sacaneamos muito, eu e o Enéas, principalmente, o Aurélio e sua fantasia de diabo.
Aurélio vestido, fizemos alusões à masculinidade do traje. Mas a fantasia do Gugu?
-- Ih, Aurélio, me esqueci de trazer – disse Gugu, entre sorrisos que denunciavam que a frase soava como “me lembrei de esquecer”.
Foi aí que o Enéas instigou o demônio, de cetim rubro, enquanto o Melão (me lembrei neste minuto que também chamávamos o cabeçudo do Gugu por este apelido), já vestia seu traje de “civil”.
-- Que sacanagem, Gugu!! A d. Geralda passa noite em claro fazendo a tua fantasia e você sequer a traz para cá – disse Enéas, esperando uma reação do Al.
O esporro do Aurélio veio quase imediatamente – só não veio contíguo a incitação do Enéas porque o Aurélio, naquele momento, fazia uma barbichinha com lápis preto que ele pegara com sua irmã, Celeste.
-- Pó, cê num esqueceu. Não trouxe porque não quis. Putaria com a Geraldinha... Ela deu um duro danado... –disse Al, botando, pela primeira vez, o rabo do capeta entre as pernas, como um pinto.
Este gesto, ele repetiria, displicentemente durante todas as quatro noites de carnaval.
Sei que entre cobranças de Aurélio, desculpas esfarrapadas de Gugu e muitas risadas minhas e do Enéas, partimos para o clube.
Na noite do mesmo dia que chegamos ao Pontal, fomos para Angra.
Antes de encontrarmos com as meninas, já na Rua do Commercio, a principal da cidade, anunciei, resoluto, aos meus companheiros, ainda no Fiat
do Al.
-- Hoje vou terminar meu namoro com a Eliane. Carnaval tá chegando, vai ter um monte de gostosas de Barra Mansa, e eu não quero saber de compromisso - afirmei, com ares do mais novo boçal do pedaço.
Aurélio ainda me advertira, solícito:
-- Não faz merda, Eritos. Vai que num arruma ninguém nos bailes. Vai fazer o quê? Ficar com cara de bunda, chupando o dedo? Melhor você ficar com a Eliane...
-- Acha que sou louco? Eliane vai pular no Aquidabã também... Quero é distância... Com Bárbara, Renatinha, Natália (é claro que são nomes fictícios, não me lembraria de ninguém, a não ser de uma, a preferida do Aurélio) no baile, cê acha que eu entraria de mãos dadas com a Eliane? – justificava, canalhamente, minha opção por terminar o namorico de verão.
E eu falava das meninas de Barra Mansa como se as conhecesse. Sabia seus nomes – eram famosas para parúaras como nós - mas nunca trocara palavra com elas. Mas neste carnaval queria ver alguma resistir ao meu charme e à minha virilidade. Naquele momento, eu realmente acreditava que era charmoso e viril.
Encontramos as meninas. E eu queria me livrar de qualquer compromisso com a bonitinha de olhos azuis.
-- Oi, Eliane. Tenho que te dizer uma coisa – comecei, depois de um beijo não mais do que protocolar, num banco da praça que fica em frente ao cais. – Quero terminar.
Era evidente a surpresa da menina. Titubiou:
-- Mas, mas o que que houve? Tava tudo bem com a gente até você ir para Volta Redonda...
-- É... Mas o carnaval taí. E num gosto de manter namoro durante o carnaval – esnobei eu, como que gabaritado por muita experiência, antes de proferir o chavão impronunciável – Acho melhor ir cada um pro seu lado.
Era visível a decepção de Eliane, mas ela foi elegante e prática.
-- Certo, você é quem sabe. Tudo bem, então. Amigos? – propôs ela, me dando um abraço fraternal.
Pronto. Dissipei um problema, sem criar outro: a inimizade de Eliane.
Na quinta-feira, antevéspera de sábado de carnaval, um encontro aumentou significativamente nossas chances com as beldades de Barra Mansa. Trocamos a manhã no Pontal por boas horas em Angra. E fomos a uma das únicas praias razoáveis de Angra. A Praia das Gordas, vizinha ao Iate Clube do Rio de Janeiro (não me perguntam a razão dos nomes; ignoro totalmente).
Lá, graças ao estilo “entrão” do Aurélio, ficamos conhecendo Andréa, sua irmã, Nazareth (não, não são nomes fictícios) e mais três meninas de Barra Mansa. Longe de “abalarem Bangu”, elas eram ótimos canais até as iguarias barramansenses (ou “barramansuínas”, se o assunto fosse alguma querela envolvendo habitantes da cidade vizinha a Volta Redonda). Ainda mais que estavam hospedadas na mesma casa (uma mansão) que “nossas” meninas. Elas nos contaram que durante o carnaval deveriam ter umas 15 meninas, algumas de Volta Redonda.
Andréa e Nazareth eram gurias legais e bonitas – mas naquele verão, só tínhamos olhos para as outras, as sebosas e metidas que sequer sabiam da nossa existência – quanto mais de nossas pretensões.
Chegou o grande dia e eis que pontualmente às 11 da noite adentramos o Aquibadã, cheios de ímpeto juvenil.
Antes, porém, sacaneamos muito, eu e o Enéas, principalmente, o Aurélio e sua fantasia de diabo.
Aurélio vestido, fizemos alusões à masculinidade do traje. Mas a fantasia do Gugu?
-- Ih, Aurélio, me esqueci de trazer – disse Gugu, entre sorrisos que denunciavam que a frase soava como “me lembrei de esquecer”.
Foi aí que o Enéas instigou o demônio, de cetim rubro, enquanto o Melão (me lembrei neste minuto que também chamávamos o cabeçudo do Gugu por este apelido), já vestia seu traje de “civil”.
-- Que sacanagem, Gugu!! A d. Geralda passa noite em claro fazendo a tua fantasia e você sequer a traz para cá – disse Enéas, esperando uma reação do Al.
O esporro do Aurélio veio quase imediatamente – só não veio contíguo a incitação do Enéas porque o Aurélio, naquele momento, fazia uma barbichinha com lápis preto que ele pegara com sua irmã, Celeste.
-- Pó, cê num esqueceu. Não trouxe porque não quis. Putaria com a Geraldinha... Ela deu um duro danado... –disse Al, botando, pela primeira vez, o rabo do capeta entre as pernas, como um pinto.
Este gesto, ele repetiria, displicentemente durante todas as quatro noites de carnaval.
Sei que entre cobranças de Aurélio, desculpas esfarrapadas de Gugu e muitas risadas minhas e do Enéas, partimos para o clube.
Assinar:
Postagens (Atom)